Haja coragem

Haja coragem

José Renato Nalini*

09 de abril de 2021 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Criado na fé católica a mais ortodoxa, me acostumara a considerar a experiência vital como peregrinação. A recompensa estaria na transcendência, a depender de nosso comportamento por aqui.

Nunca fui poupado em relação à morte. Minha família não era daquelas que escondia às crianças esse evento que faz parte de nossa existência. Nascemos, crescemos e morremos. Perdi tios e avó bem pequeno ainda. Adolescente, perdi outro avô e mais tios. Na juventude, ajudei a enterrar minha avó materna, a quem adorava, outros familiares. Até um primo criança faleceu. Tudo causava sofrimento, mas tudo também superável.

Mais dolorida foi a morte de meu irmão, de que resultou em seguida a morte de meu pai, inconsolável diante da perda do caçula que desmontara sua rigidez. Herança de pais muito severos, que haviam sofrido com guerra e fome na Itália.

Sobramos minha mãe e eu. Ela muito forte, sublimou a perda do filho e marido, extravasando seus sentimentos. Parecia que o pré-morto era filho único, tanto falava dele. Morte de mãe é algo inenarrável. Já não há mais colo onde chorar a perda de outros entes queridos. Além disso, ela sempre enfatizava, quando se vai a geração que nos antecede, a próxima a partir é a nossa.

Quantas defecções entre amigos, pessoas queridas e que foram relevantes em nosso percurso pela Terra. Sentíamos, chorávamos, porém havia o ritual do luto. A presença e o abraço, a missa de sétimo dia. O encontro para lembrar passagens comuns.

E agora, o que nos resta?

Mais de quatro mil mortes por dia, com perspectiva desse número ainda aumentar. Os coveiros trabalhando à noite; aluguel de crematórios para dar conta do destino desses milhares de vítimas da Covid. Cemitérios ampliados, faltam caixões, as despedidas estão proibidas. As missas, só pela internet.

Sabia que estávamos em período de transição. O inesperado é o que nos espera. Sente-se o esgotamento dos paradigmas e somos impotentes para compreender o que se passa com o planeta.

É preciso uma força imensa para suportar o ritmo da morte, o avanço da contaminação, as dúvidas sobre as vacinas, a falta de explicações sobre as formas de disseminação. Uma algaravia de versões, com pseudo-especialistas divulgando receitas, opiniões, tudo a gerar uma incrível perplexidade.

Não que faltassem avisos, mas não atentávamos para os desafios que iríamos enfrentar. O livro “A era do imprevisto”, de Sérgio Abranches, que aborda a grande transição do século XXI, alertava: “O novo se formará com o amadurecimento dos processos emergentes, ultrapassadas as barreiras evolutivas, criando, então, as condições objetivas que permitirão desenhar o quadro institucional da nova era. No momento em que estamos, mal percebemos os modos emergentes, envoltos no turbilhão da mudança. Se o limite da operação intelectual para a qual estamos aptos é a recusa dos paradigmas e das ideologias, então deixa-nos o papel de críticos da cultura da transição”.

Ele estava pensando nas mutações de uma era que deixava o estágio analógico para assimilar o digital. A ruptura de dogmas como o da soberania, o surgimento dos imensos conglomerados empresariais que substituíram a hegemonia dos governos, a rápida transformação dos costumes, o esmaecimento de valores que pareciam inquebrantáveis. Mas nada prenunciava um conjunto de situações tão impressionantes como as que hoje enfrentamos. Pode-se entrever certa intuição, quando Sérgio Abranches diz: “Vivemos um período no qual o presente nos assombra e domina e o futuro é opaco”.

O futuro não era só opaco. Era sombrio. Era triste. Angustiante. Sem permitir se encontre sinais concretos de rápida regeneração de uma sociedade enferma, que aos poucos foi se esquecendo da comiseração, da solidariedade e que se distanciou infinitamente do ideal da “fraternidade”. Um conceito evangélico e muito presente no discurso religioso, sem que sua prática tenha produzido a sociedade harmônica presente na utopia.

Tempos plúmbeos requerem caráter inquebrantável, que resista à tormenta. Haja coragem para encarar o que virá, diante de sinais tão desencorajadores.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoJosé Renato Nalini

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.