Geraldo Vidigal: 100 anos

Geraldo Vidigal: 100 anos

José Renato Nalini*

18 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

A 18 de novembro de 1921, nascia GERALDO VIDIGAL. Família ilustre e protagonista da história de São Paulo e do Brasil. Conheci-o quando foi meu professor de Direito Econômico, na Pós-graduação da São Francisco. Erudito, profundo conhecedor da disciplina, que ministrava em parceria com Otávio Bueno Magano.

Não imaginava que um dia viesse a servir de padrinho quando o Professor Geraldo se casou com minha querida amiga Mariazinha Congílio. Então convivi com o Geraldo poeta, a compor letras de músicas e a cantar, com entusiasmo, nas reuniões da tertúlia “Pensão Jundiaí”.

No livro “O Aprendiz de Liberdade”, cuja leitura mal não faria aos que se preocupam com o Brasil de hoje, Geraldo aborda a outorga, pelo ditador Getúlio Vargas, da “carta fascista do Estado Novo em novembro de 1937, o mês em que prestei concurso para o curso Pré-Jurídico, instalado nas Arcadas da minha Faculdade de Direito de São Paulo. Em outubro de 1945, Vargas era deposto, às vésperas de meu bacharelado. Vivi, assim, intensamente, os oito anos da saga da resistência dos acadêmicos de direito de São Paulo ao tacão do varguismo”.

Geraldo fez mais: foi convocado, junto a três outros estudantes de direito, para servir na FEB – Força Expedicionária Brasileira, na 2ª Guerra Mundial, como soldados do 6º Regimento de Infantaria. Essa odisseia é deliciosamente narrada nesse livro: “O Aprendiz de Liberdade – do Centro XI de Agosto à 2ª Guerra Mundial”. Embora estivesse em plena guerra, o poeta produzia. O poema “Pausa” foi publicado em jornais brasileiros, como datado “de algum lugar da Itália”: Pelotão que vai à testa, que marcha pela estrada do norte – Parar imediatamente!”.

Imagine-se as saudades que o jovem sentia do Brasil e de casa. Suavizadas pela correspondência materna: “As cartas de minha mãe, sempre muito carinhosa, falavam de toda a família, transmitiam recados e recomendações de parentes e amigos, davam notícias de casacos e de carapuças de lã que fazia para mim. Em uma das cartas, minha mãe venceu sua maneira de ser extremamente reservada, revelando a inconformação maternal com o bater-asas dos filhos adultos e evocando o tempo feliz em que podia, à noite, fechar a casa, com a tranquilidade de saber que todos os filhos estavam dentro dela, abrigados e protegidos”.

Para suprir a ausência distante, seu irmão Marcelo cuidou da divulgação de seus poemas, junto com Mário de Andrade, Mário da Silva Brito, José de Barros Martins e outros integrantes da Editora Martins e da gráfica da Revista dos Tribunais, além da equipe da revista “Clima”, que antecipou o lançamento do livro “Predestinação”, prefaciado justamente por Mário de Andrade, em 1945. Viriam “Cidade”, em 1951, “Cantares de amor e solidão”, em 1971, “O aprendiz de violência”, de 1987, “A Lira em 101 Poemas”, 1991 e “Edital aos Poetas”, no ano 2000.

Neste “Edital”, Paulo Bomfim o saúda com a elegância característica ao “Príncipe dos Poetas Brasileiros”: ”Geraldo Vidigal nasceu predestinadamente Poeta. Corre em suas veias velho sangue de Piratininga, daqueles Camargos descendentes de João Ramalho, que transformaram uma Vila numa Pátria… O advogado e o professor de Direito, o cidadão participante e o poeta convivem harmonicamente na mais profunda vocação de viver…O decassílabo Geraldo de Camargo Vidigal transforma-se na poesia que vive e encanta seus leitores”.

Nome expressivo da “Geração de 45”, em companhia de Péricles Eugênio da Silva Ramos e Domingos Carvalho da Silva, também integrantes da Academia Paulista de Letras, Geraldo prosseguiu na docência, tornando-se titular da São Francisco. Suas teses são referência: Disciplina dos órgãos de direção monetária, Livre Docência em Economia Política, Fundamentos do direito financeiro, Livre Docência em Direito Financeiro, Objeto do direito econômico, tese da titularidade na disciplina, além de inúmeras outras obras por ele escritas ou coordenadas.

Mas militou em inúmeras frentes: presidiu o Clube de Poesia, secretariou a Ordem Nacional dos Escritores, sócio da União Brasileira de Escritores, pertenceu à Academia Lusíada de Ciências, Letras e Artes. Pesquisou e escreveu consistente biografia do Marquês de Monte Alegre, vinculado, colateralmente, à sua família.

Foi liderança na celebração do Centenário da Avenida Paulista, entusiasta e agregador. Sua vocação docente e visionária se exprime no poema “Docência”: O mestre hesitou. No amplo e asséptico jardim de infância/Lapiseiras de laser se detinham/Cessava a dissecação de insertos (Nos televisores de pulso,/As crianças acompanhavam, interessadas,/A ordem que partia de um computador/ E a atomização da última biblioteca”.

A poesia “Manifesto da Liberdade” é um libelo conciliador entre esse direito fundamental de primeiríssima dimensão e sua vocação poética: “Vencida em cada vitória/Ressuscito em cada chaga/E em cada gota de sangue/Planto bandeiras de sal/…Eterna, imensa, impalpável/Ubíqua e onipresente/Gêmea da luz e da treva/Livre do espaço e do tempo;Lírio de selo indelével/Eu sou”.

Geraldo de Camargo Vidigal vive em sua poesia atemporal. Bendito seja!

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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