Hipocrisia e o teatro brasileiro

Hipocrisia e o teatro brasileiro

Antoine Abed*

28 de fevereiro de 2021 | 05h00

Antoine Abed. FOTO: DIVULGAÇÃO

Quando pensamos que já vimos de tudo e temos certeza que chegamos ao fundo do poço, o Brasil vai lá e surpreende. A cada dia que passa, nossa classe política nos dá mais motivos para nos desanimarmos com o nosso futuro. Tim Maia já tentou nos alertar quando disse: “Esse pais não pode dar certo. Aqui, prostituta se apaixona, traficante se vicia e pobre é de direita”. De qualquer maneira, não poderia esperar muita coisa de um país que inventou o consórcio, o carro a álcool e o cheque pré-datado, não é mesmo?

A escalada da hipocrisia e da demagogia está mais evidente, principalmente nessa época de pandemia, em que alguns indivíduos defendem que todos devem ficar em casa, porém, eles mesmos não seguem suas diretrizes e, sem pudor, frequentam restaurantes, festas, aniversários etc. Mas, pior do que eles, é a classe política, em que alguns se colocam como os “salvadores da nação” e, acreditando possuir o direito de opinar na vida dos cidadãos, decidem como esses devem viver!

Vejamos os exemplos que ocorreram durante a pandemia: os governadores do Pará, Rio de Janeiro e Maranhão foram acusados pela Polícia de desvio de dinheiro público na compra de respiradores e hospitais de campanha. Note que o governador do Estado do Rio de Janeiro era um ex magistrado! Ele estudou a vida inteira para guardar a Justiça e proteger a população contra abusos. O governador de São Paulo mandou fechar o comércio, decretou o isolamento da população e, em seguida, viajou para Miami para passar o feriado com a família, justamente em uma cidade que não adotou o isolamento e nem fechou o comércio.

Porém, o exemplo de hipocrisia mais recente e mais assustador, foi quando o prefeito da cidade de São Paulo mandou fechar novamente o comércio e, no mesmo dia, foi ao Maracanã assistir à final do seu clube de coração com outros oito mil sortudos que, ao que parece, pertencem a uma classe especial de brasileiros que não precisam ficar confinados. Se isso já não fosse suficiente, acrescente-se o fato de que o prefeito tem doença grave que o faz pertencer ao grupo de risco da pandemia que ele, pretensamente, tenta proteger seus cidadãos com medidas isolacionistas. Como se dará a construção de um pensamento dentro da cabeça dessas pessoas? Qual lógica eles atribuem para

achar que estão se comportando de maneira justa e coerente? Para finalizar, ao ser criticado por seu comportamento, o prefeito foi ao Instagram e, em sua defesa, disse: “Ir ao jogo é direito meu. É usufruir de um pequeno prazer de vida.”

Depois desse infeliz pronunciamento (em que deixa claro um viés prepotente e egoísta, já que ele pode usufruir de prazeres e nós não), ele foi além, acusou a sociedade de ser hipócrita: “A hipocrisia generalizada que virou nossa sociedade resolveu me julgar como se tivesse feito algo ilegal.”

Parece que perdemos o sentido de moral, o prefeito agora quer inverter o discurso e posar de vítima. Uma cena de cunho artístico e dramatúrgico que ficaria muito bem representado se estivéssemos comentando a interpretação de um ator em uma peça ou filme.

Sabemos que, em alguma medida, todos somos hipócritas em determinados eventos de nossas vidas. Porém, o que será necessário para que o homem deixe de abusar da hipocrisia? E, ainda, o que é hipocrisia?

A palavra hipocrisia vem do grego hupókrisis e significa encenar/ interpretar, e o adjetivo hipócrita, também do grego hupokrités, significa ator. Agora começa a ficar mais interessante, pois o prefixo hipo significa ”abaixo” e o verbo krinein significa ”decidir”, sugerindo uma deficiência na decisão. Essa “deficiência na decisão”, quando confrontada com seus próprios sentimentos e crenças, nos remete ao significado que entendemos essa palavra nos dias atuais, um indivíduo que tem dificuldade de decidir de acordo com o que acredita.

A pergunta que fica é: como uma pessoa que possui dificuldade em decidir sobre o que acredita pode constituir um caráter?

O hipócrita é, na verdade, uma pessoa egoísta, se preocupa com sua própria imagem e tem necessidade da aprovação da sociedade, pois tenta ser aquilo que não é. O hipócrita sofre, já que se força a ser aquilo que não tem habilidade para ser, comete uma violência consigo mesmo. Com o tempo, perde os valores individuais, não percebendo mais quem é, o que o define, levando-o a uma crise de identidade.

Na obra “A Corrosão do Caráter”, o sociólogo americano Richard Sennett define: “Caráter é o valor ético que atribuímos aos nossos próprios desejos e as nossas relações com os outros. Caráter são os traços pessoais a que damos valor em nós mesmos, e pelos quais buscamos que os outros nos valorizem’’.

Agora ficou mais fácil entender o comportamento dos nossos políticos não é mesmo? Eles se comportam exatamente de acordo com a etimologia da palavra grega. Não passam de atores da vida real, ou seja, votamos em pessoas com sérios problemas de caráter o lugar mais importante da sociedade, ou seja, decidir o caminho que devemos seguir. É ou não é uma contradição?

Por fim, não é demais relembrar que, da próxima vez que um político usar as câmeras para demonstrar sua extrema alegria e emoção para anunciar, chorando, a chegada da vacina, ou um outro, também aos prantos, pelos royalties do petróleo, não se esqueça da definição das palavras gregas hupókrisis (encenação) e hupokrités (ator), pois ali estão atuando em mais um ato para iludir a plateia no grande teatro que se tornou nossas vidas.

*Antoine Abed é presidente fundador do Instituto Dignidade e autor da obra Ensaio Sobre a Crise da Felicidade

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