Gol marcado, hora de virar o jogo

Gol marcado, hora de virar o jogo

Valter Caldana Jr.*

18 de maio de 2020 | 10h00

Valter Caldana Jr. FOTO: DIVULGAÇÃO

Um pouco aliviado por que o prefeito Bruno cancelou o equivocado rodízio dia sim dia não… Agora, o prefeito precisa focar na questão da mobilidade, pessoalmente. E virar o jogo.

Assim como o maior vetor de transmissão do vírus é o ser humano, o maior vetor de ‘transmissão’ do ser humano é o sistema de transporte, do individualíssimo transporte não motorizado (andar a pé) ao público transporte de altíssima capacidade (Metrô e CPTM), passando por veículos particulares (motos e carros), ubers e ônibus. O prefeito precisa se lembrar que sistema de mobilidade se chama sistema de mobilidade por que é um… sistema! Tudo se relaciona com tudo.

Creio que não haja como fazer lockdown na capital sem ter a chave do cofre, o botão de liga/desliga da Casa da Moeda, sem a polícia militar, a GCM e todos os 39 municípios da Região Metropolitana juntos, tudo ao mesmo tempo. Paralisação simultânea.

Sabe quanto tempo e quanto mortos para articular isso? Umas duas ou três Itálias, várias Milãos… Não temos esta disponibilidade. E não temos este dinheiro.

Sabendo disso, que se faça urgentemente um plano de territorialização do combate ao vírus (zonas vermelhas, amarelas e verdes – quando houver) com medidas específicas para cada uma. E um plano de mobilidade realista que trabalhe a favor, rumo a vitória. Chega de jogar pelo empate.

Precisamos de medidas transversais e multidisciplinares.

Começam pelo escalonamento, alargamento e ampliação de horários de funcionamento para as atividades essenciais. Sempre que possível, que sejam 24 horas, de modo que se possa trabalhar em dois ou três turnos, com menos da metade do corpo de funcionários. Segue pela marcação de horário via internet para que se possa utilizá-las no que se refere a ir aos estabelecimentos, claro quando não se tratar de urgências ou emergências.

Vai no caminho da imposição (sim, imposição) de lotação máxima dentro de qualquer tipo de estabelecimento, que por sua vez também saberão usar de bom senso. Eles mesmos podem definir qual a sua lotação máxima a partir de parâmetros mínimos colocados pela prefeitura. Seja por m², seja por tipo de atividade, seja por número de funcionários, não é uma conta difícil de ser feita.

Aumentar a frota de ônibus em circulação. A frota tem que ir inteira para a rua! Retirar os cobradores de dentro dos veículos e instalar quiosques protegidos para a venda de bilhetes e confecção imediata do bilhete único espalhados pela cidade. Estes quiosques podem também ser pontos de atendimento e de informações sobre os serviços neste período de emergência. Nestes quiosques se pode distribuir máscaras, álcool, sabão, folhetos informativos, dicas de alimentação e itinerários de emergência. Podem ser instalados milhares na cidade em tempo curtíssimo. Vale lembrar que os cobradores tem boa capacitação média, tem plena capacidade de desempenhar esta função e são bastante subutilizados hoje em dia.

Incrementar o SP Taxi, aplicativo da prefeitura, criando a possibilidade de pagamento de todo tipo de deslocamento na cidade com o bilhete único. Esta é uma demanda que está ao menos cinco anos atrasada.

Cadastrar os motoristas de aplicativo no SPTaxi, que poderia passar a se chamar SPMobilidade ou SPMóvel. Cadastrar na mesma plataforma usuários especiais, por idade, por tipo de atividade, horário de trabalho de modo a facilitar o planejamento da rede.

Combinar na plataforma, neste aplicativo, o Bilhete Único, o Bilhete Estudantil, as isenções já existentes e o Vale Transporte. Bancar descontos em táxis e “úberes” cadastrados no SPMóvel para alguns deslocamentos e para alguns perfis de usuário, como por exemplo ida a hospitais e postos de saúde. Sim, descontos bancados pela prefeitura se necessário.

Adotar medidas protetivas imediatas, com o uso de plástico transparente e fita adesiva gente para criar o isolamento de motoristas e passageiros dentro dos veículos, metrô, ônibus, taxis, urbers…

Ampliar a largura das calçadas com a utilização de faixas, pintura de piso e até mesmo fitas zebradas e cones. Ampliar urgentemente as faixas exclusivas para bicicletas, refazendo as que desmancharam e ampliando e interligando a malha.

Elaborar e divulgar uma enorme campanha informativa e educativa com relação às possibilidades da intermodalidade na cidade, explicando as vantagens de incorporá-la no seu dia a dia. Enfim, a lista de possibilidades é ainda maior e várias delas podem e devem se tornar permanentes. Sei também que na prefeitura tem gente boa que entende disso mais do que eu. Certamente terão ideias mais viáveis. Mas, precisarão de uma ordem direta do prefeito para começar a implementá-las.

É isso. Vamos virar o jogo prefeito!!!

Boa sorte a todos nós. E, quem puder, neste meio tempo, fique em casa!

*Valter Caldana Jr., arquiteto e urbanista, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mestre em Planejamento Urbano e Regional e doutor em Projeto de Arquitetura pela USP

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