Guerra na Ucrânia e saúde pública

Guerra na Ucrânia e saúde pública

Fernando Rizzolo*

20 de março de 2022 | 14h45

Kiev. FOTO: DANIEL LEAL/AFP

Na história da humanidade, as doenças surgem tanto em momentos de paz como em momentos de conflitos, como guerras ou invasões, que assolam os países e suas populações e geram o estresse que predispõe a epidemias devido a vários fatores, como a desnutrição, o abandono, alterações no equilíbrio psicológico em razão da apreensão, que leva muitas vezes a uma baixa de imunidade e a problemas relacionados à saúde mental.

Este texto não tem o intuito de se ater aos motivos das guerras em si, mas de fazer uma reflexão do ponto de vista epidemiológico em torno dessas tragédias, que, por sinal, foram perpetradas por muitos outros países em diferentes situações de tempo e por diferentes motivos.

A grande verdade é que o sofrimento causado tanto pelas pandemias, como a covid-19, quanto pelos efeitos deletérios de uma guerra é desastroso. Hoje sabemos que a guerra na Ucrânia representa uma ameaça imediata e crescente à vida e ao bem-estar dos 7,5 milhões de crianças e adolescentes do país. O que vemos é que as necessidades humanitárias estão se multiplicando a cada hora à medida que os combates se intensificam. Até o dia 15 de março, mais de 1,5 milhão de crianças e adolescentes haviam fugido da Ucrânia, sendo que crianças e adolescentes em deslocamento correm maior risco de violência, exploração e abuso, ao mesmo tempo em que mulheres e meninas estão especialmente em risco de violência de gênero enquanto buscam abrigo ou asilo. Ademais, a infraestrutura civil, como instalações de água e saneamento, foi grandemente atingida, deixando milhões de pessoas sem acesso à água potável.

Fernando Rizzolo. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Uma análise da OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgada este mês mostrou que casos de ansiedade aumentaram 25,6% durante a pandemia – que teve início oficialmente em 11 de março de 2020. Para piorar a situação, a invasão russa na Ucrânia trouxe novos temores para a humanidade em geral, incluindo o temor de uma guerra nuclear.

Desta forma, uma situação de guerra, assim como uma pandemia, provoca evidentemente um esgotamento psíquico causado principalmente pela liberação contínua do hormônio de estresse. Tal como se um botão de pânico se mantivesse ligado de maneira perene, com a liberação ininterrupta de cortisol (hormônio do estresse).

Outro aspecto também pertinente à saúde pública na Ucrânia é que há relatos da OMS de que a imunização de rotina e os esforços de controle dos surtos de poliomielite foram suspensos no país em função dos combates. Vale a pena ressaltar que, em outubro passado, a Ucrânia teve o primeiro caso de poliomielite na Europa em cinco anos. Enfim, a falta de tratamento e de suprimentos de medicação, o deslocamento e as doenças infectocontagiosas passam a fazer parte desse cenário de horror.

As tratativas de paz que não prosperam e o envolvimento de vários países no conflito acabam, por sua vez, piorando o cenário, num mundo em que o Ocidente incita a Eurásia e o Oriente, com fins de cunho puramente imperial, fazendo-nos regredir à época da Guerra Fria, com a diferença de que agora não se disputa uma ideologia, e sim blocos de mercado, visando à hegemonia do capital.

*Fernando Rizzolo é advogado, jornalista, mestre em Direitos Fundamentais

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