Fux nega indenização a Acre e Mato Grosso do Sul por despesas com presos transnacionais

Fux nega indenização a Acre e Mato Grosso do Sul por despesas com presos transnacionais

Estados que fazem fronteira com Bolívia, Peru e Paraguai pretendiam obter ressarcimento por manter em seus presídios sentenciados por crimes federais, mas ministro do Supremo concluiu que aumento de verbas resultaria em desequilíbrio dos repasses do Fundo Penitenciário Nacional

Paulo Roberto Netto

29 de novembro de 2019 | 05h00

A custódia e manutenção de condenados por crimes federais e transnacionais em presídios estaduais não geram à União o dever de indenizar os estados, pois não há correlação entre o juízo de processamento do crime e a esfera de cumprimento da pena. Com base nesse entendimento, o ministro Luiz Fux, do Supremo, julgou improcedentes os pedidos de ressarcimento feitos pelos Estados de Mato Grosso do Sul e do Acre nas Ações Cíveis Originárias (ACOs) 2992 e 3039.

As informações estão no site do Supremo.

Foto: Fábio Motta

O ministro negou o pedido com base na jurisprudência do STF de que as penas de crimes federais são cumpridas, em regra, em prisões estaduais, não havendo o dever de indenização por parte da União.

Despesas extras. Nas ações ao STF, Acre e Mato Grosso do Sul pediam que a União fosse condenada a ressarci-los pelas despesas decorrentes da manutenção de sentenciados por esses crimes.

Alegaram que, por estarem situados em zonas fronteiriças – o Acre faz fronteira com a Bolívia e o Peru, e Mato Grosso do Sul com a Bolívia e o Paraguai –, possuem ‘despesas extras’ com seus sistemas penitenciários em razão da detenção de responsáveis por atividades criminosas ligadas ao tráfico transnacional de armas, munições e drogas que seriam distribuídas em todo o território nacional.

Como os acusados desses crimes são processados e julgados nos estados – distritos da culpa -, os estados argumentam que ‘suportam sozinhos o ônus da sua prisão’.

O pedido de ressarcimento baseou-se no artigo 85 da Lei federal 5.010/1966, que organiza a Justiça Federal de primeira instância.

O artigo 85 prevê que, enquanto a União não tiver estabelecimentos penais, a custódia de presos à disposição da Justiça Federal e o cumprimento das penas por ela impostas se darão nos estados.

Por se tratar de norma de caráter transitório, os estados sustentavam que ‘a posterior criação de estabelecimentos penais federais deveria retirar do sistema penitenciário estadual o ônus de receber os presos condenados pela Justiça Federal’.

Investimentos. A União, ao contestar o pedido, argumentou que somente com a edição da Lei 11.671/2008 foi criado o Sistema Penitenciário Federal, com finalidades específicas e delimitadas, e especificados os presos que devem ser encaminhados aos presídios federais.

Ressaltou ainda que tem auxiliado os estados por meio da transferência ‘considerável’ de recursos em obras realizadas em estabelecimentos penais, por meio de convênios e contratos de repasse, e com investimentos em diversas ações relacionadas à polícia penitenciária.

Repasses. Fux observou que, de acordo com as informações prestadas nos autos, o Fundo Penitenciário Nacional (Funpen) tem feito repasses vultosos aos estados para construção, ampliação e reforma de estabelecimentos penais estaduais.

A própria lei que criou e regulamentou o Funpen estabelece o repasse de 90% dos recursos para os fundos penitenciários dos estados e do Distrito Federal, sendo 30% distribuídos conforme as regras do Fundo de Participação dos Estados (FPE), 30% de forma proporcional à população carcerária de cada estado e 30% de forma igualitária.

“Aumentar a porcentagem conferida pela União aos Estados de Mato Grosso do Sul e do Acre importaria desequilibrar a harmonia dos repasses do Funpen, além de sacrificar recursos de outros estados que possuam demanda eventualmente maior”, afirmou.

O relator observou que a Lei 11.671/2008, ao disciplinar o regramento de presídio federal, ‘dissociou sua imagem dos crimes de competência da Justiça Federal, operando somente como penitenciárias de segurança máxima’.

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