Genocídio

Genocídio

Rodrigo Merli Antunes*

11 de agosto de 2020 | 07h10

Não gosto de várias coisas em nosso presidente. Não gosto de alguns pronunciamentos, de algumas piadas, de alguns ministros escolhidos e de algumas indicações já feitas para a chefia de órgãos e instituições públicas. Não gosto, também, de algumas pessoas próximas a ele e muito menos dessa atual aproximação com alguns segmentos. Não aprovo, ainda, a tecnocracia e o isentismo da maioria dos militares, bem como já fiquei bastante irritado com algumas propostas legislativas de autoria ou sanção do Executivo, em especial quanto à Lei do Abuso de Autoridade, à audiência de custódia, ao juiz de garantias e à recente reforma tributária idealizada.

No entanto, creio que agora houve extrapolação!

Se o leitor pensa que ainda estou fazendo referência ao presidente, tendo providenciado algum tipo de ilação com o título do texto, lamento decepcioná-lo, mas quem extrapolou dessa vez foram seus acusadores.

Imputar ao chefe do Executivo a responsabilidade pela morte de 100.000 (cem mil) pessoas por força do coronavírus é de uma desonestidade intelectual sem tamanho.

Quem essa gente toda pensa que engana?

Será que acreditam que toda a população vai se esquecer que o governo federal ficou praticamente alijado de conduzir os rumos da pandemia por força das decisões do STF, estas dando aos governadores e prefeitos ampla autonomia para fazerem praticamente o que quisessem sobre o assunto?

O fato do presidente, no início, ter minimizado o índice de letalidade da doença, ou ter resistido ao uso irrestrito de máscaras no rosto, não o transforma, de maneira alguma, em um serial killer sanguinário e assassino de seu próprio povo. Afinal de contas, se o uso deste acessório fosse tão unânime assim, desde o início teríamos sido orientados a utilizá-lo sem qualquer sintoma (o que não aconteceu), e também creio que não existiriam tantos artigos e estudos mundo afora questionando o sucesso de seu emprego.

De igual forma, se aqueles que previram o óbito de 1.000.000 (um milhão) de brasileiros vieram a se retratar depois, alegando que 98% (noventa e oito por cento) dos infectados se curaria até mesmo com a ingestão de balas tipo jujuba, como é possível somente acusar o presidente de minimizar os efeitos da doença?

Ora bolas, se o chefe da nação é genocida por dizer o que disse, creio que este outro especialista deveria ser acusado da mesma coisa. Ou será que não? Pau que bate em Chico, deveria bater também em Francisco. Entretanto, por aqui, não é isso que ocorre. O primeiro é denunciado nos tribunais internacionais. Já o segundo é convidado pelo TSE para participar das campanhas contra as denominadas fake news. Vai entender, né?

E isso sem contar que o governo federal repassou bilhões de reais aos estados para o combate à pandemia e também implementou um dos maiores programas de distribuição de renda já existentes no Brasil (o auxílio emergencial para pessoas físicas e microempreendedores). Fora, ainda, o investimento em respiradores e outros insumos e até o aporte de bilhões de reais no desenvolvimento de uma vacina com expertise inglesa e a ser fabricada no próprio território nacional, gerando, assim, emprego e renda para os brasileiros.

Será que isso aí pode mesmo ser chamado de genocídio?

Para mim, genocídio está muito mais próximo de outras coisas. Receber recursos públicos para o combate à doença, mas desviá-los em proveito próprio ou alheio, pode ser chamado do quê? E impedir o tratamento profilático ou precoce por quem quiser fazê-lo? E a proibição no uso de medicamentos baratos e eficazes no avanço da doença? Tudo isso poderia receber algum nome? Creio que sim, não? Ao menos por questão de coerência.

Mas aí alguns podem objetar que não há comprovação científica cabal, que não há isso, que não há aquilo etc. É verdade, mas e o AZT na época da AIDS, também tinha tudo isso? E na pediatria, existe estudo duplo-cego randomizado para tudo? E na cardiologia? E na medicina como um todo? Segundo o infectologista Francisco Cardozo, do hospital Emílio Ribas, apenas 10% (dez por cento) dos procedimentos, tratamentos e eventos da área médica são respaldados por esses estudos. Aliás, nem a dipirona que o leitor toma para dor de cabeça possui esse nível de comprovação que estão a se exigir agora. Entretanto, duvido que você não vá tomar mais o medicamento por conta disso.

Todavia, é certo que existe ainda mais!

E os milhões de empresas quebradas pelo isolamento horizontal; e os milhões de empregos perdidos; e os milhões de famílias necessitadas e com fome que a própria ONU estipulou por conta do lockdown e de outras medidas restritivas? Alguma rotulação para isso, ou será que também não?

E veja que nem estou falando dos cerca de 40.000 (quarenta mil) presos perigosos que deixaram as cadeias nos últimos meses por conta do covid-19, da proibição da polícia combater o tráfico de drogas nas favelas do Rio de Janeiro (deixando-se os bandidos à vontade para destruir a vida e a saúde das pessoas), e nem da ONU ter defendido o aborto como um serviço essencial durante toda a pandemia (será que a morte de bebês mudou de nome?).

Ah, também nem vou comentar as possíveis negligências do governo chinês em alertar o mundo por ocasião do surgimento do vírus, pois, afinal de contas, se alguém é genocida nessa história toda, certamente é o presidente, né?

Meu Deus! Que absurdo!

Como dito no início, todas as pessoas possuem defeitos e virtudes. Algumas, inclusive, possuem mais isso ou aquilo, mas uma coisa é fato: é preciso ter decência, isenção ou ao menos coerência para se atribuir a alguém uma acusação tão grave como a ora comentada.

Na verdade, a meu ver, ao menos até aqui, o crime do presidente parece mesmo é ser outro: desagradar o establishment vigente e incomodar grande parte da classe falante. Por isso a politização da doença e o lamentável uso da morte de milhares de brasileiros para se realizar uma desprezível disputa de poder.

Creio que Roger Scruton estava mesmo certo: “Por uma incansável campanha de intimidação, os pensadores da esquerda tentaram tornar inaceitável estar à direita. Uma vez identificado com a direita, você está além do argumento, suas visões são irrelevantes, seu caráter é desacreditado e sua presença no mundo é um erro. Você não é um oponente com o qual argumentar, mas uma doença a ser evitada”.

Triste país onde grande parte das pessoas pensa dessa forma.

*Rodrigo Merli Antunes, promotor de Justiça em São Paulo e pós-graduado em Direito. Membro do MP Pró-sociedade

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