‘Houve pagamento de vantagem indevida, sim senhor’, diz Duque

Renato Duque, indicado pelo PT no esquema de arrecadação de propinas na Petrobrás, confirmou a Moro corrupção em obra do Cenpes, no Rio; 'Barusco era o braço operacinal da parcela que me cabia'

Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

21 de junho de 2017 | 18h54

Renato Duque. Foto: Reprodução

O ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato de Souza Duque confessou ao juiz federal Sérgio Moro, dos processos de primeira instância da Operação Lava Jato, que houve pagamento de propinas nas obras do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes), da Petrobrás, no Rio. E que parte foi para o PT.

“Houve pagamento de vantagem indevida, sim senhor.”

A acusação aponta que o Consórcio Novo Cenpes pagou cerca de R$ 21 milhões de propinas, equivalente a 2% do valor do contrato das obras, assinado em 2008.

“Tenho conhecimento que sim, através do tesoureiro Paulo Ferreira”, afirmou Duque.

Candidato a delator na Lava Jato, o ex-diretor está preso desde maio de 2015, em Curitiba. “Esse pagamento de propinas era algo institucionalizado.” É o terceiro depoimento que ele presta e se declara candidato a colaborador e confessa os crimes.

“Em 2013 fizemos um acerto de contas, não só desse contrato e de outros. Nesse acerto ficou combinado que eu receberia US$ 12 milhões do agente da Keppel Fels, Zwi Skornicki, e R$ 50 milhões do senhor Julio Camargo, e aí zeraria minha conta com Pedro Barusco no tocante a propina.”

Também são réus nesse processo o ex-tesoureiro do PT Paulo Ferreira e o ex-vereador petista Alexandre Romano, os executivos ligados à OAS, José Adelmário Pinheiro, o Léo Pinheiro, e Agenor Franklin Medeiros, além de executivos ligados à Carioca Engenharia, Ricardo Beckheuser Pernambuco, e Schahin, Construbase e Construcap, Roberto Capobianco. E os operadores de propinas Roberto Trombeta, Rodrigo Morales e Adir Assad.

“O pagamento era algo usual. Era uma maneira de determinadas empresas levarem vantagens em cima de parcerios em consórcios.”

À esquerda, a primeira construção do Cenpes, de 1968. À direita, a nova parte do centro tecnológico após a inauguração, em 2010. Foto: Petrobrás

Barusco. Duque afirmou que Pedro Barusco, ex-gerente de Engenharia da Petrobrás e seu braço-direito na estatal, foi apontado por ele como “braço operacional da parcela” das propinas que lhe cabia.

“Ele (Barusco) se encarregava de fazer as negociações com as empresas, recolher o dinheiro, controlar a propina e efetuar o pagamento da parcela que me cabia”, explicou Duque. “Existia um referencial, nem sempre ele era acordado. Ficava em torno de 1% do valor do contrato, sendo metaa para o Partido dos Trabalhadores no caso dos contratos gerenciados pela área de Serviços e metade para Barusco e para mim.”

Duque disse que não chegou a receber a propina devida a ele no negócio. “O Barusco fazia o recebimento e o controle do dinhero. Para evitar transferências de dinheiro, ele manteve a posse dessa propina. Foi em 2013 que sentamos para ver como faríamos a divisão e como eu receberia a parte que me cabia. E ficou combinado que seria US$ 12 milhões recebidos através de Zwi Skornicki e R$ 50 milhões através de Julio Camargo.

“O senhor recebeu então?”, questionou o advogado Luis Gustavo Rodrigues Flores, defensor de Duque.

“Não, esses US$ 12 milhões e R$ 50 milhões que incluia o dinheiro do Novo Cenpes, eu não recebi”, segundo ele, o crédito que ele tinha não chegou a ser pago, pois em março de 2014 seria deflagrada a Lava Jato.

A ação penal decorre da 31ª fase da Lava Jato, batizada de Operação Abismo. Avaliadas em R$ 850 milhões na época da licitação, em 2008, as obras do Centro de Pesquisa custaram R$ 1 bilhão.

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