Gravações de Sérgio Machado na Lava Jato derrubam mais um ministro de Temer

Gravações de Sérgio Machado na Lava Jato derrubam mais um ministro de Temer

Fabiano Silveira pede demissão após ser flagrado em diálogos com o presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL) criticando a Operação Lava Jato

Redação

30 de maio de 2016 | 20h18

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O ex-ministro da Transparência Fabiano Silveira. Foto: Estadão

Pela segunda semana seguida e aos dezoito dias de seu governo interino, o presidente em exercício Michel Temer (PMDB) viu um de seus ministros ser derrubado por gravações de conversas do ex-presidente da Transpetro e delator da Lava Jato, Sérgio Machado com integrantes da cúpula do PMDB para discutir e criticar a Operação Lava Jato.

Silveira teve áudios de conversas com ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado divulgados no domingo, 29 pelo Fantástico, da TV Globo. Nas conversas, ocorridas há cerca de três meses, quando Silveira ainda era do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ele aconselha Machado e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), sobre como deveriam agir em relação às investigações da Operação Lava Jato, da Polícia Federal.

Um dos áudios ainda pegou Fabiano Silveira dizendo que ‘os caras’ da Procuradoria-Geral da República estão ‘perdidos’. Nesta segunda-feira, Silveira se reuniu com o presidente em exercício no Palácio do Jaburu para se explicar. Mais tarde, ele encaminhou a carta de demissão ao peemedebista.

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Com isso, em 18 dias de governo provisório, enquanto o afastamento definitivo de Dilma não foi julgado pelo Senado, o governo de Michel Temer enfrenta uma perda justamente da pasta da Transparência Fiscalização e Controle, criada com o objetivo de combater a corrupção no governo federal e que foi alvo de polêmicas desde que o peemedebista assumiu a Presidência e extinguiu a Controladoria-Geral da União, absorvida pelo Ministério da Transparência.

Na semana passada foi a vez de Romero Jucá (PMDB), deixar o ministério do Planejamento após aparecer em uma conversa com Machado, ambos investigados na Lava Jato, falando em “estancar” a investigação, mostrando preocupação com as apurações em curso que avançam sobre peemedebistas e também outros partidos, como o PSDB.

Nas conversas, de cerca de 1h15, que estão em poder dos investigadores do esquema de corrupção na Petrobrás e ocorreram semanas antes da votação da admissibilidade do impeachment de Dilma Rousseff no plenário da Câmara dos Deputados, Jucá disse, sem citar nomes, que tinha conversado sobre a necessidade de brecar a Lava Jato com ministros do Supremo Tribunal Federal. Ele disse que um governo Michel Temer deveria construir um pacto nacional com o STF. E o ex-diretor da Transpetro retrucou: Aí parava tudo”. “E. Delimitava onde está, pronto”, respondeu o ministro.

Diferente de Jucá, Silveira não era alvo de inquérito quando foi flagrado nas conversas. A divulgação de seus diálogos, contudo, causou grande repercussão entre os servidores da própria pasta, já insatisfeitos com a extinção da CGU, líderes do Senado e da Câmara e até da ONG de combate à corrupção em todo o mundo, Transparência Internacional, que divulgou um texto cortando relações com a pasta enquanto Silveira não fosse exonerado.

LEIA A ÍNTEGRA DA CARTA DE DEMISSÃO:

“Recebi do Presidente Michel Temer o honroso convite para chefiar o Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle.

Nesse período, estive imbuído dos melhores propósitos e motivado a realizar um bom trabalho à frente da pasta.

Pela minha trajetória de integridade no serviço público, não imaginava ser alvo de especulações tão insólitas.

Não há em minhas palavras nenhuma oposição aos trabalhos do Ministério Público ou do Judiciário, instituições pelas quais tenho grande respeito.

Foram comentários genéricos e simples opinião, decerto amplificados pelo clima de exasperação política que todos testemunhamos. Não sabia da presença de Sérgio Machado. Não fui chamado para uma reunião. O contexto era de informalidade baseado nas declarações de quem se dizia a todo instante inocente.

Reitero que jamais intercedi junto a órgãos públicos em favor de terceiros. Observo ser um despropósito sugerir que o Ministério Público possa sofrer algum tipo de influência externa, tantas foram as demonstrações de independência no cumprimento de seus deveres ao longo de todos esses anos.

A situação em que me vi involuntariamente envolvido – pois nada sei da vida de Sérgio Machado, nem com ele tenho ou tive qualquer relação – poderia trazer reflexos para o cargo que passei a exercer, de perfil notadamente técnico.

Não obstante o fato de que nada atinja a minha conduta, avalio que a melhor decisão é deixar o Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle.

Externo ao Senhor Presidente da República o meu profundo agradecimento pela confiança reiterada.

Brasília, 30 de maio de 2016.
Fabiano Silveira”