Hubs de solidariedade estão só começando

Hubs de solidariedade estão só começando

Tati Oliva*

26 de abril de 2020 | 09h00

Tati Oliva. FOTO: DIVULGAÇÃO

A pandemia está redefinindo o conceito de concorrência e relativizando a importância do lucro. As empresas, visando à sobrevivência de um sistema do qual elas fazem parte, estão revendo práticas naturais no ambiente em que nasceram e cresceram.

A solidariedade não é mais uma opção – é a única alternativa. O momento é de união, de criar parcerias de verdade. De repente, deixamos todos de olhar apenas para nossos umbigos.

Um exemplo: o Shopping Iguatemi não está cobrando aluguel das lojas. Outro exemplo: as cervejarias compreenderam que, se não cuidarem do bar, não terão futuro. Há muitos outros. A covid-19 expôs de maneira inequívoca a interdependência vital entre fornecedores e tomadores de serviço.

Ninguém quer parecer oportunista num momento como o atual, muito menos associar tal imagem às marcas. Levar vantagem, uma regra do jogo até então, não tem mais lugar na nova realidade. Em tempos dramáticos, é vedado ao empresário pensar pequeno.

Empresas podem efetivamente ajudar as pessoas a salvarem suas vidas. O negócio é fundamental, claro, mas fica para um segundo momento. E ele virá, com certeza. Aos poucos, o comércio retornará aos níveis pré-pandemia e o consumo, hoje represado, irá se normalizar. Até lá, ganharão as empresas que souberem perder, isto é, que se mostrarem sinceramente preocupadas com o coletivo, colocando os interesses da comunidade acima dos seus próprios.

O marketing, da mesma maneira, precisará se reinventar. Em vez de dizer “meu biscoito é o melhor da praça”, deverá assumir: “Preciso vender meu biscoito. Me ajuda?” Essa deve ser a pegada comercial.

Até a moda vai mudar. As pessoas continuarão querendo ficar bonitas, mas a roupa vai precisar ter uma função além de apelar à aparência. Os vídeos do Iorane Voices, por exemplo, não falam diretamente sobre comprar roupas, sobre o look do dia. Eles falam sobre o que pode ajudar você no seu dia a dia. A ideia é fidelizar. Feito isso, a venda vai vir como consequência.

O negócio da Cross Networking é juntar marcas, para que possam trabalhar juntas e melhorar seus negócios. Cruzamos os interesses dos clientes a partir de suas necessidades. No pós-crise, vamos ter que entender ainda mais o que ele precisa. Não basta ter uma boa ideia. Tem que ser uma boa ideia que traga solução por meio de outra marca. Para isso, temos que entender melhor o cliente, estudar mais, estar atentos para sugestões mais assertivas.

A forma que a Cross encontrou de ajudar nesse momento foi fazendo o que a agência faz melhor: cruzar ofertas e necessidades em um hub de solidariedade. Batizamos esse movimento de “Cross Solidário”, que permanecerá como nosso compromisso também no pós-crise. O projeto nasceu da nossa vontade antiga de fazer projeto social. Faltava o momento certo. Agora não falta mais.

Com a iniciativa, queremos fazer uma espécie de “Tinder” para ajudar a conectar as duas pontas: quem precisa e quem se dispõe a doar. É uma maneira de nos mantermos úteis e relevantes em tempos de pandemia e também depois. Para exemplificar como a venda vem a reboque, o hub acabou virando ainda uma oportunidade de prospecção.

Empresas devem estar mais atentas para seu braço social, algo que antes não era tão estratégico. Não se trata de uma disposição circunstancial. A crise vai passar, mas não os hubs de solidariedade – eles estão apenas começando.

*Tati Oliva é sócia-diretora da Cross Networking

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