Grampo da PF revela ‘flexibilidade’ em composição do tribunal da Receita

Grampo da PF revela ‘flexibilidade’ em composição do tribunal da Receita

Integrante do Conselho de Recursos Fiscais conversa sobre troca de nomes em turma; para investigadores da Operação Zelotes, ligação mostra 'influência' de terceiros no colegiado. Ouça o áudio

Redação

10 Abril 2015 | 05h00

Por Julia Affonso, Fabio Fabrini, Andreza Matais e Fausto Macedo

Um grampo da Operação Zelotes no telefone do ex-conselheiro do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) Jorge Celso Freire da Silva indicou que é “flexível” a composição das Turmas de Julgamento do órgão responsável por analisar reclamações de contribuintes em débito com a Receita. Segundo a Polícia Federal, uma das ligações interceptadas demonstra a ‘flexibilidade’ que possui um Presidente de Câmara e “a ‘influência’ que aceita no cumprimento dessa tarefa”.

OUÇA O ÁUDIO GRAMPEADO PELA PF:

 

O Ministério da Fazenda, ao qual está vinculado o CARF, informou que o Presidente de Câmara “não tem total liberdade” para compor as Turmas de Julgamento. As Turmas, segundo a Pasta, são compostas à medida que surgem as vagas, “por indicação por parte das Confederações ou da Receita Federal”.

A Zelotes, deflagrada há duas semanas pela PF, identificou um superesquema de fraudes no CARF que teria beneficiado grandes empresas e bancos. Estima-se que pelo menos R$ 19 bilhões foram desviados dos cofres públicos.

O Conselho é vinculado ao Ministério da Fazenda. Para a PF, a organização criminosa influenciava e corrompia funcionários públicos, conselheiros e servidores para cancelar ou reduzir valores de infrações nos julgamentos de recursos dirigidos ao tribunal administrativo, através da “conquista” dos votos de seus conselheiros.

“Vou perguntar um negócio. O Leonardo pediu para não colocar o Frederico, tá certo? Deixa eu ver aqui o nome dela. Acho que é Carmem, presidente. Mas ela mandou um e-mail se prontificando a ajudar. Pode colocar ela no lugar do Frederico?”, pergunta a Jorge Celso um homem ainda não identificado pela PF.

“Pode, pode. Você coloca a posição, para a gente não discriminar. […] Se você quiser, a gente bota para compor. Eu não sei nem se ele é da turma especial, porque ela está botando processo, né? Para ficar bem democrático. Se ela quiser, tudo bem. Se não, tudo bem”, responde o ex-conselheiro em ligação interceptada em 31 de outubro de 2014.

A conversa dura pouco mais de dois minutos.

“Tá bom, ela (Carmem) mandou um e-mail aqui para mim dizendo que se prontificava a ajudar”, prossegue o interlocutor.

“Você diz assim: olhe, nós combinamos assim. Agora, dependendo do seu grau de satisfação, dependendo do seu grau de trabalho aí, como é que está. Para nós é bom, entretanto, estaria facultado. Faz aquela algaroba, querendo e não querendo, né?”, ensina o ex-conselheiro.

“Entendi, entendi, tá legal”, responde o interlocutor.

Carf. Foto: André Dusek/Estadão

Carf. Foto: André Dusek/Estadão

Para a PF, as fraudes resultaram em bilhões de reais “economizados” pelas empresas autuadas, em detrimento do erário da União. Sobre essa economia teriam incidido porcentualmente as “comissões”, sob a “cláusula de sucesso”, ou seja, um porcentual que levaria em consideração o que os cofres públicos deixariam de recolher.

Um dos principais articuladores, segundo a Polícia Federal, seria José Ricardo da Silva, advogado e sócio de empresas que formariam uma organização criminosa comandada por ele. José Ricardo teria atuado em favor das empresas dentro do conselho mediante recebimento de propinas, afirmam os investigadores.

A PF o acusa de integrar o esquema de corrupção no colegiado, usando suas empresas, e chegou a pedir a prisão dele. A Justiça, no entanto, não considerou a medida necessária. Jorge Celso Freire da Silva não foi localizado para comentar as suspeitas da Polícia Federal.

COM A PALAVRA, O CARF.

Em nota divulgada na segunda-feira, 6, o Conselho informou que desvios éticos e atos de improbidade ou de corrupção são fatos isolados e que está implementando ações de melhoria da gestão, adotando procedimentos que confiram maior segurança, transparência e celeridade aos julgamentos.

“Em sua trajetória ao longo destes anos, o quadro de Conselheiros e Servidores do CARF sempre esteve formado por pessoas dedicadas, comprometidas e integras, assim como os demais servidores que atuam das organizações públicas e privadas. Desvios éticos, atos de improbidade ou de corrupção são fatos isolados, atribuíveis às pessoas que os tenham realizado ou praticado, independentemente das instituições. Sua eventual ocorrência não pode ser, indiscriminadamente, associada ao corpo técnico e funcional das instituições públicas ou privadas. Os fatos narrados no contexto da Operação Zelotes constituem desvio ético altamente condenável, sobretudo pelos prejuízos aos cofres públicos e à imagem do CARF, de seus Servidores e Conselheiros. Referidos fatos devem ser apurados com rigor, identificadas as infrações cometidas e punidos os responsáveis, na forma da Lei. Por essa razão, o CARF apoia as investigações e todas as medidas saneadoras necessárias.”

COM A PALAVRA, O MINISTÉRIO DA FAZENDA.

O Ministério da Fazendo afirmou que Jorge Celso Freire da Silva não é mais Presidente de Câmara. Segundo o órgão do governo, ele ficou no Carf durante 3 anos, e saiu em 2014.

“O Presidente de Câmara não tem total liberdade para compor as Turmas de Julgamento. As TJ são compostas à medida que surgem as vagas, por indicação por parte das Confederações ou da Receita Federal, conforme a vaga seja de representante dos Contribuintes ou da Fazenda Nacional. As indicações ocorrem por encaminhamento de lista tríplice e os indicados devem atender os requisitos de tempo e experiência na matéria tributária/contábil/processual exigidos. A escolha do conselheiro dentre os candidatos é feita pelo Comitê de Seleção de Conselheiro, na forma do arts. 32, 33 e seguintes do Regimento Interno do CARF aprovado pela Portaria MF n. 256, de 22 de junho de 2009. Após a escolha do nome do Conselheiro o Comitê submete à consideração do Ministro da Fazenda para designação.”