Homem que denunciou vereador por racismo acusa condomínio no Rio de ‘retaliação’ após ser demitido

Homem que denunciou vereador por racismo acusa condomínio no Rio de ‘retaliação’ após ser demitido

Izac Gomes, de 57 anos, foi dispensado apenas 15 dias depois de ter acusado o emedebista Renato Oliveira, da Câmara de Embu das Artes, município da Grande São Paulo, de tê-lo ofendido em um prédio na Barra da Tijuca; 'foi tudo muito estranho', diz

Jayanne Rodrigues

15 de março de 2022 | 18h14

O funcionário sofreu injúria racial durante o horário de trabalho. Foto: Reprodução/ Internet

“Foi uma tremenda covardia”, relatou o supervisor operacional Izac Gomes, 57, em entrevista ao Estadão, sobre ter sido demitido 15 dias após denunciar injúria racial cometida pelo vereador de Embu das Artes Renato Oliveira (MDB-SP) no condomínio em que trabalhava havia quatro anos, localizado na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Desempregado e sem apoio jurídico, o funcionário prestou uma queixa-crime no Ministério Público do Trabalho contra o prédio Estrela Full. Agora ele está sendo acompanhado pelo Núcleo contra a Desigualdade Racial (Nucora) da Defensoria Pública do Rio. 

Para Izac, ele foi vítima de retaliação. “Foi tudo muito estranho, não sei qual foi o motivo”, disse em referência à demissão. Alguns dias antes de ter sido dispensado, ele relembrou que teve um desentendimento com a síndica do local. Na ocasião, ele foi convidado para uma reunião com outros três colegas. Segundo o supervisor, a síndica o acusou de ser “condizente com um funcionário que saia antes do horário previsto”. Izac disse que naquele momento negou a veracidade da conduta do colega de trabalho, mencionada pela administradora. Como reação, ela o mandou sair da sala. “Mas até ali não estava imaginando o que ia acontecer”. 

Quatro dias depois, foi notificado pela administração do condomínio sobre a dispensa. “Simplesmente me jogaram na rua”. Com a falta de transparência em relação ao episódio, o supervisor afirmou ter duas hipóteses para a causa da demissão: a represália após ter feito a denúncia sobre o caso de racismo ou uma possível perseguição do vereador acusado do crime. 

“Não consigo pensar em outra coisa. Sempre fui correto, nunca tive advertência”, argumentou. Agora, a rotina de Izac é cercada por dúvidas e pelo temor do futuro. “A minha vida aqui no Rio mudou”. Antes da demissão, ele estava com o pedido de aposentadoria em andamento. Com a mudança repentina, relatou não ter mais planos. “Primeiro, sofri racismo. Agora mais uma situação de constragimento”, lamentou. 

Mesmo com a sequência de acontecimentos desagradáveis, ele reforça: “não quero ser visto como vítima”. A Comissão de Trabalho da Alerj comunicou que irá oficiar o condomínio da Barra da Tijuca para dar explicações sobre o que motivou a demissão de Izac. 

“Não podemos deixar de pensar que a dispensa do condomínio, além de causar estranhamento, tem um efeito coletivo de desencorajar a população negra a denunciar casos de racismo”, resumiu a deputada do Rio de Janeiro Mônica Francisco (PSOL), parlamentar que está acompanhando os desdobramentos do caso na Alerj.

CASO DE RACISMO

A situação aconteceu no dia 13 de janeiro. O vereador Renato Oliveira (MDB-SP) havia proferido ofensas racistas contra Izac Gomes. Sob aplausos, ele foi detido pela Polícia Militar Fluminense quando estava na piscina do condomínio Estrela Full. O político negou a acusação de injúria racial e justificou que “houve um desentendimento pela manhã na piscina do condomínio que causou alguma discussão da parte das pessoas que estavam comigo com outros moradores por causa de som”. Além disso, responsabilizou a PM de “inventar um crime para que eu pudesse ser conduzido”.

COM A PALAVRA, O CONDOMÍNIO ESTRELA FULL 

A reportagem do Estadão entrou em contato com a advogada que representa o espaço, mas até a publicação deste texto a equipe não recebeu posicionamento oficial do condomínio. O espaço está aberto para manifestação. (jayanne.rodrigues@estadao.com).

COM A PALAVRA, O VEREADOR RENATO OLIVEIRA 

A equipe entrou em contato com a assessoria do parlamentar por email, mas não houve retorno. O espaço está aberto para manifestação (jayanne.rodrigues@estadao.com). 

 

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