Humanidade no fazer jurídico

Humanidade no fazer jurídico

Gabriele Chimelo*

10 de maio de 2020 | 03h45

Gabriele Chimelo. FOTO: DIVULGAÇÃO

O atual momento do nosso planeta fortaleceu uma série de sentimentos: empatia, solidariedade, proximidade. Em uma só palavra: humanidade. Sensações que nos conectam com o outro, que permitem olharmos ao redor de outras formas, que nos fazem reforçar a identificação com nossos semelhantes e suas diferenças. Uma oportunidade apropriada para refletirmos, também, sobre a atividade jurídica.

Foi-se o tempo que advogado e cliente não possuíam relação próxima. Hoje, o operador do Direito, sobretudo na hora das dificuldades, é um parceiro que divide as angústias. Nos processos de crise, como recuperações judiciais, administração de passivos, descontinuidade e falência, o empresário quer muito mais do que excelência técnica. Ele deseja humanidade, empatia. Quer ser tratado como único. E exige, cada vez mais, um trabalho artesanal.

Além de se preocupar com funcionários e tributos, necessita de soluções inteligentes, que nem sempre são as mais simples. Quer contar com seu time jurídico, que funciona quase que como um “ombro amigo”. O empresário precisa de conhecimento para a tomada de decisões. De segurança e da sensação de ser bem representado e protegido. O cliente carece de orientações e ações arrojadas, que levem em consideração a experiência de mercado, criatividade, genialidade.

Para isso, a doação, a troca deve ser intensa, e o causídico tem de entrar a fundo nos problemas da corporação, além de entender com detalhes o business. É fundamental estar no “chão de fábrica”, olhar nos olhos dos funcionários e mostrar que existe um ser humano defendendo a empresa e seus postos de trabalho. As soluções necessitam ser construídas com o cliente e moldadas às particularidades do caso. Cada projeto é singular, e as soluções devem ser tailor made — customizadas para a situação específica.

Passamos por um momento de extrema insegurança em todas as áreas. E é dever do advogado estado ao lado da empresa. De prestar o seu melhor, de vestir a “carapuça” do empresário e sentir suas dores e amarguras. Pois, somente assim, conseguirá dimensionar os impactos que cada ação e reação pode ocasionar, com efeitos em milhares de famílias que dependem da renda e dos empregos gerados por aquele negócio. Um fardo que é difícil carregar sozinho.

Se não existir humanidade nessa relação, nossa profissão chegará ao fim. Afinal, o que nos difere dos robôs é o sentir e a passionalidade que cada caso gera em cada um de nós, juristas. Que possamos renovar nossos olhares e estarmos mais próximos ao longo de todo o fazer jurídico. O mundo se transforma por relações mais empáticas e solidárias. Cabe ao Direito Empresarial também ser parte desse movimento.

*Gabriele Chimelo, advogada e sócia do escritório Scalzilli Althaus

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