Fragilidades nacionais e internacionais em tempos de eleição

Fragilidades nacionais e internacionais em tempos de eleição

Leila Rocha Pellegrino*

27 Agosto 2018 | 06h00

Leila Rocha Pellegrino. FOTO: DIVULGAÇÃO

A combinação de pressões do mercado internacional e de preocupações com as eleições impactou na expressiva desvalorização do real frente ao dólar nos últimos tempos. O mercado acompanhou apreensivo as flutuações da moeda estrangeira que, de imediato, aumentaram os custos dos insumos importados impactando na atividade produtiva em geral.

A fragilidade do mercado internacional é resultado corrida por opções de investimento mais seguras por parte dos investidores internacionais. O comportamento de aversão ao risco faz com que os investidores internacionais diminuam o interesse por ativos de países emergentes, percebidos como opções de maior risco. Esse comportamento é motivado pela manutenção da taxa de juros norte-americana em 2% com expectativa de alta nos próximos meses, que acaba por reduzir a disposição por ativos de risco.

A crise monetária da Turquia reforçou um comportamento de aversão global ao risco e intensificou a saída de capitais em diversos países emergentes. Adicionalmente, a maior fragilidade política de Donald Trump contribuiu para a precariedade do cenário internacional.

Contudo, se, por um lado, diversas economias emergentes tiveram uma desvalorização significativa em suas moedas, a intensidade do impacto sobre a economia brasileira, revela, por outro lado, que há mais fatores amplificando o valor da moeda estrangeira por aqui. O palpite forte está nas indefinições do processo eleitoral.

A desvalorização do real frente à moeda americana na última semana foi da ordem de 6,18%. No acumulado do ano, o dólar já se valorizou 23,5% em relação ao real. O fluxo cambial (a diferença entre a saída e a entrada de dólares no país) é da ordem de US$ 5,8 bilhões no mês de agosto, segundo o Banco Central. Diante desse cenário, o mercado ainda se ressente de um posicionamento mais efetivo do Banco Central em meio a flutuação do câmbio.

Em meio a apreensão dos mercados, o setor exportador comemora o aumento das expectativas de ganho advindas da condição cambial. A queda acentuada do dólar e a melhora na relação entre custos de produção e preços dos produtos exportador elevaram as expectativas de que haja um aumento da rentabilidade do setor exportador em 2018. Apesar dos resultados positivos obtidos com a desvalorização da moeda, a volatilidade do câmbio impossibilita o estabelecimento de diretrizes estratégicas para o setor com maior alcance temporal aproveitando a vantagem cambial. O resultado, portanto, dificilmente terá implicações duradouras em termos de ganho de competitividade para o setor.

É preciso que se diga que, com a proximidade das eleições, as apreensões acerca dos rumos da economia brasileira devem ser arrefecidas no futuro próximo. Também é possível uma diminuição da volatilidade da moeda estrangeira nos próximos meses. O que permanece é a ausência de esforços nacionais para reforçar a competitividade da estrutura produtiva brasileira em bases mais sólidas, para além das flutuações do câmbio. Fragilidades internacionais são esperadas de tempos em tempos.

Além disso, em estruturas políticas democráticas, as eleições são recorrentes e constitutivas do modelo. O problema da economia brasileira não é o pleito em si, mas ausência ações que promovam a competitividade e crescimento e minimizem a vulnerabilidade as economias a especulações diversas. Há um logo caminho a ser percorrido, estamos no início da jornada.

*Leila Rocha Pellegrino é professora do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas (CCSA) da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas

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