História de nossas esperanças

História de nossas esperanças

José Renato Nalini*

06 de dezembro de 2020 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

O pensamento universal desenvolveu inúmeras teorias para a permanente tentativa de prever o futuro. Angustiado pelas perguntas irrespondíveis – “De onde eu vim? Por que estou aqui? Para onde eu vou? Tudo acabará com a minha morte? – procurou nutrir a certeza de que a peregrinação terrena é um estágio apenas, de uma aventura transcendente.

Quem se detiver na leitura dos doutos encontrará instigante matéria para uma reflexão atemporal. Pense-se, por exemplo, em Condorcet. Nascido em 1743, seu tio era bispo de Auxerre, foi aluno dos jesuítas. Afeiçoado às ciências escreveu “Ensaio sobre o cálculo integral” com 22 anos. Foi amigo de d’Alembert e Turgot e se tornou Secretário Perpétuo da Academia Francesa de Ciências.

Seu “Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano” (1793) é uma eloquente visão da história, calcada na confiança de que a humanidade evolui. Ele concebe a história em quatro períodos. O primeiro é anterior à escrita. Era em que “estamos reduzidos a adivinhar por quais graus o homem isolado pode adquirir aqueles primeiros aperfeiçoamentos”.

O único guia para desvendar a história nesse período é a observação teórica a partir das faculdades intelectuais e morais. O segundo lapso situa-se depois da escrita. A comunicação deixa vestígios e registros. Fatos testemunhados por sociedades numerosas, distintas e esparsas. Como escolher, entre todos os povos, a sequência de eventos que a história transmitiu? A metodologia mais utilizada é compará-los, combiná-los e deles extrair a história hipotética de um povo único – a sociedade humana – para formar um quadro dos progressos do ser racional.

Em terceiro estágio, invoca-se a Grécia. Artífice de um legado que alicerçou a cultura ocidental. Aqui, o registro se converte em realidade histórica respeitável. Não é mais preciso adivinhar e elucubrar. Basta reunir e ordenar os fatos, para fortalecer a convicção de que o ser humano tem por destino o verdadeiro sentido de progresso. Não é a escalada material de conquistas sem pertinência com a formação do caráter, a consolidação de uma personalidade virtuosa. É o progresso moral, o único e verdadeiro êxito nesta caminhada.

O último quadro por desenhar, é o das esperanças. Haverá progresso reservado para as gerações futuras? A verdade obterá triunfo duradouro, embora vivamos dias de pós-verdade e de fake News?

O porvir pode ser melhor do que os preocupantes augúrios, propiciados pela observação de tudo o que acontece de errático, de cruel, de perverso e de falso no convívio entre as pessoas. No “Esboço” de Condorcet, parte-se da teoria da natureza humana, que enuncia a verdade natural de que o homem nasce com três faculdades fundamentais: a faculdade de receber sensações, a de sentir prazer e dor e a perfectibilidade.

Ao perceber sensações, o ser racional também adquire condições de analisá-las, compô-las e compará-las, abstrair seus elementos comuns e instituir signos. Como as sensações se fazem acompanhar de prazer e dor, o homem desenvolve a faculdade de transformar essa experiência em sentimentos duradouros, que estabelecem entre os semelhantes relações de interesse e dever. É a origem da moral, a ciência do bom comportamento entre as pessoas.

A perfectibilidade é o que ilumina a nossa trajetória, impondo-nos a obrigação de sermos a cada dia melhores. A natureza não impôs limites ao aperfeiçoamento das qualidades humanas. O caminho potencial da perfectibilidade é indefinido e infinito. Sustenta-se a tese de que essa rota pode ser mais célere ou mais lenta, mas nunca retrógrada.

Pascal dizia que o homem nasceu para a infinitude. Paradoxal, para o pensamento imediatista de uma sociedade consumista, narcisista e egoísta, refletir sobre essa infinitude e a fragilidade humana em tempos de pandemia.

O que se pode extrair desta calamidade que está descontrolada, que serve para exacerbar interesses subalternos de várias pretensas lideranças, é o desejo crescente de um humanismo suplantador de todas as diferenças. Todos os humanos estamos submetidos à mesma ordem inevitável que é a do encontro com a morte. A indesejável das gentes, a temível ocorrência que nos levará a todos.

Ocorre aos que estão correndo atrás de dinheiro, de cargos ou de influência, que a próxima vítima poderá ser um deles? Nenhum familiar, ente querido ou conhecido foi levado, impiedosamente, pelo invencível coronavírus?

Enquanto isso, cumpre a quem puder se desapegar das vaidades, da vã pretensão de obter riqueza e poder, glória e fama, oferecer ao menos um tijolo para a interminável missão de edificar uma história de nossas esperanças.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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