Glaucoma, vilão silencioso e principal causa de cegueira irreversível

Glaucoma, vilão silencioso e principal causa de cegueira irreversível

Cristiano Caixeta Umbelino*

07 de março de 2021 | 06h30

Cristiano Caixeta Umbelino. FOTO: DIVULGAÇÃO

A doença tira a visão lentamente – das laterais para o centro; quando a pessoa percebe, parte da visão já foi perdida. Hoje, ainda não tem cura e o que foi perdido, não recupera. Mas tratamentos podem interromper a progressão da glaucoma, que atinge cerca de 76 milhões de pessoas em todo o mundo em 2020.

O nosso calendário está repleto de datas e cores que nos fazem lembrar a importância de prestar atenção em nossa saúde. Neste inicio de março, temos a Semana Mundial de Combate do Glaucoma, uma oportunidade para divulgar a importância de avaliação periódica de nossa saúde ocular, principalmente a partir dos 35/40 anos de idade, onde o glaucoma pode acometer entre 1 e 2% da população. Hereditariedade, diabetes e histórico familiar podem aumentar consideravelmente a chance do indivíduo apresentar a doença.

O glaucoma é uma doença ocular causada principalmente pela elevação da pressão intraocular, que provoca lesões no nervo ótico e, como consequência, comprometimento visual. A pressão ocular mais alta pode não apresentar nenhum sintoma. A medida da pressão ocular é realizada pelo médico oftalmologista no consultório, em visita de rotina, principalmente naqueles com algum histórico familiar. Considerando o aumento da longevidade da população e para que essa longevidade venha com qualidade e uma vida produtiva, a saúde ocular deve fazer parte do exames anuais.

Há vários tipos, mas o mais comum é o glaucoma crônico simples , ou glaucoma primário de ângulo aberto, que representa mais ou menos 80% dos casos em nossa populção. Assintomático, é causado por um desquilibrio na drenagem do humor aquoso, liquido é produzido dentro dos nossos olhos, leva ao aumento da pressão intraocular. Já a principal característica do glaucoma de ângulo fechado é o aumento súbito de pressão intraocular, devido à característica do seio camerular estreito. Este tipo de glaucoma é mais frequente na etnia oriental. O glaucoma congênito acomete os recém-nascidos, e o glaucoma secundário é decorrente de complicações de outras enfermidades como diabetes, uveítes e cataratas, entre outros fatores.

Segundo dados recentes do IAPB (International Agency for the Prevention of Blindeness), entre todas as causas, 1,1 bilhão de pessoas vivem com perda de visão no mundo. Em 2020, segundo o Atlas da Visão, publicado por esta entidade, na região que comporta Brasil e Paraguai, este número representou 29 milhões de pessoas acometidas por perda de visão (13% desta população) e 1,8 milhão delas eram cegas. E o glaucoma está entre as três principais causas de cegueira no mundo e causa número um nos casos de cegueira irreversível.

Por isso, o modo como o glaucoma crônico se desenvolve, de forma lenta, consideramos como um grande vilão para seu diagnóstico e tratamento. Na maioria dos casos, o paciente não percebe mudanças de visão, na fase inicial. Isso porque a perda gradual da visão começa a partir da periferia do olho, e posteriormente alcança o campo central.

O diagnóstico do glaucoma é feito através de uma avaliação oftalmológica. Por exemplo, durante o exame de rotina, quando o paciente procura o oftalmologista para trocar os óculos. Através dos exames realizados no consultório o médico faz o diagnóstico ou se necessário solicita exames complementares como campo visual, retinografia, tomografia de coerência ótica, entre outros, para a determinar o diagnóstico. Já no caso de uma crise de glaucoma agudo, quando a pressão intra ocular atinge níveis muito elevados, o quadro pode manifestar-se com fortes dores de cabeça, enjôo, dor ocular intensa, turvação da visão e vermelhidão ocular.

Os tratamentos disponíveis têm o objetivo de estabilizar a progressão da lesão do glaucoma, através do controle da pressão intraocular (PIO), seja por meio medicamentos específicos, como colírios de uso contínuo, laser ou cirurgia. O controle da PIO é o principal fator para diminuir a progressão da doença. Nas fases iniciais da doença, o indivíduo pode enxergar muito bem a sua frente, até mesmo letras pequenas, porém pode deixar de ver um objeto que esteja a seu lado. A restrição da visão periférica é algo comum em pacientes com doença avançada. Isto determina uma limitação em funções corriqueiras com por exemplo o ato de dirigir. Alterações que levam um paciente a buscar ajuda profissional como perda de visão, olhos vermelhos, desconforto e embaçamento, apresentam-se em um momento avançado do glaucoma. Sem tratamento adequado, o paciente poderá ficar cego.

O glaucoma não tem cura, mas é fundamental que todos saibam que tem controle. O acompanhamento e o tratamento devem ser realizados pela vida inteira. O médico oftalmologista será o melhor parceiro nesta jornada, em prol do controle da doença.

Estimamos que cerca de metade de todos os indivíduos com glaucoma não sabem que têm a doença, ou seja, (ainda) não foram diagnosticados e não estão sendo tratados.

É importante todos se conscientizem para que os números de acometidos pela cegueira irreversível diminua. Estimamos que o número de pacientes com glaucoma ultrapasse a triste marca dos 110 milhões em 2040, segundo estudos internacionais. Já no Brasil, estima-se que a doença esteja presente em 2%-3% da população brasileira acima de 40 anos o que é equivalente a 1,5 milhão de pessoas.

Por isso, não é hora de se descuidar. O diagnóstico precoce é fundamental para o controle da doença. Durante o tratamento, o importante é não desistir: muitas pessoas deixam de seguir as recomendações do médico, pela ausência de sintomas. Esse descuido pode ter graves consequências. Vamos ter uma vida longa e com olhos saudáveis.

*Cristiano Caixeta Umbelino é professor e chefe do Setor de Glaucoma da Santa Casa de São Paulo, membro consultivo da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG) e vice-presidente do CBO – Conselho Brasileiro de Oftalmologia

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