Homem de confiança de Dilma, Cardeal está na mira da Operação Pripyat

Homem de confiança de Dilma, Cardeal está na mira da Operação Pripyat

Ex-diretor da Eletrobrás, aliado da presidente afastada, foi levado para depor coercitivamente, nesta quarta; seu nome foi citado por delatores da Andrade Gutierrez como responsável pelas negociações com empreiteiras em contratação na Usina de Angra 3, que teve propina acertada para PMDB e PT

Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Julia Affonso

06 de julho de 2016 | 14h17

Valter Luiz Cardeal (à esq.) e Othon Luiz Pinheiro da Silva. Fotos: Estadão

Valter Luiz Cardeal (à esq.) e Othon Luiz Pinheiro da Silva. Fotos: Estadão

A Operação Pripyat, que apura propina nas obras da Usina Termonuclear Angra 3, no Rio, apura qual o papel de Valter Luiz Cardeal de Souza, ex-diretor da Eletrobrás, no esquema de propinas que abasteceu agentes públicos e políticos do PMDB e do PT. Afastado desde 2015, quando seu nome surgiu nas investigações da Lava Jato, Cardeal foi levado coercitivamente para depor, nesta quarta-feira, 6.

O Ministério Público Federal e a Polícia Federal consideram o papel do aliado de Dilma na corrupção em Angra 3 “ainda não foi devidamente esclarecido”. “Ainda foi alvo da operação, por condução coercitiva e busca e apreensão, o diretor afastado da Eletrobrás Valter Luiz Cardeal de Souza, que teve um papel ainda não devidamente esclarecido na negociação de descontos sobre o valor da obra de montagem eletromecânica de Angra 3 com posterior pedido e pagamento de propina realizado no âmbito dos núcleos político e administrativo da organização, conforme relatos de diversos réus colaboradores”, assinala o Ministério Público Federal.

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Cardeal é homem de confiança da presidente afastada Dilma Rousseff. O alvo da Pripyat é funcionário da companhia de energia do Rio Grande do Sul, desde a década de 1970, e foi levado para o governo federal por Dilma, quando ela assumiu como ministra de Minas e Energia no governo Luiz Inácio Lula da Silva. Sempre foi considerado no meio político um “xerife” na estatal energética, mandando indiretamente em todas subsidiárias.

A Operação Pripyat, deflagrada nesta quarta, levou o ex-presidente da Eletronuclear Othon Luiz Pinheiro da Silva novamente para a cadeia. Ele cumpria prisão em regime domiciliar, depois de ter sido detido em julho de 2015, alvo da 16ª fase da Lava Jato, batizada de Operação Radioatividade. O processo iniciado pelo juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba, acabou sendo enviado para a Justiça Federal, no Rio, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). A nova prisão de Othon e a condução de Cardeal de hoje foram decretadas pelo juiz federal Marcelo Bretas, da 7ª Vara Criminal do Rio.

DELAÇÃO CLOVIS 1% ACERTO OTHON E PARTIDOS

DELAÇÃO CLOVIS 1% PMDB 1% PT

‘Pessoa de Dilma’. O nome de Cardeal apareceu na Lava Jato pela primeira vez na delação do empreiteira Ricardo Pessoa, dono da UTC, sobre os R$ 30 milhões de propina pagos em Angra 3. Pessoa, na época, citou que o comentário era que ele era “pessoa da Dilma”. Na ocasião, ele e o irmão do ex-ministro Antonio Palocci (Fazenda e Casa Civil, Adhemar Palocci, se afastaram da Eletrobrás. Os dois são investigados no esquema de propinas em outras obras do setor, como nas hidrelétricas  de Belo Monte e Jirau.

Para os investigadores da Pripyat, Cardeal terá de explicar “a negociação de descontos sobre o valor da obra de montagem eletromecânica de Angra 3, com posterior pedido e pagamento de propina realizado no âmbito dos núcleos político e administrativo da organização”.

Três delatores da Andrade Gutierrez que fecharam acordo de delação premiada com a Procuradoria Geral da República apontam Cardeal com papel decisivo na negociações de fusão de dois consórcios de empreiteiras que disputavam contrato das obras de montagem de Angra 3, que foi lançado em 2011. As obras de construção cível da unidade começaram na década de 1980, ficaram paradas e foram  retomadas em 2009.

DELAÇÃO FLAVIO BARRA SOBRE CONSORCIOS CARDEAL

DELAÇÃO FLAVIO BARRA SOBRE CONSÓRCIOS 1% PMDB

Flavio David Barra explicou que as empresas envolvidas, como UTC, Odebrecht e Camargo Corrêa, se acertaram para unificarem dois consórcios e depois se reuniram com Cardeal para acertar os descontos na obra.

Segundo outro executivo da Andrade que fez delação, Gustavo Botelho, “no orçamento da proposta de fusão já havia um percentual separado para eventuais custos futuros decorrentes de ‘contribuições a políticos, ou seja, pagamento de propina”. “Essa verba não tinha uma rubrica específica mas estava diluída em vários preços contidos ao longo das tabelas.”

DELAÇÃO GUSTAVO BOTELHO CARDEAL CONSORCIOS CONTRIBUIÇÃO

 

O nome de Valter Cardeal havia sido apontado para investigadores da Lava Jato pelo delator Ricardo Pessoa, dono da UTC, que era uma das empresas líderes do consórcio de montagem da Usina de Angra 3, contratado em 2011. Ele também caiu no grampo da Polícia Federal três semanas antes do ex-presidente da Eletronuclear ser preso na Operação Radioatividade, em junho de 2015. Às 14h do dia 11 de julho, Othon Luiz recebeu ligação de Valter Cardeal, que ainda era diretor de Geração da Eletrobrás.

Os dois conversaram durante 7 minutos e 44 segundos. O tema central do diálogo foi o empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenharia e delator da Lava Jato, e uma suposta articulação contra denúncias que os envolveriam em propinas.

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Na delação de Clóvis Renato Primo, da Andrade Gutierrez, o executivo entregou à Procuradoria da Geral da República um resumo dos esquemas em Angra 3. Segundo ele, houve acerto de propinas para os agentes públicos, no valor de 1% dos contratos e de percentuais para o PMDB e PT.

DELAÇÃO CLOVIS RESUMO ANGRA

DELAÇÃO CLOVIS RESUMO ANGRA 2

 

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