Fraldas & pneus

Fraldas & pneus

José Renato Nalini*

25 de setembro de 2020 | 05h45

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

O confinamento na pandemia deve servir para alguma coisa. A experiência dolorosa de perda de centenas de milhares de pessoas e o distanciamento social não podem passar como se nada fosse. Há um ceticismo generalizado em relação à efetiva transformação da alma humana. Mas ele convive com um resquício de esperança. A de que os seres racionais passem a agir menos irracionalmente do que até este momento.

Algo que precisa entrar no radar da sociedade planetária é a exaustão do planeta e o exaurimento de seus recursos naturais. Utilizados com prodigalidade que chega a ser criminosa, eles hoje são insuficientes para garantir o nível de vida ambicionado por bilhões de pessoas. É truísmo dizer que no momento em que chineses e indianos tiverem o status de consumo norte-americano, a humanidade precisará de mais cinco planetas Terra para extrair insumos. Por enquanto, nada à vista.

Por isso mesmo, é bom pensar em substituição de hábitos e adoção de posturas mais éticas. Mais ecologicamente corretas.

Já se faz alguma coisa nesse sentido. A troca da economia linear pela economia circular. Até agora, caminhamos nessa reta exauriente do patrimônio natural: extraímos um produto da natureza, convertemo-lo em commodity, usufruímos dele e nos descartamos.

A economia circular se chama assim porque é um ciclo completo. Extração, fabricação, uso e destinação correta. Se possível, com novo ingresso no ciclo da utilidade, sem gerar detritos ou os resíduos sólidos que costumamos chamar de “lixo”.

Essa ideia provém do conceito de sustentabilidade. Uma consciência de que os bens materiais são finitos e que precisamos atuar com inteligência e modicidade para que eles não venham a faltar.

“Sabendo usar não vai faltar”, é uma boa síntese. Só que uma sociedade perdulária não tem noção de que o desperdício significa não apenas aprofundar a desigualdade entre os seres humanos, alguns com sobra, outros com falta do essencial. Mas representa coisa muito mais séria: o esgotamento da riqueza gratuitamente oferecida ao bicho-homem e sua condenação a uma precoce extinção. Assim como já aconteceu com inúmeras outras espécies no decorrer da História.

Países civilizados cultivam há muito essa lógica. Passaram por guerras e privações. Não desperdiçam. Elegeram a “logística reversa” como lema obrigatório e indiscutível. Quem fabrica algo tem de se responsabilizar pela vida útil desse produto, até destinar o que restou à reciclagem, ao reaproveitamento ou à transformação em outro produto de igual utilidade.

A Escandinávia, por exemplo, é um modelo. Não existe lá o “desmanche”, atestado escancarado de subdesenvolvimento. Quem fabrica um carro é responsável por sua carcaça. Da mesma forma os eletrodomésticos que, no Brasil, vão parar nos “lixões” ou comprometer ainda mais a péssima qualidade de nossos rios. Todos mortos, condenados a transportar esgotamento doméstico, resíduo tóxico de indústrias e toda a parafernália de que a população se livra, de maneira errada e prejudicial.

Os poucos bons exemplos de coleta seletiva, reciclagem, descarte correto, são ainda ínfimos. A causa é a falta de educação ambiental. Embora prevista na Constituição, ela é componente esquecido, a não ser no discurso e nas campanhas eleitorais.

Educação ambiental consistente significa a conscientização de todas as pessoas, não somente os estudantes, de seu compromisso em relação à natureza. É algo que tem início em casa, prossegue na escola e na vida. Toda pessoa é responsável pela depauperação do planeta. Mas toda pessoa pode fazer algo no sentido contrário. Zelar pelo ambiente. Do qual fazemos parte como elo, o mais destrutivo, mas também frágil como os demais.

Chamei esta reflexão de “fralda & pneu”, porque são dois produtos insuscetíveis de absorção natural. A imensa maioria dos pais que adquirem as fraldas descartáveis, já nasceram nas décadas em que o ambientalismo passou a ser crescente preocupação mundial. São nativos digitais, millenials e muito mais convictos de que a natureza corre perigo concreto e a cada momento mais ameaçador. Só que não hesitam no uso dessas fraldas descartáveis que permanecem durante quanto tempo a poluir o ambiente?

Os pneus geram lucro fabuloso para quem os fabrica. Mas quais são as marcas responsáveis por sua coleta depois da última troca e de seu reaproveitamento? Todas as vezes que encontramos as inúmeras amostras da ausência de educação ambiental em monturos, material atulhando próprios públicos sem destinação, logradouros públicos ou, pior ainda, leito dos cursos d’água, o pneu é presença constante.

Que tal começar por esses dois produtos, obrigando seus fabricantes a se ocuparem do que resta depois da utilidade a que se prestam? Não é impossível e já seria uma contribuição muito bem vinda para este ambiente desrespeitado, vilipendiado, destruído e incendiado, que não parece fazer parte da realidade brasileira.

Inúmeros alertas de cientistas atribuem aos atentados à ecologia o surgimento de pestes como o Covid19 e prometem uma sequência de outras pragas, se não houver abrupta conversão do causador das desgraças. E quem é ele? Exatamente aquele exemplar que se autointitula racional e que se diz imagem e semelhança do Criador.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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