Gerson e os motoristas americanos

Gerson e os motoristas americanos

Fernando Goldsztein*

15 de março de 2021 | 08h10

Fernando Goldsztein. Foto: CRISTIANO SANTANNA/INDICEFOTO

Os mais jovens talvez não conheçam o ex-jogador de futebol Gerson, o “canhotinha de ouro”. Foi um dos craques do tri campeonato mundial da seleção brasileira no México em 1970. Poucos anos depois, Gerson fez um comercial de TV para o cigarro “Vila Rica” (na época havia comerciais de cigarro). Gerson dizia: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve Vila Rica”. A frase virou sinônimo do famoso “jeitinho brasileiro”. Sempre que alguém tentava levar alguma vantagem indevida, logo ouvia : “Você está querendo dar uma de Gerson?”.

O brasileiro sempre vangloriou-se da sua capacidade de improviso, de “se dar bem” diante de situações adversas e, principalmente, de levar vantagens. A origem desta postura é muito antiga e se remete à época da colonização do Brasil. Desde os primórdios da história do país, o principal objetivo da maioria dos detentores do poder tem sido o de levar vantagens sugando a nação. Não por acaso, temos extremos como o Rio de Janeiro onde cinco ex-governadores foram presos em três anos. Mas como será que chegamos neste ponto? Deixo a resposta para os sociólogos e outros profissionais que estudam o tema. Entretanto, penso que dois fatores são preponderantes para esta triste realidade: baixo nível cultural/educacional e impunidade.

Escrevo dos Estados Unidos onde existe um nível educacional incomparável com o Brasil. Esta diferença abissal se reflete nos trezentos e oitenta e oito prêmios Nobel conquistados pelos EUA contra zero do Brasil. Também, de forma mais singela, pode-se observar esta diferença no comportamento dos motoristas. Isso mesmo, tem muita diferença! Pra começo de conversa, as leis aqui nos EUA são feitas para serem cumpridas, isto é, dependendo da infração, se vai para a cadeia, e em primeira instância. Bem diferente do Brasil… . Os motoristas americanos param na faixa de segurança se o pedestre fizer a mínima menção de que pretende atravessar. Aqui os motoristas também são gentis entre si e costumam dar passagem num clima de cooperação e não de competição. Aliás, pasmem, ao deparar-se com um placa de PARE numa esquina, o motorista PARA, independente de haver ou não a aproximação de outro veículo. Nas estradas, que são larguíssimas, é raro um carro trocar de faixa sem dar sinal com antecedência. Prudência é a palavra chave no trânsito americano. Portanto, se você estiver com pressa, não dirija nos Estados Unidos, chame um Uber.

Os “Gersons” definitivamente  não se dão bem por aqui. Alguns leitores dirão que o americano é cartesiano, duro e não tem jogo de cintura, o que é a mais pura verdade. Entretanto, a questão é que a tal flexibilidade e capacidade de improviso do brasileiro desacompanhados de outras virtudes como educação,  respeito e empatia, não tem contribuído muito, pelo menos até agora, para a construção de um país mais próspero e menos desigual.

*Fernando Goldsztein, empresário

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