Heróis e bandidos da Lava Jato

Antonio Jorge Pereira Júnior*

22 de agosto de 2019 | 05h00

Advogado na Lava Jato, o criminalista Luís Carlos Dias Torres, entrevistado pela Folha de S.Paulo, disse não ver desvio de conduta por parte do ex-juiz Sergio Moro e dos procuradores da força-tarefa do Ministério Público Federal. Para ele simplesmente as mensagens em aplicativo substituíram as conversas informais de cafezinho entre juiz e promotor nos fóruns, que sempre existiram, e jamais poderiam ser vistas como irregularidade. Disse ainda que sempre teve acesso ao juiz e aos procuradores da Lava Jato, que Moro sempre foi punitivista em toda sua carreira e acessível aos advogados.

De fato, houvesse conluio, e nos níveis que os inimigos da Lava Jato tentam induzir, seriam pouco inteligentes Moro e Dallagnol ao deixar registrado, cientes ambos da possibilidade tecnológica de infiltração, sobretudo no casos em que trabalhavam. Seria de desconfiar da capacidade intelectual dos dois. Uma falha incompatível com a estratégia de crime sofisticado como querem especular os seus detratores.

Vale lembrar, por outro lado, que ambos arriscaram – ainda estão sob risco – a vida, reputação e carreira, ao mexer com corruptos do calibre daqueles que foram, são e podem vir a ser réus a partir da mesma operação. Basta ver o que sofrem hoje com a tentativa de linchamento moral realizada pelos fundamentalistas lulistas, a quem interessa distorcer fatos e situações da Lava Jato. A estes se somam outros que se beneficiariam com o seu desfazimento, por já estarem implicados, ou na iminência de ser alcançados por ela. Tentam ludibriar a opinião pública e alimentar uma fantasia alienante que desejam substitua a contundente narrativa calcada em provas. E que a pretensa e falsa história tenha valor jurídico-processual. Pretendem que heróis sejam bandidos e que bandidos prediletos sejam heróis. Fazem-se cegos à corrupção confirmada na 2.ª instância, no STJ e no STF. Alguns são daqueles que exaltam Lênin, Stalin e Fidel como heróis, ditadores sanguinários que mataram mais de 50 milhões. Assim como se fizeram cegos e surdos para os atos ignominiosos destes, para louvá-los, tentam tergiversar a realidade, para manterem-se na ilusão do bom mocismo de Lula, quando caberia reconhecer que ele está na cadeia, infelizmente, por mérito, por ter sido corrupto mesmo; ele que se auto proclama jararaca.

Como bem disse Sardenberg (O Globo, 14/8/2019) Moro e Dallagnol são heróis perante a população brasileira porque nem mesmo o STF tinha coragem de aplicar a lei contra réus tão poderosos. Eles compraram a briga pelo Brasil. Isso não os isenta da falibilidade, como acontece até com os heróis da Marvel. Mas também não lhes retira a honra e o mérito pelo trabalho técnico-jurídico infatigável e portentoso contra a corrupção, em um contexto de pressão e suportadas por um magistrado e um membro do Ministério Público. O clima contra eles e contra a investigação tornaria naturalmente maior a necessidade de comunicação entre os dois. Vale repisar: nunca houve tantos corruptos juntos e tão poderosos de um mesmo lado contra um juiz e um procurador. A perseguição doentia dos opositores da Lava Jato, hoje, quando já houve confirmação da condenação de Lula, agravada, pela segunda instância, corroborada pelo STJ e STF, permite imaginar o que acontecia então, sem o respaldo da revisão colegiada dos Tribunais.

Pois o Brasil precisa de gente assim, que combata a corrupção heroicamente. E não de quem a acoberte, também por interesse ideológico e partidário.

*Antonio Jorge Pereira Júnior, bacharel, mestre e doutor em Direito pela Universidade de São Paulo (USP). Professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Direito Constitucional da Universidade de Fortaleza

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: