Governo Bolsonaro despenca

Governo Bolsonaro despenca

Rodrigo Augusto Prando*

22 de março de 2019 | 10h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

Lembro, há muito, das aulas de matemática quando, ao final do exercício, o professor escrevia na lousa: CQD – Como Queríamos Demonstrar. Desde o final da eleição de 2018, a mais atípica desde 1989, tenho escrito sobre não só a vitória de Bolsonaro, a confecção de seu governo, bem como as primeiras ações tomadas nestes meses iniciais.

Retomando o que escrevi, sem presunção ou arrogância, daria, à guisa de meu velho professor de matemática, usar o “como queríamos demonstrar”, pois os dados da recente pesquisa do governo em voga devem ser compreendidos dentro do quadro geral levando-se em conta os discursos, ações, relacionamento com o Poder Legislativo e com a própria sociedade brasileira.

Os dados do Ibope apontam o seguinte cenário: os que avaliam o governo como ótimo/bom eram 49% em janeiro, 39% em fevereiro e, agora, em março, 34% (uma queda de 15 pontos percentuais); já os que avaliam o governo como regular saiu de 26% em janeiro, para 30% em fevereiro e está em 34%; por fim, os que avaliam o governo como ruim/péssimo teve curva ascendente saindo de 11% passando para 19% e chegando a 24% (um aumento de 13% pontos percentuais). Já na primeira avaliação do governo, jornalistas questionaram-me se já havia acabado a “lua de mel” do governo com a sociedade brasileira. Afirmei que presenciávamos uma lua de mel com muita desconfiança, cuja pergunta era: “será que fiz bem em casar com ele?”.

Desde o primeiro momento – findada as eleições e sem tomar posse – aduzi que Bolsonaro deveria abandonar a retórica de campanha, agressiva e superficial, e assumir a liturgia do cargo de presidente da república, bem como tornar-se o líder político que a situação do país reclama. Não conseguiu. Nem mudou o tom do discurso e nem deixou de falar para os já convertidos presentes em suas redes sociais.

O resultado da eleição de Bolsonaro apresenta um quadro preocupante: em termos de votos válidos, Bolsonaro teve 55,13% (57.797.847 votos) e Haddad 44,87% (47.040.906 votos), contudo, houve 2,14% de votos brancos (2.486.593), 7,43% de votos nulos (8.608.105) e 21,30% de abstenções (31.371.704). Os números indicam que boa parte não quis Bolsonaro, portanto, o presidente eleito deveria fazer um esforço – e afirmou isso na posse – de governar para todos, indistintamente. Também não conseguiu.

Sua postura e dos seus (familiares, ministros e apoiadores) continuou sendo a de afirmar que o outro (adversário convertido em inimigo) é portador de uma ideologia nefasta que deve ser extirpada e eles, os vitoriosos, vão libertar nosso país dessas várias ideologias. O que vimos, até aqui, foi um governo também ideológico (aliás, como todos são), só que com sinal invertido em relação, por exemplo, ao lulo-petismo.

Ao continuar usando as redes sociais e atacando a imprensa, o presidente não rompe a bolha característica das redes sociais. Continuará a ser aplaudido, independente do resulto de suas falas e ações, pelos seus seguidores (eleitores e bolsonaristas – que não são a mesma coisa), mas por se tratar de ambiente controlado, as redes não permitem o diálogo com o diverso, nem aprofundamento das questões mais importantes ao país. Parafraseando conhecido personagem, nunca antes na história do Brasil, vivemos tanto de pós-verdades.

No tocante ao seu ministério, Bolsonaro acertou – e bem – ao conduzir Paulo Guedes e Sérgio Moro, ambos ministros simbólicos: um simboliza o liberalismo econômico e o outro o combate à corrupção e ao crime organizado. No entanto, há um núcleo ideológico responsável por trapalhadas, bobagens, inverdades e incapacidade administrativa que já está custando caro ao Brasil.

Há, como fiador das ações governamentais, o núcleo militar, que já apresenta sua irritação com atitudes voluntariosas do presidente, de seus filhos e demais apoiadores. E, ainda no campo ministerial, sua maior crise foi a demissão do ministro Bebianno, numa incrível confusão entre família e governo, interesses particulares e interesses públicos.

O ponto positivo, aqui, no conjunto de ministros, foi a apresentação da reforma da previdência por Guedes, que será negociada e votada no Congresso Nacional. O ponto negativo é que Moro e seu pacote anticrime, que já havia sido desidratado, agora, parece, perder vigor, até mesmo pelas recentes críticas de Rodrigo Maia, presidente da Câmara.

Há, ainda, que se ressaltar as declarações de Olavo de Carvalho que, confortavelmente, nos EUA, escolheu ministros e, também, continua com enorme influência junto ao presidente e seus filhos. Carvalho foi, simbolicamente, guindado à condição de “sábio do rei” já na primeira transmissão ao vivo do presidente recém-eleito quando um livro de sua autoria estava na mesa de Bolsonaro.

O pensador Olavo de Carvalho não é acadêmico, portanto, as críticas da academia brasileira pouco têm importado para ele ou para seus seguidores. Objetivamente, o pensamento conservador e o tipo de linguagem usada por Carvalho estão na ordem do dia dos poderosos e de milhares de alunos que fizeram seus cursos via internet.

Outro dado objetivo, é que as declarações de Olavo de Carvalho geram desgaste no núcleo governamental, especialmente nos ataques direto ao vice-presidente, general Mourão. Bolsonaro e Mourão tem poder, de fato e de direito, pois foram eleitos; Olavo tem, ao que parece, tem poder de fato, mas não tem a legitimidade do voto. Essa é mais uma confusão que poderá custar caro a Bolsonaro e seu governo.

Aqui, por fim, vale deixar claro: as ideias conservadoras de Carvalho são ideias, como são as ideias progressistas de parte da esquerda ou até de liberais no sentido amplo. E, como ideias, tem seu espaço de circulação e devem ser protegidas à luz da liberdade de expressão.

Houve preponderância de uma política social-democrática com FHC (erroneamente chamada de neoliberal), como houve força das ideias de esquerda (próximas em quase tudo da socialdemocracia) dos petistas, agora, temos uma conjugação de ideias assentadas numa postura liberal na economia e conservadora nos costumes. É assim. Democracia é assim. Nisso, a ministra Damares, num raro momento de acerto, afirmou que a pauta é, sim, conservadora e que se a sociedade não gostar, daqui a quatro anos, muda-se o governo, muda-se a pauta.

Em todas essas primeiras movimentações de Bolsonaro e seu governo, não completados os 100 dias, preponderou afirmações desastrosas, curto circuito comunicacional, quebras de hierarquia, crises geradas pelo próprio governo, incapacidade administrativa e inoperância em alguns ministérios e, no limite, a dificuldade do presidente assumir a condição de líder e deixar de lado o candidato, que já foi vitorioso.

Recentes declarações de Rodrigo Maia sobre o governo somadas ao resultado da pesquisa deveriam deixar o governo em sinal de prontidão e, sobretudo, em um patamar de humildade. A sociedade brasileira já aponta desaprovação acentuada e os atores políticos – especialmente, deputados – apresentam insatisfação com a articulação política e com a própria conduta pessoal do presidente.

Quem torce para o governo dar errado é a oposição que, convenhamos, ainda não deu o ar da graça. O analista político procura deslindar o quadro em tela, mostrando, com honestidade intelectual, falhas e acertos. Já o cidadão torce para que o governo acerte, pois, acertando, o resultado será o bem coletivo. O poder – sempre afirmo aos meus alunos – não fica órfão.

Ou Bolsonaro assume a condição de líder e passe a exercer o poder de fato ou outros ocuparão esse papel, sem sabermos, hoje, se será para o bem ou para o mal.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Graduado em Ciências Sociais, mestre e doutor em Sociologia pela Unesp

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