Hard skills x soft skills

Hard skills x soft skills

José Renato Nalini*

01 de fevereiro de 2022 | 11h30

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Onde foi que a educação brasileira falhou? Ao insistir na antiquada e superada concepção de que o professor tem o monopólio do conhecimento e o aluno é um vazio de qualquer conteúdo. Educar seria ministrar ao ignorante as lições para que ele se tornasse letrado e erudito.

Barca furada. Já naufragou há tempos. O mundo mudou e o Brasil não percebeu. Os pais têm a experiência da decepção que é a escola: criança imaginativa, criadora, inteligente, audaciosa em suas fantasias. Vai para a escola e vira papagaio de decorar lições desinteressantes e desatualizadas.

A escola imbeciliza a criança. Porque tranca todas elas, enfileiradas, quietas e imobilizadas, enquanto alguém repete algo que a criança não entende por que tem de ouvir. Quando a criança é jovem, ela foge da escola. Em que período ocorre a mais intensa evasão? No ensino médio.

É que em plena e irreversível Quarta Revolução Industrial, qualquer criança tem acesso à internet e o Google responde a todas as dúvidas sobre dados e informações. O professor teria de ser um indutor da curiosidade, um agente capaz de solucionar dúvidas, de orientar as leituras e as pesquisas. O plano de ensino deveria ser individualizado. Ninguém é igual a ninguém. Somos singulares, heterogêneos, irrepetíveis.

O fracasso da educação brasileira explica o desencanto de quem escolheu o magistério como profissão. Existem aqueles heróis que, a despeito da má remuneração, do tratamento indigno por parte do governo, da falta de reconhecimento dos pais, da falta de educação de berço dos alunos, continuam na trincheira. Mas são a minoria. A maioria joga a toalha. Desalento, depressão, estresse, todas as síndromes possíveis. Quantos são os professores da Rede oficial necessitados de atendimento à saúde física e mental? É um dado bem eloquente da falência da educação estatal.

Nada obstante, continuam as consultorias, os peritos em educação, que nunca enfrentaram ou fogem da sala de aula, mas gostam de vender seus diagnósticos. Há tantos especialistas em educação no Brasil! Como explicar nosso vexame nas avaliações PISA, realizadas trienalmente pela OCDE?

Nós acabamos com o curso Normal, que formava professores alfabetizadores. Onde foram os alfabetizadores, que a imensa maioria dos estudantes do Ensino Médio continuam iletrados? A própria Universidade convive com esse problema insolúvel do analfabetismo funcional. Soletra-se, consegue-se ler, ainda que de forma tatibitate, mas não se consegue reproduzir o que leu com outras palavras. Zero em redação, em concatenação de ideias, em vocabulário, em sintaxe e meio ponto – 0,5 – em leitura.

Isso porque a escola brasileira investe nas hard skills, as habilidades técnicas e competências profissionais, geralmente comprovadas por diplomas, certificados, testes. Formalidades que escondem decepcionante despreparo de alguém diplomado. E pensar que diploma já foi uma promessa de ascensão pessoal, de conquista de espaços privilegiados no mundo do emprego, garantia de sobrevivência digna, pois bem remunerada.

No afã de fazer a criança decorar informações e saber responder quando inquirida, pois as avaliações são previsíveis testes de memorização, a escola tupiniquim relegou as soft skills e nisso naufragou. Pois, muito mais importante do que guardar na memória uma informação, é saber localizá-la nas inúmeras fontes disponíveis. E são tantas: hoje, a internet propicia a visita a todas as bibliotecas do planeta, o acesso a milhões – sim, milhões! – de obras já em domínio público. Tudo gratuitamente. Quem quer saber, procura e acha.

A educação brasileira patina e deixa de lado as soft kills, habilidades interpessoais e comportamentais, assim como inteligência emocional, resiliência, adaptabilidade, criatividade, escuta ativa, empatia. Isso é que deve ser estimulado desde a mais tenra infância, pois cada pessoa já nasce com um talento a ser lapidado. É mediante cuidado amoroso, uma pedagogia carinhosa e acolhedora, que tais competências serão desenvolvidas naqueles muitos que não as têm inatas.

Não se vislumbra panorama alentador no futuro brasileiro, pois o equívoco de base sequer é percebido pelas “autoridades” que fazem mais do mesmo, usam das avaliações para ranquear o governo e para garantir boa performance nas eleições e na matriz da pestilência, a nefasta reeleição.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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