Guardem bem estes nomes

Guardem bem estes nomes

José Renato Nalini*

19 de junho de 2022 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

O nonagésimo aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932 deve trazer a todos os brasileiros uma reflexão bastante útil. O que significou a coragem dos paulistas, que foram à luta e enfrentaram a força federal do arbítrio, para reconstitucionalizar a nação?

Nós não encontramos pessoas vivas que tenham participado da epopeia. Nem por isso devemos nos esquecer dos personagens heroicos que derramaram o sangue por uma causa.

Recorro a Menotti Del Picchia, um protagonista do evento que rendeu um livro – “A Revolução Paulista” – e que descreveu “outras figuras civis da revolução”, para enaltecer seis grandes nomes. Começa com Ibrahim Nobre, “descendente de ilustre família, romântico, cheio de talento, dotado de uma coragem temerária, sempre se destacou pelo seu forte individualismo”. Era o orador preferido das multidões. “Figura apolínea, impressionante e lírica, possui uma singular força de sugestão, chegando com seus arroubos a arrebatar. Cabeleira negra que seus gestos nervosos tornam revolta, fronte larga, espraiada, olhos pequenos mas negros e vivos, sua máscara móbil, expressiva, ajuda-o a teatralizar os audaciosos conceitos da sua retórica colorida, pomposa, rica até o excesso de imagens”.

Francisco Morato era o chefe do Partido Democrático e integrou a Junta Revolucionária. “Alto, magro, anguloso, é todo feito de linhas bruscas, desarticuladas, agressivas… Toda sua rígida severidade, que lhe empresta uma solene expressão eclesiástica, adulcora-se numa palestra afável, erudita e sedutora. Mas perpassa, involuntariamente, pelo seu discurso, um vago tom dogmático, que denuncia o homem da cátedra. Grandes virtudes ornam esse espírito aparentemente áspero e inacessível. Não lhe falta uma rígida bravura pessoal”.

Em seguida vem Pádua Salles, outro membro da Junta. “Fidalgo de velha estirpe, ligado a grandes figuras da nossa vida republicana, ex-ministro, político da mais larga projeção no Estado, como um dos chefes da frente única incumbiu-lhe dirigir com seus demais companheiros a parte civil da revolução. Espírito culto, caráter reto e forte, sereno e ponderado, trabalhou com desvelo pela causa de São Paulo”.

O terceiro vulto a ser lembrado pela posteridade é o General Ataliba Leonel. Menotti diz que ele “é advogado como a maioria dos brasileiros, é general como muitos deles, mas, sobretudo, é um legítimo caboclo. Cerne de boa raça. Inteligentíssimo, argutíssimo, modesto, esconde a agilidade da sua perspicaz inteligência na aparente lassitude das suas maneiras e calma impassível da sua fala”.

Parece que Menotti chegou a retratá-lo em “A Tormenta”. Fala de seu cigarro de palha e que “tem fama de truculento, até de sanguinário, mas não há coração mais amigo e mais humano que o dele. O que caracteriza o General Ataliba é uma bondade desarmada, leal, constante. Não sabe o que é o ódio e a inveja, as duas ferrugens piores que roem às vezes os mais vigorosos caracteres”. Seduzia todos os que se aproximavam dele, na sua forma empírica de fazer política. “Não é um fanático de ideologias abstrusas nem um criador de doutrinas. É o clássico político velho estilo, isto é, um aglutinador de eleitores, um senhor discricionário de forças eleitorais”.

A quinta descrição corresponde a Altino Arantes, antes de mais nada um intelectual. “Prosador e orador brilhante e extremamente erudito, senhor de uma forma tersa e clássica, …a elegância do seu estilo magnífico decorre do seu bom gosto e da sua ilustração vasta, adquirida na sua biblioteca riquíssima e nas suas viagens”.

Estende-se Menotti Del Picchia a retratar Roberto Simonsen, cujo perfil é o de uma medalha. “Lembraria, cinzelado no verso de uma moeda, um cônsul romano, um imperador, um capitão voluntarioso e sereno. A boca bem recortada e expressiva denuncia a sua irremissível mas calma força de vontade, enquanto o olhar aparentemente terno mas decidido mostra o rasgo rápido e aquilino da sua visão e a segurança instantânea do seu cálculo”.

O criador do SESI merece incontida admiração de seu confrade da Academia Paulista de Letras: “Roberto Simonsen nasceu organizador como Olavo Bilac nasceu poeta. É organizador prodigioso. Como chefe do Departamento Industrial, a federação das indústrias da guerra, esteve à altura das imensas responsabilidades que assumia. Superintendeu uma plêiade fulgurante de mestres que se imortalizaram pela competência e pelo patriotismo”.

Deveu-se a ele a súbita transformação do parque industrial de Piratininga em fabricante de material bélico. “A imperativa e sincrônica complexidade de problemas a resolver puseram aquele cérebro em febril atividade sem que aqueles nervos perdessem a fleugma e aquela imaginação se transviasse pelos atalhos da fantasia, abandonando os fraguedos aguçados das prementes realidades. Aqueles nervos e aquela inteligência provaram bem”.

Menotti Del Picchia sabia descrever as pessoas com as quais convivia. Legou-nos esse acervo, para que não nos esqueçamos de nossos maiores. O Brasil continua necessitado de personalidades de tal estatura.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-202

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