Hemodiafiltração (HDF): qualidade no tratamento renal

Hemodiafiltração (HDF): qualidade no tratamento renal

Bruno Henrique Graçaplena Vieira*

08 de novembro de 2021 | 05h15

Bruno Henrique Graçaplena Vieira. FOTO: DIVULGAÇÃO

Apesar de considerarmos o transplante renal como o método padrão–ouro de tratamento para os pacientes com Doença Renal Crônica Terminal (DRCT), a hemodiálise ainda é o método mais utilizado para o manejo destes pacientes. Ela é realizada em mais de dois milhões de pacientes em todo o mundo, aproximadamente 130 mil somente no Brasil, de acordo com último censo da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) de 2019.

A Hemodiálise é um método de substituição da função renal que mantém os pacientes vivos, porém com inúmeras restrições em suas atividades diárias, incluindo uma dieta muito regrada, restrições para ingerir líquidos (de forma a evitar o acúmulo no organismo), além de limitações de atividades sociais, laborais e físicas, haja visto que é realizada geralmente por doze horas semanais, divididas habitualmente em três sessões por semana por um período de quatro horas cada sessão. Este regime de sessões semanais de quatro horas é o padrão básico e a ele chamamos “hemodiálise clássica”. Outras opções são quatro sessões por semana, por três horas cada sessão (chamada “hemodiálise frequente”); cinco vezes por semana por duas horas e trinta minutos cada; ou seis vezes por semana por duas horas (estas últimas são chamadas de “hemodiálise diária”). A rotina de cuidados de um paciente em programa de Hemodiálise vai além das próprias sessões de tratamento, que ocorrem em clínicas especializadas: os pacientes precisam ter um acesso vascular diferenciado (por onde flui o sangue que será filtrado nas máquinas de diálise). Não se pode executar o tratamento dialítico por uma simples punção de uma veia periférica; o acesso vascular se dá por uma Fístula Arterio-Venosa (“FAV”) construída cirurgicamente, ou por um Catater Venoso Profundo, posicionado em um grande vaso venoso central. Estes acessos vasculares requerem cuidados para evitar complicações, que são relevantes causas de internação hospitalar nestes pacientes.

As intercorrências mais comuns a quem se submete ao procedimento são: hipotensão (queda brusca da pressão arterial) durante o tratamento, cãibras, náuseas, vômitos, prurido (“coceira”), cefaleia (“dor de cabeça”), e a fadiga após hemodiálise (muito prevalente), com duração e intensidade variada mas que impactam em muito a qualidade de vida destes pacientes conforme diversas evidências científicas demonstram.

As complicações mais sérias do tratamento incluem eventos cardiovasculares (infarto agudo do miocárdio e AVC) e infecções. Estes dois grupos de complicações são responsáveis pela maior parte dos óbitos dos pacientes em hemodiálise, que chega à taxa bruta de mortalidade de 19,5% ao ano, conforme dados do último censo da SBN, em 2019.

A Hemodiafiltração ou “HDF” também é uma técnica de substituição da função renal, porém apresenta diversas vantagens em relação à hemodiálise convencional, tais como:

– Diminuição da mortalidade entre 14-40% conforme literatura internacional (ESHOL study group)

– Diminuição das intercorrências intradialíticas como hipotensão e cãibras

– Diminuição da fadiga após hemodiálise com aumento das atividades físicas dos pacientes (como demonstrado no estudo HDFit conduzido pelo Dr. Roberto Pecoits–Filho e sua equipe de Curitiba).

As vantagens da HDF decorrem do fato deste método se aproximar muito mais da atividade fisiológica do rim do que a hemodiálise convencional. A HDF apresenta uma etapa extra de convecção, com maior capacidade de remoção de toxinas do sangue, potencializada com a eliminação de moléculas indesejadas, maior do que na diálise convencional.

Essa é a melhor tecnologia disponível no momento, com fortes evidências científicas. Na Europa, já são mais de cem mil pacientes beneficiados pela terapia, sendo a HDF a terapia de escolha preferencial para os pacientes em centros de diálise no Reino Unido conforme a National Institute for Health and Care Excellence (NICE).

No Brasil, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) incluiu em seu rol de procedimentos a terapia de HDF. Entretanto, infelizmente, até o presente momento, a modalidade ainda não está disponível para os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), portanto, estando disponível apenas aos segurados por planos privados de saúde.

Nos últimos meses, tenho tido a experiência de integrar um corpo clínico multiprofissional treinado para expandir o procedimento por novos centros no Nordeste, auxiliando na capacitação de profissionais nas cidades de Fortaleza e Natal para melhor atenderem os pacientes dessas regiões, rompendo os cercados geográficos do eixo Centro-Sul do país.

Esse tem sido um trabalho grande, mas gratificante; e desejo que, em breve, nosso país possa avançar e conseguir sensibilizar nossos legisladores para disponibilizar a modalidade a todos, independente da fonte de financiamento (quer pelo SUS ou pela Saúde Suplementar). Quando este momento chegar, democratizaremos ainda mais a qualidade de vida para os pacientes com doença renal crônica em diálise.

*Bruno Henrique Graçaplena Vieira, nefrologista e diretor médico regional da DaVita Tratamento Renal

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