Futuro do trabalho: inteligência artificial com impacto zero?

Futuro do trabalho: inteligência artificial com impacto zero?

Federico Sader*

29 de agosto de 2019 | 05h00

Federico Sader. FOTO: DIVULGAÇÃO

Buscar soluções milagrosas para grandes problemas doloridos é um desejo do ser humano desde que temos conhecimento de nossa existência. Durante centenas de anos, alquimistas buscaram a criação de uma poção mágica capaz de transformar metal em ouro: o famigerado “elixir”. Esta temática foi inspiração para uma bela Ópera de Gaetano Donizzetti, L’elisir d’amore.

A ópera debutou em 1832, período que marca o início da primeira revolução industrial, naquele momento a disrupção vinha do uso do vapor e novos métodos de produção que transformaram o processo artesanal em fabril com uso de máquinas. A população mundial girava ao redor de 1 bilhão de pessoas. Nesta época, vivíamos no Brasil colonial, após a fuga da coroa portuguesa para o Rio de Janeiro.

Hoje somos quase 8 bilhões de almas que habitam a terra, onde metade vive abaixo da linha da pobreza, segundo dados das Nações Unidas. Iniciamos uma nova revolução, tendo as mesmas máquinas só que agora ditas “inteligentes”. Neste cenário, faço o seguinte exercício: se fosse um extraterrestre que decidiu estudar o planeta terra, no tocante dessa tal de revolução das “máquinas” nos dias atuais, olhasse para a primeira e segunda revolução industrial e pensaria: o que será que farão desta vez para dar certo? Porém antes vamos definir o que “dar certo” significa, aqui resumimos que construir uma sociedade mais justa que permita uma vida melhor à população do ponto de vista social, econômico, saúde e de privacidade das pessoas

Tenho uma visão positiva sobre o conhecimento científico, acredito que nunca deve ser barrado mesmo porque não vejo isso viável , a evolução do conhecimento sempre cria externalidades positivas e negativas e o papel da sociedade é fazer uma discussão madura de como aplicar e o que controlar.

Abordando por um outro ângulo desta mesma temática, vamos falar de privacidade de dados. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) foi sancionada com um veto, no mínimo preocupante, relativo ao uso de algoritmos. A lei aprovada pelo legislativo previa que as pessoas naturais tivessem o direito de pedir uma revisão humana caso não tivessem de acordo com o resultado do uso de seus dados pessoais modelados por algoritmos, porém o veto derrubou este processo, permitindo que as empresas façam seus modelos sem a necessidade de demonstrar como estes modelos decidem. Sabemos que este é um tema complexo, mas abrir mão deste elemento pode nos levar a um cenário onde podemos ter efeitos nefastos sobre a sociedade, como pontua Cathy O’Neil em seu best-seller Weapons of Math Destruction. O livro mostra, com exemplos reais o uso de dados e algoritmos em larga escala, que causam aumento da desigualdade e ameaça o estado democrático. Embora a lei entre em vigor em um ano e muita discussão ainda ocorrerá ao redor deste tema, é fundamental que a sociedade civil faça uma reflexão profunda sobre o tema.

Felizmente há um movimento global ao redor do tema. Em março deste ano, no evento realizado anualmente há décadas em Austin Texas chamado SxSw, vários palestrantes abordaram o tema de privacidade dos dados e suas expectativas de futuro. Uma das mais impactante foi a palestra de Roger McNamee, investidor anjo do Facebook, que acaba de lançar um livro chamado “Zucked”. McNamee questiona abertamente o modelo de negócio das grandes Tech que criaram um modelo de monetização baseados no uso de dados pessoais que em sua grande maioria ultrapassa a barreira do ético e propõem um papel mais ativo do estado com legislação mais rígida.

Voltando ao Elixir…. Hoje vivemos um frenesi no mercado ao redor de Inteligência Artificial e parece que, sem seu uso, seria como comer comida sem tempero. Talvez podemos explicar este movimento da seguinte forma:

Mudança na visão do capital: Com rentabilidades abaixo das esperadas no mercado de Bonds e Equity, investidores institucionais começam a injetar bilhões de dólares em fundos de Venture Capital, superando inclusive injeções no mercado de Private Equity. Isso, por um lado, é um sinal positivo, pois demonstra que o modelo atual não vem entregando e os VCs de certa maneira tem liberdade de investir na nova economia. São investimentos em startups que apresentem novos modelos de negócio e que, na grande maioria de suas teses, questionam vários dogmas de negócios centenários. Porém, a eventual explosão de vários setores com o uso de IA e tecnologia em geral, e na sua grande maioria, traz efeitos de produtividade que apresentam uma grande externalidade negativa: o desemprego em massa.

Neste contexto, como líderes temos que pensar nas 2 frentes: usar tecnologia para termos organizações mais eficientes e perenes, mas ao mesmo tempo pensar como faremos com toda esta gente que precisará trabalhar.

Hoje no Brasil temos quase a população da Espanha sem ocupação. Esta geração dificilmente conseguirá se realocar. E este é um problema de todos. Estudo recente da FGV faz um mapeamento profundo da desigualdade, colocando a fotografia atual muito pior que na era pré-lula. Atualmente, o Brasil é o país democrático com maior concentração de renda do mundo. Lideramos o ranking. Ou seja, algo está bastante errado no nosso modelo e devemos nos envergonhar disso, mais do que o 7X1 para Alemanha em 2014.

Para ajudar a mudar esta obscura realidade, proponho um desafio aos líderes brasileiros que incluam em seu objetivo comercial algum elemento que remeta ao conceito de “desemprego neutro”, na mesma linha que já vem sendo feito na questão do impacto ambiental como uso de energia ou resíduos industriais. Principalmente grandes grupos econômicos deveriam se responsabilizar por isto. Sair da posição que o “problema não é meu” e tomar este desafio como pilar fundamental de construir uma sociedade mais justa e sustentável. Como você vê este cenário: ex-funcionário trabalhou por 20 anos na empresa e sua função é substituída por IA, e neste momento não apenas deixar de ser um colaborador da companhia como não tem os skills para se recolocar na nova economia. Estranho, não?

Sem dúvida a IA traz benefícios em várias áreas e, em algumas delas, traz impacto positivo disruptivo para a sociedade. No entanto, temos que olhar esta “revolução” com um certo grau de distância, buscando projetar seus efeitos colaterais e assumir responsabilidades sobre isto.

É importante salientar que I.A. é a saída para melhorar a sociedade e não degradá-la mais. A equação deve sustentar empregos, ser inclusiva, e ter profundo respeito ao meio ambiente. E que faça bom uso de dados pessoais.

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*Federico Sader, CEO alexandria.ai

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