‘Há um país que se perdeu pelo caminho’, diz Barroso sobre tanta corrupção

‘Há um país que se perdeu pelo caminho’, diz Barroso sobre tanta corrupção

Ministro do Supremo votou pelo desmembramento do processo do 'quadrilhão' do PMDB da Câmara e pela submissão de investigados ao poder de Moro

Rafael Moraes Moura e Amanda Pupo/BRASÍLIA

19 de dezembro de 2017 | 13h46

Luís Roberto Barroso. Foto: Ed Ferreira/Estadão

O ministro Luís Barroso, do Supremo Tribunal Federal, disse nesta terça-feira, 19, que o País ‘se perdeu pelo caminho’, em referência à corrupção e aos desvios do dia a dia. “Eu quero dizer que eu vi a fita, eu vi a mala de dinheiro, eu vi a corridinha na televisão, eu li o depoimento de Youssef, eu li o depoimento de Funaro.”

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Barroso se referiu ao famoso vídeo da ação controlada da Polícia Federal, que pegou o ‘homem da mala’ – Rodrigo Rocha Loures, ex-assessor especial do presidente Temer -, correndo por uma rua de São Paulo, em abril, carregando 10 mil notas de R$ 50, ou R$ 500 mil em dinheiro vivo, propina da JBS.

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Youssef é o doleiro Alberto Youssef. Funaro é o doleiro Lúcio Funaro. Ambos citados na fala de Barroso, fizeram delação premiada.

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“Nós vivemos uma tragédia brasileira, a tragédia da corrupção que se espraiou de alto a baixo, sem cerimônia”, afirmou o ministro, na sessão plenária do Supremo.

“Um país em que o modo de fazer política e negócios funciona assim: o agente político relevante escolhe o diretor da estatal ou o ministro com cotas de arrecadação. E o diretor da estatal contrata em licitação fraudada a empresa que vai superfaturar a obra ou um contrato público para depois distribuir dinheiros.”

Barroso foi enfático. “E aí não faz diferença se foi pro bolso ou se foi prá campanha, porque o problema não é prá onde vai, o problema é de onde vem.”

“É a cultura de desonestidade que se cria de alto a baixo, com maus exemplos, em que todo mundo quer levar vantagem, todo mundo quer passar os outros prá trás, todo mundo quer conseguir o seu sem mencionar as propinas para financiamentos públicos, tudo documentado.”

“Portanto, são diferentes visões da vida e do país.”

O ministro rebateu os que apontam ofensivas ilícitas contra o crime do colarinho branco. “Eu não acho que há uma investigação irresponsável, acho que há um país que se perdeu pelo caminho, naturalizou as coisas erradas, e nós temos o dever de enfrentar isso e de fazer um novo país, ensinar as novas gerações que vale a pena ser honesto, sem punitivismo, sem vingadores mascarados, mas também sem achar que ricos criminosos têm imunidade, porque não têm.”

Barroso rechaçou a possibilidade de investigados sem foto ficarem sob o guarda-chuva da Corte máxima. “É entendimento pacífico do tribunal que o foro por prerrogativa só beneficia o agente público e, evidentemente, não há como pedir essa extensão.”

“Tudo me parece muito simples. Uma vez determinado o desmembramento e a baixa (do caso à instância inferior), não há razão e penso que não há sequer legitimidade pro Supremo avançar pra deliberar sobre o mérito de uma coisa que já assentamos que não temos competência (para analisar)”, seguiu.

Para Barroso, os investigados no caso são “réus como todos os demais e a eles se aplica o mesmo código de processo que se aplica a todo mundo”.

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