‘Há coisas que não se contesta, se executa’, disse Argello, segundo executivo de empreiteira

‘Há coisas que não se contesta, se executa’, disse Argello, segundo executivo de empreiteira

Em depoimento ao juiz federal Sérgio Moro, da Lava Jato, Gustavo da Costa Marques relata que em reunião no gabinete do então senador ouviu exigência de R$ 5 milhões

Fausto Macedo, Julia Affonso, Ricardo Brandt e Mateus Coutinho

02 de julho de 2016 | 10h00

Gim Argello foi preso na 28ª fase da Lava jato. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Gim Argello foi preso na 28ª fase da Lava jato. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O executivo Gustavo da Costa Marques, gerente de Relações Institucionais da Camargo Corrêa, relatou em audiência na Justiça Federal em Curitiba, base da Operação Lava Jato, que em 2014 ouviu do então senador Gim Argello (PTB/DF) exigência de pagamento de R$ 5 milhões – em troca do valor, a investigação mostra que dirigentes da empreiteira não seriam convocados para depor na CPMI da Petrobrás, da qual Argello fazia parte.

“Há coisas que não se contesta, se executa”, teria dito Argello, segundo Costa Marques.

O executivo depôs nesta quinta-feira, 30, como testemunha arrolada pela acusação na ação penal aberta contra o ex-senador, preso na Operação Vitória de Pirro, fase da Lava Jato que descobriu esquema de extorsão de empreiteiras para que seus dirigentes não fossem chamados pela CPI Mista aberta para investigar corrupção na estatal petrolífera.

Costa Marques contou ao juiz federal Sérgio Moro que se reuniu com Gim Argello no Senado, no gabinete dele.

“Fui ao gabinete do senador no Senado Federal e fui recebido por ele”, disse o executivo. “Ele disse as empresas tinham sido ‘conversadas’ e assumiram compromisso de pagar para ele cada uma cinco milhões de reais.”

O procurador da República perguntou à testemunha se o pedido ‘era relacionado à CPI’.

“Era relacionado à CPI”, afirmou. “Eu disse que não sabia de conversa alguma, mas eu não tinha alçada para..Aí ele disse.que procurasse o sr Valério (Nunes, então assessor de Argello), me passou um número. Na verdade, quando eu disse que não sabia (de empreiteiras que teriam acertado o pagamento) ele disse: ‘há coisas que não se contesta, se executa’. Tirou um cartão, anotou o telefone do Valério e me disse que procurasse o sr Valério para tratar desse assunto.”

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O procurador indagou sobre o’tom’ empregado por Gim Argello no encontro. “Um tom forte, um tom ríspido. No começo a conversa era amistosa. Foi uma conversa rápida, ele anotou esse número (de Valério Nunes), eu peguei o cartão.”

Antes da reunião com Gim Argello, o executivo disse que foi procurado pelo lobista Júlio Camargo – que em outra demanda da Lava Jato denunciou o presidente afastado da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ), pelo recebimento de US$ 5 milhões em propinas, em 2011.

Num encontro em um restaurante em Brasília, na 302 Sul, Júlio Camargo teria dito a Costa Marques que procurasse Gim Argello ‘para tratar de assunto da CPI’.

Na ocasião, Costa Marques estava acompanhado de seu superior imediato na Camargo Corrêa, Marcelo Bisordi.

O executivo disse que, inicialmente, a empreiteira estava decidida a não procurar Argello. Mas, depois, Bizordi o teria orientado a falar com o então senador. “Fui ao gabinete do senador no Senado Federal e fui recebido por ele”, narra a testemunha.

Na reunião, apenas ele e Argello. “Só nós dois, ninguém mais. Ele (Argello) disse que as empresas tinham conversado e tinham um compromisso de pagar para ele, cada uma, cinco milhões de reais.”

A Operação Vitória de Pirro aponta que a UTC Engenharia pagou os R$ 5 milhões exigidos pelo senador. Outra empreiteira, OAS, pagou apenas R$ 350 mil, destinados à conta de uma igreja de Taguatinga, cidade-satélite de Brasília. O templo era frequentado por Gim Argello.

Na audiência, o procurador perguntou se Argello mencionou outras empresas. “Não, foi uma conversa rápida, ele (Giuma Argello) anotou esse número (do contato de Valério Nunes)

“(Argello) falou que teria que ser feito esse pagamento de R$ 5 milhões?”, insistiu o procurador.

“Não, só me falou que procurasse o sr. Valério.”

Costa Marques diz que o ex-senador não citou, na conversa, a CPMI da Petrobrás, mas imagina que este seria o real motivo do encontro. “Nós não não tínhamos assunto algum com o senador Gim Argello, mas ele era vice- presidente da CPMI e o sr. Júlio (Camargo) tinha antecipado que o assunto era sobre CPMI.”

Depois da reunião com Argello, o executivo da Camargo Corrêa encontrou-se com um outro assessor do senador, Paulo Roxo numa casa no Lago Sul em Brasília. “Ele (Roxo) também disse que as empresas tinham compormisso de pagar, cada uma, cinco milhões para o senador e que a Camargo estava inadimplente, estava em dívida . Eu disse a ele que a Carmargo Corrêa não tinha participado de qualquer conversa, não estava inadimplentee e a Camargo não ia pagar.”

Costa Marques confirmou que recebeu mensagem pelo celular. “Precisamos de uma posição definitiva sua”, avisou o interlocutor, que era Paulo Roxo, segundo o executivo.

Ele disse que a Camargo Corrêa não pagou nada. Nem seus executivos foram convocados pela CPI Mista da Petrobrás.

O procurador perguntou se havia algum tipo de requerimento da CPMI da Petrobrás para convocação de executivos da empreiteira. “Sim, existia requerimento para convocação de executivo sim.”

“Foram convocados?”, perguntou o procurador. “Não, não foram convocados.”

Mas os sinais de pressão foram percebidos nitidamente. Em uma sessão da CPMI, segundo o executivo da empreiteira, Gim Argello perguntou reiteradamente sobre a Camargo Corrêa. ‘Várias vezes. Salvo engano era uma sessão de depoimento de Meire Pozza (ex-contadora do doleiro Alberto Youssef, delator da Lava Jato). Ele (Argello) perguntou normalmente várias vezes da Carmargo Corrêa.”

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