Guerra, pandemia e a pergunta inevitável: é hora de falar de felicidade?

Guerra, pandemia e a pergunta inevitável: é hora de falar de felicidade?

Carla Furtado*

20 de março de 2022 | 06h00

Carla Furtado. FOTO: DIVULGAÇÃO

Desde 2012 a Organização das Nações Unidas (ONU) defende que os países rompam com a hegemonia do Produto Interno Bruto (PIB) enquanto indicador de progresso, por ser insuficiente para avaliar a qualidade do crescimento de uma nação. No lugar, a entidade defende algo similar ao FIB, Felicidade Interna Bruta, criado pelo Butão. Em sua essência, o FIB avalia o progresso a partir da tríade economia, bem-estar social e preservação ambiental.

No mesmo ano a ONU instituiu 20 de março como o Dia Internacional da Felicidade. Junto com a data passou a publicar o Relatório Mundial da Felicidade, que apresenta os países participantes em um ranking. No rol dos aspectos avaliados estão a relação PIB/per capita, a expectativa de vida no nascimento, a existência de uma rede social de apoio diante de adversidades, a confiança no governo e nas organizações, a liberdade para fazer escolhas, a generosidade e, obviamente, a avaliação subjetiva da própria felicidade. As fontes são o Banco Mundial, a OMS e a Gallup World Poll.

Durante a última década, os pesquisadores envolvidos com a produção do Relatório têm colaborado para o melhor entendimento dos antecedentes do bem-estar humano. Têm, ainda, aprofundado a compreensão sobre a satisfação com a vida nas populações dos cerca de 150 países participantes. E mais: têm oferecido substrato de qualidade para a elaboração de políticas públicas que favoreçam a felicidade do cidadão.

Contextos como os recém-completados dois anos de pandemia do Covid-19 e a guerra promovida pela Rússia na Ucrânia suscitam a inevitável pergunta: é mesmo hora de falar de felicidade? Onde há sofrimento é urgente falar de felicidade. Isso porque a promoção do bem-estar começa com a identificação e a mitigação das vulnerabilidades e a humanidade enfrenta uma miríade delas – nos direitos humanos, na saúde, na economia e na democracia.

É hora de falar de felicidade porque a cada ano o mundo experimenta mais emoções negativas. Porque nos Estados Unidos, muito embora o PIB per capita suba, as pessoas estão mais infelizes. Porque na América Latina registram-se não apenas abismos socioeconômicos, mas abismos de bem-estar, com pessoas muito felizes e outras muito infelizes vivendo lado a lado. Porque há a triste constatação de que a humanidade está diante de epidemias de depressão, transtorno de ansiedade e suicídio.

É hora de falar de felicidade porque, diferente de outras espécies, o ser humano se perde de sua natureza, se desumaniza e ao fazê-lo torna-se um vetor de infelicidade para si mesmo e para os outros. Porque muito embora a ciência aponte soluções no coletivismo, recompensa-se socialmente o individualismo.

É hora de falar de felicidade porque mais uma vez o Brasil perde posições no ranking global publicado hoje, alcançando o 38º lugar entre 146 nações. É mais um ano consecutivo de queda no desempenho de um país que já esteve em 16º lugar.

*Carla Furtado, membro da SDG Academy – Community of Practise (ONU), pesquisadora científica, docente de psicologia e fundadora do Instituto Feliciência

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