Habeas de Lula tem até 8% de interferência de robôs nas redes, diz FGV-DAPP

Habeas de Lula tem até 8% de interferência de robôs nas redes, diz FGV-DAPP

Vaivém jurídico em torno da soltura do ex-presidente no domingo, 8, resultou em 1,53 milhão de menções e gerou 376 mil tuítes sobre falta de legitimidade dos ritos da justiça

Redação

10 Julho 2018 | 19h34

Reprodução de Gráfico da FGV

Desde a prisão de Lula, no dia 7 de abril, o debate sobre o petista apresentava progressiva diminuição de volume conforme passavam as semanas e mudavam os atores de foco nas discussões eleitorais. As sucessivas ordens judiciais em relação ao ex-presidente neste domingo, 8, romperam o percurso de queda da presença do petista no centro dos debates políticos do país, reconduzindo tanto Lula quanto o Poder Judiciário, e o juiz Sérgio Moro, da Operação Lava Jato, ao palco principal de atenção das redes sociais.

Os dados foram apurados e divulgados pela Fundação Getúlio Vargas-Diretoria de Análise de Políticas Públicas.

De 10h deste domingo às 11h desta segunda, 9, o impasse sobre a situação de Lula (se ainda preso ou solto) gerou 1,53 milhão de menções no Twitter, equiparando-se ao impacto do debate sobre o ex-presidente quando, em 5 de abril, o Supremo Tribunal Federal rejeitou o seu pedido de habeas corpus— entre 4 e 8 de abril, a média diária de referências a Lula foi de 956 mil tuítes.

O ex-presidente agregou em seu apoio mais de 60% dos 336.331 perfis que participaram da discussão.

A FGV-Dapp destaca que outros dois núcleos – laranja e cinza -, em que estão presentes publicações dos demais grupos pró-Lula, também participaram do debate com piadas e sátiras à situação política do país, dos poderes, da democracia e com foco específico em Moro e em integrantes do Judiciário.

Dentre os principais núcleos que interagiram entre domingo e segunda, cinco manifestaram posição favorável a Lula. O grupo em rosa, o maior do grafo sobre o debate, congregou 29,9% dos perfis e reuniu piadas, sátiras a Moro e ao Judiciário e exortações à libertação do ex-presidente, com perfil não necessariamente alinhado ao PT, mas sim à esquerda e com a presença de atores petistas e de outros partidos do mesmo espectro político.

O núcleo de militância do PT, com os dirigentes, parlamentares e nomes de relevância do partido, encontra-se em vermelho e reuniu 11,6% dos perfis.

Nesse núcleo, foi expressiva a presença de robôs: 8,19% das interações do grupo são identificadas como suspeitas de automatização em forte atividade de compartilhamento de posições partidárias e de influenciadores.

O perfil do próprio Lula (@lulaoficial), que recentemente mudou de nome – antes, a conta de Lula se chamava @lulapelobrasil -, engajou grupo específico, em roxo, com 4,66% dos perfis do grafo.

“É notável a diferença de posicionamento na rede entre Lula e os demais atores do PT, indicando relativo distanciamento entre os seguidores e os temas que cada lado do engajamento conseguiu atrair e mobilizar no debate”, destaca a FGV-Dapp.

No grupo petista, o principal foco de discussão foi o juiz Sérgio Moro, o Judiciário e as críticas à ‘violação da democracia e do estado de direito’ e ao descumprimento de uma decisão de instância superior, conforme determinado pelo desembargador Rogério Favreto, autor da ordem de soltura inicial para Lula, ainda na manhã do domingo.

O grupo que orbita a partir do perfil de Lula, por outro lado, publica hashtags e mensagens de ênfase à figura do ex-presidente, à sua força eleitoral e à necessidade de que ‘justiça seja feita’ com sua saída da prisão.

Em ambos os grupos, que comportam juntos 24,9% dos perfis (16,2% no grupo laranja, 6,7% no grupo cinza), há menor postura político-partidária ou analítica sobre o Brasil e maior ênfase ao aspecto inusitado da sucessão rápida de mandatos e réplicas judiciais, assim como à questão do cumprimento dos ritos da Justiça e a críticas às posições monocromáticas assumidas por diferentes magistrados.

Afora o grupo vermelho, em nenhum dos demais núcleos de apoio a Lula identificou-se mais de 0,8% de interações suspeitas de atuação de robôs.

Do outro lado, em azul, o grupo unificado de oposição ao ex-presidente e que defende Sérgio Moro reuniu 19,9% dos perfis do grafo.

Nesse núcleo, apesar da força de atores ligados a Jair Bolsonaro, interagem diferentes subgrupos e apoios políticos, interligados pela rejeição comum à soltura de Lula e ao PT.

Muitas das postagens que ajudaram a mobilizar esses diferentes grupos em conjunto vêm da imprensa tradicional, que acompanhou de perto as idas e vindas do caso — e, a cada atualização, despertava reações de ambos os lados.

Nesse grupo, também há críticas ao poder Judiciário e à fragilização das instituições, mas com foco em Favreto, e não em Moro ou na Lava Jato. Houve o reconhecimento de 2,95% das interações do grupo como feitas potencialmente por robôs.

Descrédito da Justiça. FGV-Dapp assinala que elemento central do debate sobre Lula, a reflexão sobre as instituições democráticas brasileiras e, em especial, sobre o poder Judiciário ‘foi intensamente mobilizada neste período’.

Foram, no total, 376 mil tuítes entre domingo e segunda destacando, mesmo sem mencionar Lula, a falta de legitimidade dos ritos da Justiça, a fragilização do estado de direito e a partidarização das instâncias de cumprimento da lei.

Inclusive, com referências não apenas a Moro, Favreto e aos demais magistrados envolvidos no vaivém de liberdade/prisão de Lula, mas também ao Supremo Tribunal Federal e à Justiça brasileira, de forma geral vista como lenta, privilegiando ricos e poderosos.

Apesar da polarização entre favoráveis e opositores a Lula, os dois lados do debate manifestam opinião muito semelhante sobre essa questão, com rejeição aos mesmos problemas, mas sob recortes totalmente opostos, segue o levantamento da FGV-Dapp.

Entre quem defende a liberdade de Lula, a conduta de Moro, dos desembargadores do TRF-4 e de boa parte do Judiciário brasileiro evidencia o poder das elites, a proteção a determinados partidos e políticos e a violação das garantias da Constituição e dos direitos democráticos.

Entre quem defende que Lula fique encarcerado, o que demonstra o privilégio dos poderosos é também a condução do processo do ex-presidente, que conseguiu muitos votos no STF favoráveis ao habeas corpus e recebeu decisão favorável neste domingo de um desembargador.

Também afirmam que a partidarização e ‘aparelhamento’ do PT nas instituições brasileiras são evidenciadas por Favreto e pelos movimentos políticos e de classe, no serviço público, de apoio a Lula, mesmo entre juristas, professores e magistrados.

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