Guilherme Boulos e a vitória sobre o medo

Guilherme Boulos e a vitória sobre o medo

Marco Antonio Rocha*

27 de novembro de 2020 | 11h07

Marco Antonio Rocha é responsável pelo programa de economia da candidatura de Guilherme Boulos e Luiza Erundina. Foto: Werther Santana/Estadão

A política é, entre as dimensões da vida em sociedade, talvez aquela com maior capacidade de mobilizar emoções, o impressionante crescimento da candidatura de Guilherme Boulos e Luiza Erundina se deve, em muito, a sua capacidade de mobilizar a esperança e o desejo de mudança da população de São Paulo. Contra isso, o artigo “Fala moderada não torna o programa de governo Boulos menos radical” publicado ontem pelo Estadão tenta mobilizar temores infundados e antigos fantasmas de épocas passadas, repetindo a estratégia de mobilização do medo que marcou a eleição de 2018 e que gerou o resultado que todos nós brasileiros e brasileiras vivemos em nosso dia a dia.

Nessa tentativa de mobilização do medo, a autora da coluna demonstra um total desconhecimento das modernas práticas de gestão e experiências de política municipal que servem de modelos para políticas inovativas e de grande impacto na vida urbana. Ao ressuscitar fantasmas da Guerra Fria, a autora parece perder de vista experiências de cidades como Berlin, Montreal, Amsterdã e outros tantos bons exemplos de políticas inovativas que, através da ação do poder público, buscam dinamizar a economia local, criar oportunidades de emprego e renda e modernizar a prestação dos serviços públicos.

A recorrente tentativa da autora de fazer crer que na defesa da coisa pública feita pela candidatura de Guilherme Boulos há uma espécie de oposição à iniciativa privada serve apenas para obstruir o debate sobre a melhoria das práticas de gestão municipal. No caso específico da prestação de serviços pela rede conveniada de OSs, apela para o terror difundido pela própria candidatura de Bruno Covas de que o serviço seria suspenso, quando na realidade se trata apenas de discutir a forma de expansão da prestação desses serviços e a possibilidade de maior eficiência da aplicação dos recursos públicos através da prestação direta.

Entre outros méritos, a contratação direta do servidor público também permite uma melhor observância da adequação das despesas do município com pessoal aos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal e a melhor fiscalização desse gasto pela opinião pública. Não se trata, enfim, de uma posição contrária à cooperação entre setor público e setor privado, mas o entendimento de que a prestação direta permite maior transparência, deixando a cooperação entre o público e o privado justamente para áreas em que as experiências internacionais vêm demonstrando a obtenção dos resultados mais positivos. Esse é o caso, por exemplo, da cooperação para o desenvolvimento de soluções tecnológicas para problemas urbanos, tais como o manejo de resíduos, controle do tráfego de veículos, entre outros, que além de modernizarem a prestação dos serviços públicos contribuem para a criação de um sistema sofisticado de empresas locais.

Outro exemplo de boa atuação da política municipal em promover um melhor convívio entre a iniciativa privada e o interesse público está relacionada às experiências de regulamentação dos serviços por aplicativos que algumas cidades vem implantando. A formação de um comitê gestor para discutir a regulamentação dessas atividades vem sendo feita em diversas cidades visando a proteção dos trabalhadores que prestam esses serviços, contemplando outras formas de organização econômica dessa atividade, como através da formação de cooperativas, com o setor público fornecendo suporte ao desenvolvimento de aplicativos para uso local. Essas iniciativas vêm gerando resultados positivos para trabalhadores, usuários, lojistas e empresas privadas locais desenvolvedoras de tecnologia.

São Paulo tem plenas capacidades de aprender com experiências exitosas no que se refere à cooperação entre o poder público e a esfera privada no desenvolvimento de uma economia local forte. A cidade possui uma diversidade cultural incrível, universidades e centros tecnológicos – dentro do município ou em sua proximidade – uma estrutura empresarial marcada pela presença de grandes empresas globais e um orçamento que permite que o poder público utilize um conjunto de instrumentos para fortalecer e sofisticar a economia local. O paradigma moderno de desenvolvimento econômico de cidades tem como base justamente a atuação do poder público como um indutor de uma estrutura econômica sofisticada e sustentável, que sirva de base a construção de uma cidade mais inclusiva, ambientalmente responsável e com maior envolvimento da população com o espaço público.

Chegou a hora de São Paulo abandonar os fantasmas que lhe prendem a um passado que não lhe serve mais, chegou a hora de permitir que o novo venha e que leve a cidade a posição de vanguarda na construção de um projeto de desenvolvimento nacional. Que no domingo, São Paulo vença o medo das antigas assombrações e volte a sinalizar para o Brasil um caminho para uma grande mudança.

*Marco Antonio Rocha, professor de Economia do Instituto de Economia da Unicamp, responsável pelo programa de economia da candidatura de Guilherme Boulos e Luiza Erundina

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.