Gênero e corrupção

Gênero e corrupção

Rita de Cássia Biason*

13 de janeiro de 2021 | 05h00

Rita de Cássia Biason. FOTO: INAC/DIVULGAÇÃO

Nos últimos anos tem havido um esforço concentrado, em diversos países e organizações internacionais, para aumentar a participação das mulheres na vida pública. Os defensores dessas reformas sugerem que as mulheres podem fazer escolhas diferentes dos homens e, de fato, há vários estudos (World Bank, 2001, Engendering Development; World Values Survey; Gender Inequality Index- PNUD) que demonstram essa proposição. Dentre as várias justificativas para a participação da mulher na política temos uma afirmação provocativa: as mulheres seriam menos corruptoras do que os homens. Logo o aumento da presença de mulheres na vida pública contribuiria para a redução dos níveis de corrupção.

Para entender a correlação entre participação feminina e os baixos índices de corrupção na vida pública é necessário considerar três fatores: primeiro, refere-se a própria natureza feminina, as mulheres teriam uma maior preocupação com uma  melhor qualidade de vida      do que os homens que teriam uma tendência mais competitiva e de ganhos financeiros; segundo, as mulheres teriam menor propensão a aceitar subornos, portanto a participação feminina reduziria a incidência de subornos, por exemplo, no legislativo ; terceiro, ministros e secretários, que compõem o gabinete dos governos estariam mais vulneráveis a aceitar subornos do que as mulheres, hipoteticamente falando.

Na primeira proposição, sobre a natureza feminina, destaca-se o papel das mulheres (àquele da área privada do lar) como uma qualificação positiva para a ocupação da vida pública, há uma feminização do espaço público e uma tentativa de colocar as mulheres como reguladoras da probidade e da integridade na política.

Essa abordagem honesta, do caráter feminino, esclarece as segunda e terceira proposições, uma vez que as mulheres trariam para a política um conjunto diferente de valores e experiências que enriqueceriam a vida política.

Desses argumentos apresentados, decorrem algumas inquietações: primeiro: governos com propensão a práticas corruptas tenderiam a  afastar as mulheres da arena pública para manter a estrutura de ganhos ilícitos; segundo,  considerando que a arena pública é um local corruptor isso pode resultar no afastamento das mulheres com medo  de comprometer-se em “negócios sujos”;  e terceiro,  refere-se ao estigma que recaí sobre as mulheres como “saneadoras” da vida pública enquanto os homens teriam uma tendência natural à improbidade.

Esta ideia de associar a virtude feminina com incorruptibilidade não é nova, baseia-se na natureza moral “superior” das mulheres e sua propensão a trazer sua boa moralidade para influenciar a vida pública e, principalmente, a condução da política.

Se as mulheres exibem preferências por comportamentos probos na política ou se é um mito, pode estar na justificativa de que mulheres são excluídas de oportunidades o que dificulta a avaliação sobre uma menor propensão às práticas corruptas. Para além, a associação a menor corrupção e participação feminina na arena pública depende de outras questões mais complexas como educação, vida familiar, igualdade e qualidade da democracia, que divergem de um país para outro.

Nos países nórdicos, por exemplo, há evidências de que a participação feminina reduz às práticas de corrupção, porém são democracias estáveis e que orientam-se pela boa governança. No Peru, em 1998, o presidente Fujimori, anunciou que a força policial de trânsito de 2.500 homens em Lima teria a participação feminina dado que as mulheres seriam mais honestas e moralmente confiáveis do que os homens (Goetz, 2007). Após uma década desta iniciativa de feminização, uma pesquisa de acompanhamento revelou uma redução dos subornos e pagamentos de propina no trânsito local (Karim, 2011).

Nesta mesma linha, El Salvador, Panamá, Equador e Bolívia incorporaram mulheres em suas divisões de trânsito (Karim, 2011). A ideia de “feminizar” os tomadores de decisão também foi posta em prática em Uganda, onde o presidente Yoweri Museveni atribuiu a maioria dos cargos do tesouro às mulheres (Goetz, 2007).

Verifica-se, pois, que há diversas iniciativas nos países para aumentar da presença de mulheres na política e demais setores, comumente justificado com base na igualdade de gênero e redução da pobreza, podendo haver uma recompensa de eficiência que é a redução da corrupção na arena pública.

*Rita de Cássia Biason, cientista política e professora na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP/Franca

Este artigo faz parte de uma parceria entre o blog e o Instituto Não Aceito Corrupção (Inac), com publicação periódica. Acesse aqui todos os artigos.

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