‘Glaucos, esquece o aluguel’

‘Glaucos, esquece o aluguel’

Engenheiro acusado de ser laranja em venda de imóveis disse que seu primo, José Carlos Bumlai, o orientou a não cobrar mais pelos alugueis de imóvel vizinho de Lula, alvo da Lava Jato

Luiz Vassallo, Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

15 de dezembro de 2017 | 17h28

Reprodução.

O engenheiro Glaucos da Costamarques, apontado como laranja do Lula na compra de imóveis pela Odebrecht, voltou a afirmar ao juiz federal Sérgio Moro que não recebeu, até outubro de 2015, os valores referentes a alugueis do apartamento vizinho ao do ex-presidente Lula, em São Bernardo. Ele disse ainda ter sido orientado por seu primo, José Carlos Bumlai, a ‘esquecer’ os alugueis do apartamento.

Primo de José Carlos Bumlai, amigo de Lula, Glaucos é acusado de ser laranja de um terreno de R$ 12 milhões aonde supostamente seria sediado o Instituto Lula e do apartamento 121, no edifício Hill House, em São Bernardo, vizinho à residência do ex-presidente.

O depoimento do engenheiro se deu no âmbito de incidente de falsidade aberto contra documentos de pagamento dos aluguéis do apartamento entregues pela defesa de Lula. Os advogados entregaram um contrato entre a ex-primeira-dama Marisa Letícia e Glaucos, além de recibos de pagamentos desde 2011. A Lava Jato afirma que os documentos são ideologicamente falsos.

“O aluguel de fevereiro no dia 5 de março eles não me pagaram. no mês seguinte, não me pagaram. Eu fui falar com o zé Carlos [José Carlos Bumlai]: ‘eles não pagaram o aluguel, o que tá acontecendo?’ Ele falou: Glaucos, esquece o aluguel'”.

Apesar de ter assinado os recibos do aluguel, Glaucos disse nunca ter recebido. Ele afirma que compensava com o primo, José Carlos Bumlai, somente os pagamentos de Imposto de Renda relativos ao imóvel.

“O Zé Carlos ressarcia.  Era R$ 230 por mês, mais ou menos. Então, alguns acertos de contas que eu tinha com o Zé Carlos, vamos supor, compramos um cavalo. Ele ia acertar comigo. Ele falava: ‘Glaucos, quanto você pagou de carnê leão? ah, eu paguei R$ 2500. E ele ressarcia. Porque eram valores pequenos”.

O engenheiro ainda voltou a dizer que foi visitado pelo advogado de Lula, Roberto Teixeira, enquanto esteve hospitalizado em 2015. Registros do Sírio Libanês, aonde Glaucos foi operado, não mostraram visitas do compadre do ex-presidente.

“Ele entrou sem se identificar porque a entrada no hospital, que a gente faz o crachá é falha. Vou dar um exemplo. Quando eu estava recuperado, meus filhos alugaram um flat na frente do hospital, na rua lateral. Numa esquina que fica. Eles alugaram na frente do pronto socorro. Então, saiu dali sem se identificar, e entravam pelo pronto socorro”.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO CRISTIANO ZANIN MARTINS, QUE DEFENDE LULA

Depoimentos confirmam que recibos são autênticos

O depoimento do Sr. João Muniz Leite nesta data (15/12) reforçou que todos os recibos com quitação dirigidos à inquilina D. Marisa Letícia Lula da Silva foram emitidos pelo proprietário do imóvel, o Sr. Glaucos da Costamarques, que também dirigia a ele informes sobre o recebimento de aluguéis, inclusive por e-mail. Um desses e-mails, de 2014, consta nos autos (Processo nº 5043015-38.2017.4.04.7000/PR).

Leite também sublinhou que Costamarques declarava o recebimento dos aluguéis à Receita Federal e efetuava o recolhimento dos impostos devidos, sendo um deles o carnê-leão.

Costamarques, por sua vez, atestou que assinou os recibos de locação emitidos em favor de D. Marisa e que não houve emissão de todos os recibos de uma só vez. A negativa do recebimento dos aluguéis desta vez veio acompanhada de uma nova versão dos fatos — a quinta até o momento —, segundo a qual o apartamento teria sido comprado para um parente, que lhe faria o reembolso dos valores dos impostos pagos por diversos meios, inclusive por transações envolvendo a “venda de cavalos”. Alegou, ainda, de forma contraditória, que se considera o proprietário do imóvel e que faz o pagamento de todos os impostos devidos pelo recebimento dos aluguéis.

A verdade hoje confirmada pelos depoimentos é que os recibos de locação, como sempre foi afirmado pela defesa do ex-Presidente Lula, são autênticos, foram emitidos pelo Sr. Glaucos da Costamarques com declaração de quitação em favor da D. Marisa, que é prova mais plena do recebimento dos aluguéis de acordo com a lei brasileira, confirmada por outros documentos existentes nos autos, como a movimentação nas contas do proprietário envolvendo valores em espécie. Também ficou claro mais uma vez que o apartamento não é do ex-Presidente Lula e que não há qualquer valor proveniente de contratos da Petrobras relacionado ao imóvel, ao contrário do que consta na denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal.

CRISTIANO ZANIN MARTINS

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