Gente de muitos sonhos

Gente de muitos sonhos

Cassio Grinberg*

26 de abril de 2021 | 08h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Já existia, bem antes da pandemia: gente de poucos sonhos, e gente de muitos sonhos.

Gente de poucos sonhos costuma ter dificuldade para sair da cama e muitas vezes se pergunta se é mesmo preciso fazê-lo. Gente de muitos sonhos tem pauta corrida e foco: um minuto a mais aqui, é um minuto a menos lá.

Gente de muitos sonhos às vezes nem sonha tanto: sabe que é hora de baixar a cabeça e fazer as coisas que precisam ser feitas; nem sempre agradáveis — mesmo quem ama o que faz, não ama sempre tudo o que faz. Gente de poucos sonhos, paradoxalmente, passa o tempo todo sonhando.

Gente de poucos sonhos não começa nada, com medo de fracassar. Gente de muitos sonhos sabe que o tempo inteiro é preciso começar coisas que poderão fracassar. Gente de muitos sonhos está sempre vibrando com o sucesso dos amigos de muitos sonhos. Gente de poucos sonhos, sempre se comparando.

Gente de muitos sonhos ri e chora. Faz esporte. Amassa os filhos com beijos. Canta pela casa.

Gente de muitos sonhos pede opiniões de outras gentes de muitos sonhos, e não acredita nas leis dos ditados. Se tem depressão, toma remédio. Gente de poucos sonhos tem medo da crítica, e detesta surpresas. Gente de poucos sonhos sofre quando perde o controle.

Gente de muitos sonhos é pragmática: acredita na ciência, mas também reza. Sabe que, quem não acredita em milagres, não é realista.

Gente de poucos sonhos teve um tipo de esperança esquisita quando chegou a pandemia. Pensou que gente de muitos sonhos agora iria ficar como gente de poucos sonhos — já que não teria saída: teria também que ficar em casa, longe das empresas, dos palcos, das viagens, dos amigos, adiando seus sonhos, quem sabe até parando de sonhar. Só que gente de muitos sonhos desaprende e se reinventa rápido, muda de perspectiva e muda as coisas de lugar e já percebeu que, para viver, não é preciso permissão.

Gente de muitos sonhos está aqui para inspirar, e provavelmente é quem vai fazer com que gente de poucos sonhos, um dia, acorde.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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