‘Governo do Amazonas se aproveitou da pandemia e praticou subterfúgios para beneficiar empresários que receberam lucros exorbitantes’, diz PF

‘Governo do Amazonas se aproveitou da pandemia e praticou subterfúgios para beneficiar empresários que receberam lucros exorbitantes’, diz PF

Representação da Polícia Federal pela abertura da segunda fase da Operação Sangria revela mensagens que citam vice-governador e ex-chefe da Saúde amazonense

Pepita Ortega e Fausto Macedo

20 de outubro de 2020 | 10h14

Foto: Reprodução/PF

As investigações da Polícia Federal na Operação Sangria – inquérito sobre fraudes na compra de respiradores no Amazonas – apontam que o governo do Estado, na gestão de Wilson Lima, ‘se aproveitou da pandemia da Covid-19 e praticou subterfúgios para beneficiar empresários locais, os quais seriam responsáveis por financiar a compra de equipamentos hospitalares, recebendo, como retorno, lucros exorbitantes’.

É o que registra o pedido da PF pela abertura da segunda etapa da investigação. A ofensiva aberta no início no mês cumpriu onze mandados de busca e apreensão, inclusive em endereços ligados ao vice-governador do Estado, Carlos Almeida.

O relatório da PF foi divulgado pelo repórter Alexandre Hisayasu no Jornal Nacional da TV Globo nesta segunda-feira, 19. O Estadão também teve acesso ao documento subscrito pelo delegado Igor de Souza Barros.

Em relatório de 72 páginas a PF detalha as suspeitas que recaem sobre a contratação da empresa FJAP, por R$ 2,9 milhões, para o fornecimento de ventiladores pulmonares. O nome fantasia da empresa contratada pelo governo do Amazonas é ‘Vineria Adega’ e tem como atividade principal a comercialização de vinhos e espumantes.

Foto: Reprodução/PF

O documento descreve as supostas participações do ex-Secretário de Saúde do Amazonas Rodrigo Tobias de Sousa Lima e do vice-governador Carlos Almeida no esquema investigado. O primeiro é apontado como ‘peça-chave’ no esquema de aquisição dos ventiladores pulmonares. Já quanto ao segundo , a PF destaca a ‘influência’ sobre a Secretaria de Saúde, sendo que o vice-governador era chamado como ‘chefe’ por outros investigadores.

Os investigadores suspeitam de uma manobra conhecida como triangulação. Como mostrou o Estadão quando a primeira etapa da Sandria foi aberta – fazendo buscas contra Wilson Lima – uma fornecedora de equipamentos de saúde que já havia firmado contratos com o Executivo do Amazonas, , a Sonoar, vendeu os ventiladores à Vineria Adega por R$ 2,480 milhões. No mesmo dia, a casa de vinhos revendeu os equipamentos ao Estado por R$ 2,976 milhões, ou seja, com sobrepreço de R$ 496 mil. Após receber valores milionários em sua conta, a adega repassou o montante integralmente à organização de saúde, segundo informou o Ministério Público Federal à época.

Foto: Reprodução/PF

A representação da PF pela segunda fase da Sangria apresenta justamente algumas provas obtidas durante a primeira etapa da operação. No documento constam trechos de depoimento da ex-gerente de compras da Secretária de Saúde do Amazonas Alcineide Pinheiro, além de mensagens trocadas entre os investigados.

Presa na ofensiva aberta em junho, Alcineide revelou aos investigadores como funcionou o suspoto esquema de corrupção sob suspeita. Segundo ela, o empresário local Gutemberg Leão Alencar – que é apontado pela PF como ‘homem de confiança- de Wilson Lima e foi alvo de mandado de prisão na segunda fase da Sangria – era um dos responsáveis pelo esquema de financiamento dos ventiladores pulmonares. Já Rodrigo Tobias, ainda segundo a ex-servidora, ciente e acompanhava todo o processo de aquisição fraudulenta.

Foto: Reprodução/PF

A PF apontou que um áudio enviado por Tobias, à época em que ainda era Secretário de Saúde, corrobora a versão da ex-gerente de compras. Segundo a corporação, na gravação encaminhada pelo WhatsApp a Alcineide no dia 4 de abril, o ex-chefe da Saúde do Amazonas ‘informou que estaria recebendo muitas demandas, e uma delas seria do governador, a respeito de um empresário do Amazonas, do Grupo Nova Era (rede de supermercados) que seria o responsável pelas compras pelo Governo e revender em seguida para o Estado’.

Foto: Reprodução/PF

A corporação destaca ainda mensagens que foram extraídas do celular de João Paulo Marques, ex-Secretário Executivo da Saúde, para apontar a ‘ingerência’ de Carlos Almeida na pasta. Segundo a PF, o investigado, assim como Rodrigo Tobias e Perseverando da Trindade Garcia, ex-Secretário Adjunto da Saúde, se reportavam ao vice-governador em relação a contratos vinculados à Secretaria.

“Fato que chama atenção, demonstrando, a princípio, a influência e/ou ingerência de Carlos Almeida no processo de aquisição dos ventiladores pulmonares, ocorreu no dia 02 de abril de 2020. Rodrigo Tobias, Perseverando Garcia e João Paulo discutem sobre a forma de como seria adquirido os ventiladores pulmonares da empresa Sonoar. No decorrer dos diálogos, Perseverando sugere a criação de um processo fantasma. Já Rodrigo Tobias informa que conversou com Carlos Almeida e este, por sua vez, sugeriu algumas alternativas para a aquisição dos equipamentos, tendo, a princípio, ciência da contratação que a SUSAM iria fazer com a Sonoar”, registra o relatório da PF.

“Além disso, o vínculo entre Carlos Almeida e os investigados na Operação Sangria se mostra ainda mais patente quando Perseverando recebe uma intimação do Ministério Público Estadual no começo de maio de 2020 para prestar esclarecimentos sobre a compra dos ventiladores pulmonares da Vineria Adega no começo de abril de 2020. Na ocasião, Tobias aconselha Perseverando a entrar em contato com Carlos Almeida, pois ‘ele vai ter que te ajudar'”, completam os investigadores.

COM A PALAVRA, O GOVERNO DO ESTADO

A reportagem entrou com contato com o governo do Estado, por e-mail. O espaço está aberto para manifestações.

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