Home office em tempos de pandemia: umas poucas reflexões sociológicas

Home office em tempos de pandemia: umas poucas reflexões sociológicas

Rodrigo Augusto Prando*

14 de abril de 2020 | 09h30

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

Muitos indivíduos e grupos sociais podem, pela natureza de seu trabalho, realizar o chamado home office, o desenvolvimento das atividades laborais e remuneradas no bojo de suas residências. Obviamente, já havia muitas categorias que se utilizavam de tal prática, mas diferente do que ora vivenciamos com a pandemia. Estar em home office sozinho é uma coisa. Agora, trabalhar ao mesmo tempo que a companheira ou companheiro também trabalha e com filhos tendo aulas on line ou fazendo tarefas, tudo isso, junto, somando-se os afazeres domésticos de limpar, lavar e passar roupas e cozinhar é algo bem distinto e não planejado, ao menos, pela esmagadora maioria das pessoas no mundo. De qualquer maneira, penso que essa experiência será impactante em nossas relações de trabalho doravante, para o bem e para o mal. No Brasil, o coronavírus terá, certamente, mais peso – no universo profissional – que a recente reforma trabalhista. Pensar, portanto, ainda que de forma parcial, incompleta, acerca do que socialmente atravessamos, é retomar algumas ideias e autores, penso eu.

No âmbito dos estudos sociológicos, o trabalho sempre se destacou por sua centralidade, como, por exemplo, pode-se depreender da leitura de autores clássicos como Durkheim em Da divisão do trabalho social, Marx em O capital e Weber em A ética protestante e o espírito do capitalismo. Há, ainda, autores contemporâneos – cientistas sociais ou não –  que se debruçaram sobre a temática e, à guisa de exemplo, temos Daniel Bell (O advento da sociedade pós-industrial), Alvin Toffler (A terceira onda), Alain Touraine (A crítica da Modernidade), Domenico De Masi (A sociedade pós-industrial), entre outros. De meros caçadores e coletores, os seres humanos passaram a domesticar e cultivar. Essa evolução do trabalho liga-se à própria evolução da espécie humana. O trabalho e a capacidade projetiva dos seres humanos, de planejar antes de realizar, os distingue de outros animais que agem por instinto, ligados ao aqui e agora. Abelhas e formigas dividem o trabalho e constroem colmeias e formigueiros, mas assim fazem da mesma maneira ao longo dos séculos, a não ser por mudanças evolutivas das próprias espécies. Abelhas e formigas não são produtoras de história, ao passo que os seres humanos ao modificarem a forma de trabalhar, da sua relação com a natureza, modificaram, também, a própria natureza e suas relações com os demais seres humanos. Por isso, o trabalho e suas relações entre indivíduos, grupos e classes sociais sempre foi uma chave sociológica de alto poder explicativo sobre as estruturas sociais e sua mudança histórica. Seja na escravidão presente no período clássico greco-romano ou na servidão durante a Idade Média, o trabalho estava dentro de casa ou, quando muito, do lado de fora, na lida com a terra para o cultivo ou pastoreio de animais. Foi, a partir da Revolução Industrial, que uma mudança radical se deu: a separação do espaço de moradia e do espaço da produção, do trabalho. Das manufaturas chegou-se à indústria, com sua divisão do trabalho, especialização e necessidade de separar, ainda, o trabalho intelectual (de criação, projetos e administração) do trabalho manual, de execução no chão de fábrica.

Abaixo, tomo de empréstimo, trechos de Domenico De Masi, em seu livro, O ócio criativo:

“Os princípios instaurados no interior da fábrica são completamente novos em relação ao trabalho agrícola ou artesanal. E são tão fortes que, embora formulados para a oficina, serão seguidamente aplicados também nos escritórios e, aos poucos, em todos os setores da sociedade. Depois da descoberta da agricultura e da criação de animais, pela primeira vez na história da humanidade repensar o trabalho significa repensar e reorganizar a vida inteira”.

E continua:

“Não se pode organizar o trabalho na grande indústria sem obrigar milhares de pessoas, que antes desenvolviam uma outra atividade no próprio lar, a sair de casa e ir para a fábrica. Mas estes milhares de pessoas, além de modificar o próprio ritmo de produção, deverão também modificar sua relações afetivas com os outros, sua relação com o bairro em que vivem e com a própria casa”.

E finaliza:

“É importante refletir hoje [escreveu em 2000] sobre tudo isso, pois estamos às vésperas de uma revolução nova e, igualmente, drástica: a da reorganização informática, graças ao teletrabalho e ao comércio eletrônico, que trarão de volta o trabalho para dentro dos lares e, assim, nos obrigarão a rever toda a organização prática de nossa existência”.

Peço, ao leitor, para, aqui, abrir um parêntesis: gravei aula e postei material para meus alunos num software livre de apoio à aprendizagem em um ambiente virtual há alguns minutos. Minha esposa, também professora, está on line dando aula para seus alunos e meu filho, depois de fazer as tarefas enviadas pelas professoras do colégio, está no quarto assistindo uma série na televisão, numa plataforma de streaming. E, logo mais, enviarei esse artigo por e-mail para sua publicação num Blog.

Hoje, os que estão no chamado home office são os que, na divisão do trabalho, se enquadram naqueles que desempenham funções intelectuais, criativas ou de gestão. Assim, professores, escritores, executivos, artistas, por exemplo, podem, de casa, entregar seus “produtos”, que não são materiais. Na pandemia, ou mesmo antes dela, muitos podem realizar suas tarefas profissionais de casa e muitos outros não podem. Os que precisam de deslocar para as indústrias para produção de mercadorias ou os que fazem as entregas das compras on line, via aplicativos, não podem se dar ao luxo do home office. Mesmo médicos e outros profissionais de saúde, ainda que comece a ser aceita a telemedicina, estão em hospitais e laboratórios trabalhando arduamente. Muitos dos autores “pós-industriais”, especialmente de países capitalistas mais bem desenvolvidos economicamente, já compreendiam as mudanças da transformação de uma sociedade que tinha o lucro preponderante na indústria para a emergência e força do setor de serviços. E, à época, nem se avizinhava a sociedade conectada em rede, com velocidade de informações em tempo real e a financeirização do capitalismo.

Não tenho, já para finalizar, dúvidas que a pós-pandemia transformará nossas vidas e, no caso, nossas relações de trabalho. Não sei se para melhor ou pior. Pressinto que poucos estarão preparados para a nova fase. Muitos professores, pesquisadores, intelectuais, escritores, executivos e artistas têm afirmado que estão aproveitando o isolamento social para ler e escrever ou repensar suas carreiras e trajetórias. Contudo, li, no domingo, no Estadão, o depoimento de Janaína Tavares, entregadora de refeição, moradora de Itapevi, afirmando que “na semana passada, um cliente do Brooklin disse que eu podia ficar com o almoço que ele havia pedido. Disse que era um agradecimento pelo nosso trabalho. Quase chorei. Fazia tempo que não ganhava nada. Era um almoço com arroz, feijão, farofa e bisteca”. Sobre o seu ganho indicou que “por dia, faço uns R$58. Nos dias mais fracos, só consigo pagar a passagem mesmo”. O que será de cada um de nós, de nosso trabalhos, pós-pandemia? O que será de Janaína?

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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