Governar o Rio de Janeiro não é tarefa para os fracos

Governar o Rio de Janeiro não é tarefa para os fracos

Fábio Gomes*

24 de setembro de 2020 | 06h00

Fábio Gomes. FOTO: ARIEL MARTINI

Não é segredo para ninguém que a trajetória política do Rio de Janeiro é catastrófica. A sequência dramática dos últimos governos é péssima para os fluminenses e danosa para o Brasil. Afinal, o estado é um importante cartão de visitas de nosso país. E que, claro, para manter essa posição, precisa se desenvolver, gerar riquezas e se consolidar como uma referência para os demais estados. Algo que, no presente momento, quando o governador eleito, em 2018, Wilson Witzel, afastado pela justiça, parece distante e complexo.

O Rio de Janeiro se encontra em uma situação que envolve também um pedido de impeachment do governador, que tramita na Assembleia Legislativa; um longo debate sobre a renovação do acordo entre o Governo do Estado e o Governo Federal, para que o Rio de Janeiro se mantenha no Regime de Recuperação Fiscal e uma disputa pelo poder entre os grupos do Governador e do Presidente, com acusações que envolvem a instâncias do poder judiciário e partidos. Tudo isso em meio à pandemia que gerou o isolamento social; fechamento de empresas; piora das contas das empresas concessionárias de transportes públicos, que ameaçam inclusive paralisar seus serviços; a paralisação completa do turismo e da indústria do entretenimento, além de uma queda brutal na arrecadação. Se não bastasse isso tudo, após meses de calmaria, temos de volta o fantasma da violência urbana, com comunidades conflagradas, invasões e disputas por territórios.

A verdade, acho que ninguém que conhece minimamente a história do estado discorda, é que o Rio de Janeiro precisa de um líder competente, corajoso e principalmente que administre com transparência e cuidado com o dinheiro público. Afinal, governar nosso estado não é tarefa para fracos. E somente a força não basta para resistir a uma certa sedução da corrupção de um esquema que, há décadas, contamina a administração da outrora capital do Brasil. Mas, é importante que se diga, a coragem para negar acesso aos poderes ocultos de um “sistema” político que insiste em se fazer presente nos últimos governos não é suficiente. O Rio precisa de um gestor com apurada sensibilidade social e visão estratégica de mercado e que se mostre pronto para liderar uma revolução política, social e econômica.

Uma transformação tão profunda como a necessitada pelo Rio de Janeiro não é algo simples. As notícias mais recentes dão conta de investigações que envolvem membros do judiciário e do legislativo. E é importante lembrar que os fatos que produziram a danosa sequência histórica vêm de longe. Os vícios dos tempos da corte portuguesa, trazidos pelo contingente de pessoas com caráter duvidoso, que chegaram durante o período de colonização, comprovam que a origem do mal não é recente e foi reforçada ao longo do tempo. Alguns mais recentes, desde os anos 1960, produziram efeitos que impactaram severamente a importância política e a saúde financeira do Rio de Janeiro. A mudança da capital para a região Centro-Oeste, com poucas compensações para o antigo centro de poder foi decisiva para o surgimento de crises, para o empobrecimento do estado e a perda de importância política.

Além disso, a forma de tributar o petróleo, diferente da praticada para outros produtos, ceifou oportunidades e esperanças. Para citar alguns exemplos do quantos problemas externos promovidos pelos governos centrais atrapalharam as vidas de cariocas e fluminenses. Além dos males produzidos internamente, o Rio sofreu repetidos golpes que fragilizaram a estrutura política.

O sistema político e econômico pode sofrer influências de forças obscuras. Um sistema que insiste em empurrar o Rio de Janeiro para o abismo pode não estar exposto entre os que são denunciados e estampados nos jornais. Para corrigir os rumos há que se ter coragem para mexer em vespeiros, lutar com gigantes e para, finalmente, resolver a questão da segurança. É fundamental, mais que nunca, enfrentar os conluios empresarias que sugam o dinheiro público – muitos dos quais engendrados em contratos governamentais independentes do governante. É preciso também cortar os canais que irrigam o sistema de corrupção, que já levou dezenas de políticos para a cadeia.

O Rio de Janeiro precisa de um líder incorruptível. Afinal, como sabemos, a corrupção pode alcançar o governante por sedução ou imposição. A sedução do dinheiro fácil, do desejo pela riqueza, do poder financeiro para conquistas pessoais e políticas, da compra de eleitores e lideranças políticas. Os acordos nefastos que facilitam a vida de empresários neutralizam a força do estado e causam danos diretos e indiretos à população. A sedução do poder financeiro pode, facilmente, atrair um governante fraco para o mundo do crime. E para que essa imposição não se efetive é preciso coragem: durante a campanha eleitoral e após a vitória, já no governo.

O Rio de Janeiro precisa de uma revolução moral e ética. E movimentos como esse não podem ser conduzidos por gestores fracos. Que venham os fortes. Os fluminenses e os cariocas agradecem.

*Fábio Gomes, CEO da Bateiah Estratégias e Reputação

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoRio de Janeiro [estado]

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: