Grupo ia multiplicar por seis investimento em diamantes, diz PF

Operação Crátons, deflagrada nesta terça a partir da Lava Jato, revela que líderes de organização iriam aplicar R$ 1 milhão na extração ilegal de pedras preciosas e, a cada 90 dias, teriam retorno de R$ 6 milhões

Andreza Matais, de Brasília , Mateus Coutinho e Fausto Macedo

08 de dezembro de 2015 | 14h02

 

pfdiamantes

 

BRASÍLIA – A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira, 8, a operação Crátons, primeira oriunda de compartilhamento de informações da Lava Jato. A partir de interceptações telefônicas e de emails de dois investigados no esquema de corrupção da Petrobrás, apurado na Lava Jato, os investigadores descobriram uma rede de financiamento da extração ilegal de diamantes no chamado “garimpo Lage” (antigo Roosevelt) localizado na reserva indígena Parque do Aripuanã, dos índios cinta larga que planejava investir R$ 1 milhão e estimava faturar R$ 6 milhões a cada 90 dias.

A reserva já estava no foco da PF em Rondônia a partir de denúncias da Fundação Nacional do Índio (Funai). O cruzamento de informações permitiu aos investigadores chegar pela primeira vez nos financiadores do garimpo, uma atividade extremamente lucrativa. O delegado Bernardo Guidali Amaral, que atuou na operação, disse que o grupo tinha como planejamento investir R$ 1 milhão em troca de terem um retorno de R$ 6 milhões num prazo de 90 dias. Não há informações sobre o quanto a quadrilha faturou. As investigações, contudo, confirmam que houve a extração dos diamantes.

Os dois nomes que ligam a Lava Jato ao esquema de extração ilegal de diamantes são o do doleiro Carlos Habib Chater, preso desde março de 2014 acusado de lavar dinheiro desviado da Petrobrás; e o do advogado Raul Canal, chefe do Raul Canal & Advogados Associados, com sede em Brasília e representação em vários Estados, que teve o nome mencionado no início da investigação. Chater terá que prestar depoimento a respeito da nova denúncia.

A PF também identificou a participação de uma cooperativa e uma associação indígena na extração ilegal das pedras preciosas. Caciques cinta larga foram presos pela Operação deflagrada nesta terça. Segundo o delegado Amaral, a exploração tinha três ramificações: os financiadores, os indígenas e os empresários locais. Chater e Raul Canal estão nesse primeiro grupo. “Duas pessoas monitoradas pela Lava Jato tiveram interceptações de telefone e email que mostraram estarem envolvidas com exploração de garimpo ilegal. A partir de então, se tomou conhecimento desse grupo e foi possível identificar quem estava disposto a financiar o garimpo”, afirmou.

Segundo ele, já se sabe que os diamantes foram retirados e levados para o grupo. “Não sabemos, contudo, o destino dos diamantes.” Investigadores disseram ao “Estado” que a relação com a Lava Jato deve-se apenas a presença de personagens em comum. Não há indícios de que os envolvidos no esquema de corrupção da Petrobrás tenham lavado dinheiro por meio das pedras preciosas.

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A Operação envolveu Crátons envolveu cerca de 220 policiais federais que cumprem 90 mandados, sendo 11 de prisão preventiva, 41 de busca e apreensão, 35 de condução coercitiva, além de três intimações para depor. Os mandados foram cumpridos no Distrito Federal, Rondônia, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Bahia, Mato Grosso e Pará.

A Justiça Federal determinou o sequestro de um imóvel e de dinheiro encontrado nas contas de investigados para ressarcir os danos ambientais. Os investigados vão responder pelos crimes de exploração ilegal de recursos naturais, dano a unidade de conservação, usurpação de bem da União, receptação, organização criminosa, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

Posto da Torre. O doleiro Carlos Habib Chater era o dono do Posto da Torre, em Brasília, utilizado para lavagem de dinheiro, evasão de divisas e pagamentos de propinas que deu origem ao nome da operação Lava Jato. Além dele, os doleiros Alberto Youssef, Nelma Kodama e Raul Henrique Srour, todos presos posteriormente na operação, estabeleceram uma rede de lavagem de dinheiro que, no decorrer das investigações, descobriu-se que era utilizada para operacionalizar o pagamento de propinas a agentes públicos e políticos envolvendo contratos da Petrobrás.

Em 2013, Chater teve suas conversas telefônicas interceptadas pela Polícia Federal, quando surgiram indícios de que operava remessas de recursos para o exterior por meio da operação conhecida por dólar-cabo.  Ele teria movimentado R$ 124 milhões. O próprio Youssef, em depoimento ao juiz Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato no Paraná, admitiu que utilizava o Posto da Torre para repassar propinas a políticos no esquema de corrupção da Petrobrás.

Um laudo da Polícia Federal apontou que o posto movimentou R$ 10,8 milhões entre 2007 e 2014 por meio de 375 contas bancárias ainda sob investigação.

Alvo de três ações penais da Lava Jato, Chater já foi condenado em duas ações a 10 anos e três meses de prisão pelo juiz Sérgio Moro. Ele ainda aguarda a sentença em uma das ações.

A reportagem entrou em contato com a defesa de Carlos Chater, mas o advogado está em reunião e ficou de retornar. O Estado não conseguiu localizar a defesa de Raul Canal.

 

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