Governo digital: o cidadão no centro

Governo digital: o cidadão no centro

Eliel Allenbrandt*

26 de julho de 2020 | 08h00

Eliel Allenbrandt. FOTO: DIVULGAÇÃO

Na animação Zootopia, os estúdios Walt Disney retrataram um departamento estatal de trânsito comandado por bichos-preguiça. Lentamente, eles preenchem formulários e carimbam protocolos – enquanto uma fila impaciente se avoluma. Um dos atendentes, ironicamente, chama-se “Flecha”. A colega ao lado, “Preguiscila”. E a simples tarefa de checar uma placa, razão pela qual os protagonistas foram até lá, dura uma eternidade.

O exagero da cena, é claro, possui um componente cômico. Mas parte do humor também está no fato de que o espectador, em maior ou menor escala, já passou por situações semelhantes a essa.

O que posso acrescentar, graças aos meus mais de 25 anos de experiência profissional com governos, é que o problema não está necessariamente no capital humano desses locais. Não, não são todos bichos-preguiça – muito pelo contrário, sempre convivi com profissionais brilhantes e dispostos a resolver os problemas da forma mais ágil possível. O que costuma tornar os processos tão vagarosos é um desafio mais estrutural.

A boa notícia é: nunca vivemos em um período tão propício para atacá-lo. Em meio à pandemia do coronavírus, o mundo inteiro vive um processo irreversível de transformação digital. Os negócios – das grandes corporações às microempresas – precisaram incorporar ferramentas, tecnologias e soluções online para sobreviver. Também pudera: com bilhões de pessoas ao redor do globo trabalhando, estudando e vivendo trancadas em casa, somente assim seria possível sobreviver.

Esse caminho é irreversível e precisa ser incorporado pelo setor público. Os desafios, claro, são gigantescos. Os três entes federados – municípios, estados e União – têm responsabilidades distintas, mas trabalham de forma interdependente. A dinâmica de atuação é, naturalmente, mais engessada do que a privada. Legislação, órgãos de controle, limites orçamentários, disparidades sociais e econômicas: tudo contribui para dificultar o processo.

Felizmente, há exemplos que mostram que essa transformação é possível no setor governamental. A Estônia, por exemplo, é um case de país completamente digital. A Europa e a Ásia têm vários outros benchmarks de maturidade. E o Brasil, ainda que de forma mais incipiente, tem avançado – sendo o portal gov.br um excelente exemplo disso.

Por trás de todas essas ações, há uma lógica que não deve sair de nosso horizonte: enquanto empresas atendem consumidores, governos atendem o cidadão. É o mesmo mindset que deve guiar ambos os lados. Os esforços digitais do setor público devem ter as pessoas no centro, oferecendo a elas eficiência, transparência e simplicidade na resolução de seus problemas. A crise causada pela pandemia abre espaço para que isso ocorra mais rapidamente – permitindo uma evolução fundamental para toda a sociedade.

*Eliel Allenbrandt é Managing Director e Key Account Directorda BriviaDez

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