Healthtechs: a próxima manada de unicórnios

Healthtechs: a próxima manada de unicórnios

Vitor Magnani*

16 de dezembro de 2020 | 12h20

Vitor Magnani. FOTO: DIVULGAÇÃO

Das 13 startups brasileiras que valem mais de US$ 1 bilhão, sete fazem alguma intermediação de negócio (99, iFood, Gympass, Loggi, Quinto Andar, Loft e VTEX), quatro são financeiras (Nubank, Stone, Ebanx e C6), uma é de educação (Arco Educação) e a outra é de jogos eletrônicos (Wildlife). A maioria delas desenvolveu uma plataforma digital que reuniu compradores e vendedores. São restaurantes, motoristas, proprietários de imóveis, academias e comerciantes que agora podem encontrar clientes por meio da tecnologia. E acompanhando esse crescimento das transações virtuais, as fintechs não param de crescer. Sem contar o mercado de games que hoje possui mais de 67 milhões de consumidores brasileiros, segundo o Datafolha/BGS.

Das características comuns entre todos os unicórnios, podemos destacar o foco na resolução do problema do cliente, o tamanho do mercado de atuação a ser escalado e a otimização de recursos por meio de novas tecnologias. Analisando esses três aspectos, as healthtechs brasileiras, que utilizam a tecnologia para solucionar as dores dos pacientes desde a prevenção até o tratamento, têm todas as condições de atingirem a marca de R$ 1 bilhão em valor de mercado, muito em breve.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, OMS, os gastos com saúde já representam 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do mundo e, no Brasil, de acordo com o IBGE, esse valor corresponde a cerca de R$ 608 bilhões ao ano, o que nos coloca na primeira posição entre os países da América Latina. Já o investimento global em healthtechs chegou a UU$ 46 bilhões desde 2015, segundo a plataforma Inovação CB Insights.

Contudo, a maioria das empresas tradicionais estão atrasadas no processo de digitalização, se compararmos com outros segmentos, como o varejo. Cerca de 70% dos hospitais americanos ainda utilizam fax e correios para prontuários médicos de pacientes, de acordo com a McKinsey Global Institute. A mesma pesquisa revelou ainda que as receitas decorrentes do atendimento médico por telemedicina aumentarão de U$ 350 bilhões para UU$ 600 bilhões, em 2024.

No Brasil, algumas empresas já estão investindo recursos nas healthtechs, como a Hapvida, investidora da Maida, e o Grupo Fleury com a Saúde ID. Outras criaram hubs de inovação para atrair startups, como o Hospital das Clínicas, ou promoveram encontros com o ecossistema de inovação, a exemplo da SulAmérica. E recentemente, vimos startups brasileiras, como a Sami, receber R$ 86 milhões em investimentos e a Alice outros US$ 17,5 milhões. Mas ainda é muito pouco perto de todo nosso potencial.

Temos aproximadamente 40 milhões de consumidores de saúde suplementar (planos de saúde) e mais de 150 milhões de usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). Não é à toa que no ranking de reclamações da Secretaria Nacional do Consumidor, as operadoras privadas estão entre as mais reclamadas e, constantemente, vemos muito descontentamento com o serviço público.

Ou seja, temos um grande mercado de consumidores, muitos problemas para resolver na saúde e o apetite dos investidores. Somado a isso, possuímos um sistema de saúde público universal, acessível a todos, que pode ser um importante indutor de startups da área.

Não faz mais sentido pensar que qualquer atendimento médico seja realizado dentro de um hospital. Como também não é concebível não termos o registro de todo o nosso histórico de saúde para melhorar cada vez mais nossos diagnósticos. Temos tecnologia disponível para melhorar toda essa jornada. O mesmo paciente que vai usar os serviços de saúde, provavelmente, já viverá em um ambiente imerso em inteligência artificial, big data e internet das coisas nos mais diversos momentos de sua vida, como por exemplo, da compra do supermercado à educação dos filhos. Quem ficará fora desse movimento?

*Vitor Magnani é presidente da Associação Brasileira Online to Offline e do Conselho de Comércio Eletrônico da FecomercioSP SP. É professor da Fundação Instituto de Administração (FIA) e especialista em relações institucionais para ecossistemas inovadores

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