Ganhar dinheiro é para já

Ganhar dinheiro é para já

José Renato Nalini*

04 de julho de 2021 | 12h48

Quando o mundo inteiro presta atenção ao que o Brasil faz com a Amazônia e outros biomas, aqueles que pensam no bolso precisam estar mais atentos. Qual o interesse do capital transnacional nessa última grande floresta tropical, cuja orquestrada destruição encontra-se em pleno curso?

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Só os brasileiros, em grande parte no governo e no agronegócio que não leva o ambiente a sério, ainda não perceberam que substituir a floresta por grandes plantações comerciais, é altamente prejudicial para a economia. Sim, para a economia, assunto que interessa aos “desenvolvimentistas”. Não se comoveriam como argumentos ecológicos e muito menos com uma ética humanitária que ordena proteger a natureza. querem resultado imediato: o lucro. obtido a qualquer custo.

Pois saibam que a derrubada da cobertura vegetal produzirá efeitos significativos sobre o clima local da Amazônia, mas também afetará o regime de chuvas no Sudeste. O resultado para a economia será desastroso. Afetará principalmente os agronegociantes que não deixam uma árvore em pé e exploram soja e pasto. Os fabricantes de um futuro próximo deserto numa área que já foi tão exuberante. Isso é comprovado pela ciência, ramo de conhecimento que está em pleno declínio no Brasil obscurantista.

A pesquisa realizada por Eduardo Eiji Maeda, que trabalha na Universidade de Helsinque na Finlândia, considerou dois tipos de uso do solo na região amazônica. Os explorados pelo agronegócio e os ainda não devastados. Quando se compara a terra dizimada com aquela preservada, verifica-se aumento de temperatura que chega a mais de 3 °C e carência de chuvas. “A floresta atua como uma bomba d’água, retirando o líquido da superfície da Terra e jogando de volta para a atmosfera”, lembra Maeda. Conhecimento elementar, transmitido nas aulas de Geografia, do Ensino Fundamental, mas que não ecoa na mentalidade rentista daqueles que não hesitam em exterminar o futuro.

Quando a floresta está em pé, ocorre um fenômeno muito parecido com a transpiração dos seres humanos. O suor, ao evaporar, reduz a temperatura da pele. Em relação à floresta, a chamada evapotranspiração combina a transpiração das plantas e a evaporação da superfície. Eliminada a cobertura vegetal, a região não transpira como deveria.

A proposta dos pesquisadores é integrar, nas áreas já desmatadas, a lavoura e o pasto tradicionais com sistemas agroflorestais, – plantio de palmeiras, árvores frutíferas e vegetação nativa da região -, de maneira que não precisassem ser derrubadas na colheita. Esse projeto de recuperação das áreas extenuadas ou ociosas não é recente, mas nada se faz para implementá-lo. Persiste a superada mentalidade de se extrair tudo da natureza e nada fazer para mantê-la saudável.

A alternativa é sacudir a mentalidade ainda tacanha de grande parte dos responsáveis pelo agronegócio, de que o mercado global de títulos verdes contabiliza hoje mais de 800 bilhões de dólares. O Brasil, considerado o maior exportador de carne bovina, aves, soja, café e suco de laranja, é identificado como o país de maior potencialidade para a absorção de títulos verdes. Neste ano, o montante de negócios ligados à descarbonização deve crescer ao menos 50%.

Se a troca do titular da pasta do meio ambiente não tiver sido apenas uma resposta para o emaranhado de investigações que envolve o personagem, com indicação de que a mesma linha antiambientalista continuará, de pouco adianta acenar com essa promissora perspectiva. O mundo civilizado é inteligente e sabe detectar o que acontece em países periféricos.

É muito recente a advertência de empresários da União Europeia, quanto aos riscos de boicote de produtos gerados em áreas dizimadas, como tem ocorrido com frequência. O ambiente de negócios precisa ser tutelado de forma racional pela iniciativa privada, ante a carência de protagonismo governamental. O conceito ESG é uma ferramenta que pode transformar a face do Brasil e fazê-lo recuperar a condição de potência verde. Não faltam argumentos, nem normatividade. A lei 13.986/20 trouxe inovações para atrair investimentos internacionais como a concessão de terras rurais dada em garantia a investidores estrangeiros para redução de seus riscos. Ainda permite a emissão de certificados de recebíveis do agronegócio – CRAS, diretamente em moedas estrangeiras no mercado offshore.

É preciso conscientizar todos os brasileiros de que os tempos são outros, e de que os danos reputacionais do “greenwash” não podem mais acontecer. A resposta brasileira para o aquecimento global não pode ser retórica, nem tosca ou evasiva. O mundo está de olho no Brasil. Oportunidade para que os bons agricultores ganhem ainda mais dinheiro. Depende deles e da consistência de sua consciência ambiental.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – gestão 2021 – 2022

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