Homens de fibra

Homens de fibra

José Renato Nalini*

01 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Quando se assiste ao que ocorre no Brasil deste fatídico 2021, indaga-se onde foram parar os varões brasileiros que enfrentaram situações até mais drásticas e deram testemunho de ética, retidão e coragem hoje tão em falta.

Relendo “A Revolução Paulista”, que Menotti del Picchia escreveu já em outubro de 1932, encontro vários episódios que enaltecem o brio bandeirante. Qualificativo de que sempre se orgulharam os nascidos em Piratininga.

Mal iniciada a Revolução em 9 de julho de 1932, com o manifesto do General Isidoro Dias Lopes e do Coronel Euclides Figueiredo, Menotti procura Cassiano Ricardo, Secretário do Interventor Pedro de Toledo.

Chega aos Campos Elíseos, palácio que lhe traz amargas lembranças. “Estávamos no hall do faustoso solar de Elias Chaves. Quantas recordações! Ali, em 1924, ao lado do saudoso e querido Carlos de Campos, por quatro dias e três noites insones, ao matracolejar das metralhadoras, com um punhado de civis bisonhos mas decididos e algumas centenas de soldados regulares, havíamos resistido aos revoltosos de Isidoro. Noites de inferno e dias de tormento entre os gemidos dos feridos e as estridentes ordens de comando, o assobio e os estrondos das granadas. Dali havíamos saído, humilhados e vencidos, justamente no instante em que se verificava a nossa vitória…

Nesse mesmo trágico palácio, anos após, eu assistia à agonia desse mesmo doutor Carlos, espírito complexo de político e de artista, alma de santo tão generosa e tão incompreendida.

Depois, companheiro por função política e jornalística do doutor Júlio Prestes, assistira, até à última hora, nesse mesmo palácio fatídico, a derrocada do último governo legal entre os tripúdios festivos de um povo embriagado pelo vinho do liberalismo da famosa aliança. Esse palácio somente tinha para mim recordações funestas. Um mau nume vela certamente pela sorte dos seus efemeramente poderosos moradores.

Na minha frente estava um velho sadio e solene, de sorriso cheio de bondade e de olhos vagos e místicos.

O doutor Cassiano apresentou-me.

Não há coisa mais diferente de um homem público que a própria fotografia. Nós, à distância, nos apossamos dos traços que nos oferece um clichê de jornal e, mentalmente criamos com esse precário material uma personalidade, emprestamos-lhe uma alma, umas atitudes, criando assim um ser vivo, moldado por nossa simpatia ou por nossa antipatia, convivendo com ele, atribuindo-lhe intenções, tudo decorrente da máscara impressa com um pouco de tinta num pedaço de papel. Como os homens são diferentes dos seus retratos! Para mim o doutor Pedro de Toledo era até então um velho displicente e cansado, assinando decretos preparados pelos seus secretários, figura senhorial e decorativa feita para preencher um lugar difícil de ser preenchido dadas as cobiças que corvejavam em torno dele. Não. O doutor Pedro de Toledo não era o homem dos retratos publicados na imprensa. Rijo, reto, cabeça ornada por poucos cabelos brancos, lábios inverossivelmente moços e escarlates, espiritualizados por um sorriso acolhedor e franco, irradiava uma serenidade absoluta, uma calma forte. Fidalgo nos gestos, denunciando o antigo diplomata, sua voz macia e lenta, recortando uma a uma as palavras, fluía uma estranha persuasão nada blandiciosa mas sempre meiga.

Ofereci-lhe meus préstimos. Aceitou-os.

– Como vê, nada posso opor ao imperativo das circunstâncias. É São Paulo em peso e creio que a nação toda que exigem o pronto restabelecimento da lei. A causa como vê é santa. Um paulista não pode atraiçoar a aspiração legitima de todos os paulistas. Cumpri meu dever relutando enquanto pude, mostrando todos os aspectos da luta. Vamos para a guerra. Para ela vou com o mesmo ânimo com que sempre desejei a paz.

À tardinha o povo fará a pública proclamação do meu novo governo. Receberei o poder da própria multidão, diretamente. É essa a maior sagração que um homem público poderia aspirar na vida.

É o plebiscito. Pela primeira vez se realizará de fato, no Brasil, a verdadeira eleição democrática – repliquei, um tanto desapontado pois não cria muito nos prodígios da decantada democracia”.

Essa a narrativa de Menotti del Picchia, um polímata que dez anos antes atuara na Semana de Arte Moderna, que mudou os rumos da cultura brasileira e que em 32 soube lutar por São Paulo.

Já tivemos homens públicos, cidadãos que exerceram a política assim, na condição de patriotas desapegados do poder. Por que foi que enveredamos por outras sendas?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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