Grego alvo da Lava Jato deu nome de doadora de Temer em visitas à Petrobrás

Konstantinos Kotronakis, que pagou propinas de estaleiros da Grécia para dois ex-executivos da estatal, usou nome do Grupo Libra, que opera o Porto de Santos, segundo registros de entrada de 2010 e 2011

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

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Terminal operado pela Libra, no Porto de Santos. Foto: Sérgio Castro/Estadão

O grego Konstantino Kotronakis, alvo da 43ª fase da Operação Lava Jato, usou o nome do Grupo Libra para se apresentar em 4 das 17 visitas que fez pessoalmente à Petrobrás. O grupo é um dos maiores doadores da campanha de Michel Temer em 2014. Cônsul honorário da Grécia no Rio, ele é investigado por ter pago propinas para o ex-diretor de Abastecimento da estatal petrolífera Paulo Roberto Costa e para o ex-gerente Dalmo Monteiro da Silva por contratos de afretamento de navios de estaleiros gregos.

Alvo da Operação Sem Fronteiras, Kotronakis representava o Grupo Tsako, a Aegean Shipping Management e outros estaleiros gregos. Foram encontradas provas dos pagamentos para o ex-diretor da Petrobrás, em contas secretas, para obter informações privilegiadas para o grego.

Levantamento feito pela Lava Jato mostra que nas visitas que fez à Petrobrás, em três datas de julho de 2010 ele deu como referência o Grupo Libra. Em uma quarta visita, fevereiro de 2011, ele também deu o nome da empresa para visitar a estatal.

O Grupo Libra não é investigado na Operação Sem Fronteiras, 43ª fase deflagrada no dia 18. Mas a Lava Jato quer saber qual a relação com Kotronakis. O grego, além de pagar propinas para Paulo Roberto Costa, pagou outro ex-executivo da estatal, que teve ordem de prisão decretada pelo juiz federal Sérgio Moro, na sexta-feira, Dalmo Monteiro da Silva.

Os investigadores acharam ligação de Kotronakis e de seu filho Georges Kotronakis com dois operadores de propinas ligados aos esquemas do PMDB e do PP na corrupção na Petrobrás: Jorge Luz e Henry Hoyer.

A força-tarefa identificou nos registros de reuniões da estatal uma agenda em que aparecem os nomes de Kotronakis, Luz e Hoyer – esse, alvo também da 43ª fase. Jorge Luz – preso desde o início do ano, com seu filho Bruno Luz – é considerado um dos mais antigos lobistas que atuavam na Petrobrás, com vínculos com medalhões do PMDB.

Libra. Seu nome já apareceu na Lava Jato. Em janeiro de 2016, o Estadão revelou que graças a uma emenda parlamentar incluída pelo ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) – preso desde outubro de 2016, pela Lava Jato – , na nova Lei de Portos, o Grupo Libra obteve uma vantagem inédita para administrar uma área do Porto de Santos, em São Paulo.

Com uma dívida milionária com o governo federal, o Grupo Libra foi o único beneficiário dessa brecha incluída na nova legislação, que permitiu a empresas em dívida com a União renovarem contratos de concessão de terminais portuários.

O Grupo Libra, sediado no Porto de Santos (SP), torno-se um dos maiores operadores portuários e de logística para importações e exportações do Brasil. Opera ainda no porto do Rio. Com a eleição de Dilma Roussef e de Temer, vice, em 2010, ela passa a atuar de forma integrada todos os modais de transporte (portuário, rodoviário, ferroviário, fluvial e aéreo).

Em 2013, a gestão Dilma enviou ao Congresso uma medida provisória que previa novas regras para a gestão de portos no País. Uma das principais novidades era a possibilidade de se renovar contratos de concessão de terminais em troca da promessa de novos investimentos.

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O texto original da medida provisória, porém, vedava esse benefício a empresas inadimplentes. Mas, durante o processo de aprovação na Câmara, uma emenda apresentada por Cunha – e depois regulamentada pela presidente – permitiu a adesão de devedoras caso elas aceitassem decidir sobre a dívida antiga em um processo de arbitragem, em vez de na Justiça comum.

A renovação nos novos termos foi garantida por um outro aliado de Temer, o deputado Edinho Araújo (PMDB-SP), em seus últimos dias no comando da Secretaria Especial de Portos (SEP).

Mesmo sendo candidato a vice, Temer criou em 2014 uma pessoa jurídica para receber doações eleitorais e repassá-las a candidatos a outros cargos públicos, como deputados estaduais e federais. Sua conta recebeu R$ 1 milhão de dois dos sócios do Grupo Libra, arrendatário de uma área de 100 mil m² no Porto de Santos há mais de 20 anos.

O valor doado foi dividido igualmente em nome de Ana Carolina Borges Torrealba e Rodrigo Borges Torrealba, ambos herdeiros da companhia. A empresa foi fundada há mais de meio século para investir em navegação, mas, desde os anos 1990, mudou seu foco para a exploração de terminais portuários.

Eduardo Cunha e Cláudia Cruz. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Cunha. Em 2016, o nome do Grupo Libra apareceu nas investigações da Lava Jato sobre o envolvimento de Cunha nas propinas do PMDB na Petrobrás. A força-tarefa Lava Jato detectou um pagamento feito pelo Grupo Libra de R$ 591 mil à Claudia Cruz, mulher do ex-presidente da Câmara, e questionou-a sobre os recebimentos.

O pagamento foi feito a uma empresa que está no nome de Cláudia, a C3 Produções Artísticas, e que seria usada por ela para receber pela prestação de serviços, como a apresentação de eventos. O pagamento é de 2007.

 

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