Humanidade digital

Humanidade digital

José Renato Nalini*

28 de fevereiro de 2022 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Novos tempos, novos desafios. A tecnologia avançava, mais em alguns nichos do que em outros. Mas a pandemia acelerou sua disseminação e criou opções até então pouco exploradas. Não é possível hoje, viver sem o mundo web.

Antes de 2019, o Brasil já possuía mais mobiles do que população. Foi o que possibilitou a intensificação das aulas remotas, dos trabalhos no sistema Justiça, que produziu mais de setenta e cinco milhões de atos e, principalmente, do atendimento na saúde.

Os millenials, que já nasceram com singular desenvoltura para o mundo virtual, encontraram opções e alternativas para simplificar a obtenção de bens da vida, para aperfeiçoar serviços e para tornar a vida comum afeiçoada à contemporaneidade. As crianças desta geração parecem já nascer com chips, tal a sua familiaridade com as redes.

Um dos instigantes paradoxos destes tempos é o recrudescimento da violência. A violência física não pode ser negligenciada, observa Lucien Sfez. “É uma força exercida com certo prazer contra tudo o que é fraco (espiral: força, vida, extensão da potência, no sentido de Spinoza)”.

Só que existem outras violências, algumas antigas, chamadas simbólicas, companhia permanente da espécie racional. Mas a violência intelectual ganhou singular contundência, com o emprego das vias digitais.

Embora a imensa maioria dos usuários das redes não tenha conhecimento preciso sobre as técnicas, nem acesso às mais recentes descobertas científicas, isso não impede que elas sejam utilizadas como instrumento de guerra.

As TICs propiciaram uma verdadeira revolução nas teorias da informação e nas técnicas do pensamento. As práticas que o império comunicacional primeiro exaltou e depois viabilizou, provocam uma intensa perturbação da razão habitual. Elas impactam o pensamento, que se submete, passivamente, a uma eficiente manipulação.

Para o professor de Ciência Política da Universidade Paris I, Lucien Sfez, está-se caminhando depressa para o “tautismo”, um neologismo que ele criou em “Crítica da Comunicação” e que “resulta da contração de autismo e tautologia, evocando um olhar totalizante, ou até mesmo totalitário. O tautismo é o mal absoluto, ameaçador, da sociedade da comunicação e das tecnologias da comunicação. Não nos surpreendamos que possa intervir aqui nas práticas de uma forma particular de tecnologias da comunicação, o que denomino “tecnologias do espírito”.

Tudo se torna mais sério e mais insidioso, com o apelo à interatividade. Acena-se com a máquina para agregar os homens, torná-los mais próximos, mais polidos, mais cooperativos. O chamado é sedutor: vê-se “o homem e a máquina unirem-se por amizade, numa aliança que pouco a pouco se torna casamento, até a espera apaixonada dos filhos nascidos da fecundação recíproca”. Mas que cria é esta? Surge uma prole irada, raivosa, pronta a atacar quem não pense da mesma forma. Só que esse pensamento, poderia ser uma potência remota antes da vulgarização do uso das máquinas inteligentes. A partir daí, tornou-se hegemônico e excludente. Só dá espaço para quem partilha dos mesmos ideais e codivide idêntica aversão.

Aquela malquerença passa a governar todas as outras. Elege-se o inimigo e ele deve ser exterminado. A contaminação dos espíritos opera um fenômeno facilmente apreensível: simples técnicas, elaboradas para unir, como ferramentas conceituais pertinentes para conformar um olhar determinado, convertem-se em tecnologias de visão totalitária.

Hoje, todos estão conectados. A rede tem vida própria: é uma árvore pulsante, um organismo vivo com inúmeras ramificações. Um só toque e se pode atingir grupos inteiros. A velocidade com que as mensagens atingem número incrível de destinatários é tão inimaginável quantas as ramificações possíveis sobre as quais incidem.

Um sistema conhecido por “rede” já por si constitui metáfora: não tem começo, nem tem fim. Circula sem ordem, com todas as suas ramificações e retransmissores impropriamente chamados “multimídia”, ou seja, um sistema aberto e incontrolável.

Como domar essa realidade, cujos desígnios não se subordinam à lógica tradicional, para que se extraiam das redes só os frutos bons, eliminando – ou pelo menos reduzindo – aqueles envenenados?

Pois não deixa de ser veneno letal o que se veicula como fake News, maledicência, deboche, humor cáustico e humilhante, que aprofunda a divisão entre semelhantes que, por pensarem de forma diferente, não devem ser tratados como inimigos.

O Brasil precisa, com urgência, de um plano consistente de obtenção de uma virtualidade essencialmente humana.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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