Homem da mala disse que Padilha será afastado, ‘quando virar réu’, para manter o foro

Homem da mala disse que Padilha será afastado, ‘quando virar réu’, para manter o foro

Rocha Loures disse, antes de ser preso, que afastamento seria saída para proteger homem forte de Temer de processo criminal em Curitiba, nas mãos do temido Moro

Julia Affonso e Ricardo Brandt

04 Julho 2017 | 05h00

Eliseu Padilha. Foto: Andre Dusek/Estadao

Homem forte do governo Michel Temer, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, foi citado pelo ex-assessor da Presidência Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), o homem da mala, em conversa gravada pelo lobista da J&F, em Brasília, Ricardo Saud. Os dois falam sobre uma tentativa de proteger investigados pela Operação Lava Jato, afastando-os do cargo para manutenção do foro privilegiado.

“Eu acho, na minha opinião pessoal, eu acho que a situação do ministro Padilha e muito difícil”, afirma Loures, aos 1 hora e 26 minutos do áudio. O homem da mala não sabia que estava sendo gravado. “Ele não deixará o governo logo, mas será afastado.”

“Eu acho que o que que vai acontecer, vai afastar … vai afastar o Padilha e outros, eventualmente outros, quando oferecerem a denúncia.”

Para Loures, a situação do ministro da Casa Civil é complicada, e lembra o que disse Temer no início do ano sobre como procederia com membros do governo denunciados pela Lava Jato.

“A gente tem que aguardar aquele tempo que falei, quanto tempo demora para o Ministério Público apresentar a denúncia. O que o presidente falou foi ‘aquele que for denunciado pelo Ministério Público será afastado do governo, se essa denúncia for aceita pela Supremo Tribunal Federal, está demitido’. Acho que ele vai afastar o Padilha.”

No dia 26 de junho, a Procuradoria Geral da República (PGR) denunciou formalmente o presidente Temer para o Supremo Tribunal Federal (STF) por crime de corrupção, docorrente das revelação de delatores da J&F. O presidente ainda pode ser alvo de acusação por obstrução de Justiça. A Câmara dos Deputados vai decidir se o processo poderá ser aberto ou não.

 

Rocha Loures deixa a carceragem da PF. Foto: André Dusek/Estadão

Foro. Na conversa, Loures detalha os motivos do afastamento de Padilha e de outros ministros investigados: seria uma forma de manter o foro privilegiado. O homem da mala foi assessor especial da Presidência e havia assumido cadeira na Câmara dos Deputados, por decisão de Temer – segundo ele conta no diálogo.

“Pode ser agora, ou pode ser daqui há um ano. Mas o que eu quero dizer que, apresentada a denúncia, Temer já vai ter que afastar.”

Loures diz que quando for aberto o processo criminal no Supremo Tribunal Federal, Temer afastará o ministro investigado do cargo, não demitirá. “Afasta, mantém o foro e ai vai ficar lá, Ricardo, um ano, dois, sob investigação.”

O delator questiona se assim o ministro réu ficaria no cargo.

“Não, daí ele sai. Ele vira um leproso. Ele sai e fica e põe lá um interino. Põe lá um interino”, responde o home da mala.

“Ah, e o cara não perde o foro”, diz Saud.

“Aí não perde o foro”, confirma Loures.

“Poh e ainda os ajuda os caras.”

“Claro”, diz Loures.

“Isso é campanheirismo”, completa o delator.

O encontro foi comunicado à Polícia Federal. Saud informou que realizaria encontro com Loures, em um café em São Paulo, em abril, para tralar do tema referente a Empresa Produtora de Energia, do Grupo J&F, e propinas.

Com meios próprios – como fizera em outras ocasiões – Saud gravou a conversa que manteve com Loures, em que trataram de assuntos diversos, especialmente do tema relacionado ao CADE e das repercussões financeiras que importavam ao homem da mala.

Proteger. A conversa de quase duas horas é de poucos dias antes de Loures ser filmado saíndo com R$ 500 mil em dinheiro vivo, de uma pizzaria. O delator queria saber dele da situação do governo e as investigações que encurralam a J&F e membros do PMDB.

Loures afirma que o afastamento de Padilha e de outros ministros que se tornarem réus, como Moreira Franco, seria para proteger aliados e evitar que eles tenham seus processos enviados para Curitiba, nas mãos do temido juiz federal Sérgio Moro – da primeira instância da Lava Jato.

“Então ele vai proteger… e enquanto essa investigação durar, qual é o limite do Padilha? É o dia 31 de dezembro de (20)18, quando o presidente, se a investigação do Supremo for … se ele, se ele permanecer afastado do cargo até dia 31 de dezembro de 2018, ele continua com o foro privilegiado e vai organizar a sua defesa, vai responder ao Tribunal e não perde o foro”, afirmou Loures.

“Mas quando o Temer deixar o Governo… Perde o foro. E aí ele vai para…, no caso do Padilha, ele vai lá pra Curitiba.”

Rocha Loures foi afastado da Câmara, por ordem do ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, em 18 de abril, quando foi deflagrada a Operação Patmos – que encurralou Temer e o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG).

Sem cargo na Câmara, depois do retorno de Osmar Serraglio (PMDB-PR), exonerado no Ministério da Justiça, o homem da mala foi preso pela Polícia Federal no dia 3 de junho. Na sexta-feira, 30, ele foi mandado para casa, sob monitoramento de tornezeleira eletrônica, por decisão de Fachin.

Rocha Loures foi flagrado carregando uma mala com R$ 500 mil, no dia 28 de abril em uma das ações controladas feitas por investigadores junto aos delatores do grupo J&F. A PGR aponta que o valor recebido era propina repassada pelos empresários e suspeita que Temer possa ser destinatário.

Padilha ainda não é réu da Lava Jato. Seu nome foi citado nas delações da Odebrecht, como ligado a acerto de R$ 10 milhões de propinas para Temer na campanha de 2014, da conta corrente que a empresa tinha com o PT e a ex-presidente Dilma Rousseff.

Em março o ministro da Casa Civil foi denunciado pelo procurador-geral da República, na chamada Lista de Fachin, decorrente das delações da Odebrecht, mas ainda não virou réu.

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