‘Foram gananciosos’, diz Procuradoria sobre empreiteiros da Lava Jato

‘Foram gananciosos’, diz Procuradoria sobre empreiteiros da Lava Jato

Em documento anexado aos autos da ação contra ex-executivos da Camargo Corrêa, MPF diz também que Paulo Roberto Costa 'não resistiu ao instinto de construir um patrimônio milionário às custas da administração pública'

Redação

01 de junho de 2015 | 18h23

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Da esquerda para a direita: Avancini, Leite e Auler. Fotos: Reprodução

Por Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

A personalidade de sete réus da Lava Jato foi analisada nas alegações finais entregues pela força-tarefa da Operação Lava Jato à Justiça Federal. Para os nove procuradores que subscrevem o documento de 152 páginas, os empreiteiros Dalton Avancini, Eduardo Leite e João Auler e o policial federal Jayme de Oliveira, o ‘Careca’, foram gananciosos. O ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa, segundo a Procuradoria da República, ‘não resistiu ao instinto de construir um patrimônio milionário às custas da administração pública’.

“Suas ações foram movidas a fim de buscar exclusivamente o bom desempenho da empresa a que serviam e, consequentemente, as suas ascensões funcionais dentro da Camargo Corrêa. Foram, pois, gananciosos. Ademais, todos possuem excelente formação acadêmica e qualificação, com discernimento acima do homem médio”, aponta a Procuradoria, se referindo a Avancini, Leite e Auler. “Tinham mais condições, portanto, de não apenas perceberem a gravidade de suas condutas como também de recusarem o seu envolvimento em tais práticas ilícitas. Dalton e Leite, porém, claramente arrependeram-se de suas condutas, o que é revelado não apenas pelas suas colaborações, mas também do conteúdo de seus interrogatórios. Tal fato será sopesado na fase adequada da dosimetria.”

Dalton Avancini e Eduardo Leite firmaram acordo de delação premiada e admitiram o pagamento de propina no esquema de corrupção instalado na Petrobrás e desbaratado pela força-tarefa da Lava Jato. Memoriais representam a fase final da ação criminal. Nesse documento os procuradores reiteram, basicamente, o que já sustentaram na denúncia apresentada à Justiça, mas reforçam o pedido de condenação com provas colhidas ao longo da fase de instrução do processo, entre os quais depoimentos e documentos periciados.

Paulo Roberto Costa atuava, segundo a PF, com facilitador do doleiro Alberto Youssef na Petrobrás, tanto no período em que ocupava o cargo, entre 2004 e 2012, quanto depois, como consultor do setor petroquímico (Foto: Dida Sampaio/Estadão)

Paulo Roberto Costa, primeiro delator da Lava Jato. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O Ministério Público Federal também criticou a postura de Paulo Roberto Costa, já condenado em uma das ações da Lava Jato pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro. Delator da Lava Jato, Paulo Roberto Costa está em prisão domiciliar desde outubro de 2014. Em seus depoimentos ele escancarou o esquema de corrupção na Petrobrás e revelou o envolvimento de deputados, senadores e governadores no recebimento de dinheiro ilícito.

“Deve-se ser considerado em relação a PRC o fato de ser engenheiro da Petrobrás, com ótimo salário, muito acima do valor médio ganho pelo brasileiro, com previdência garantida e conjunto patrimonial confortável. Embora elevado grau de instrução e discernimento, não resistiu ao instinto de construir um patrimônio milionário às custas da administração pública (em prejuízo da coletividade)”, afirmou a Procuradoria.

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Lava Jato pede condenação de ex-executivos da Camargo Corrêa

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Jayme ‘Careca’ é acusado de entregar dinheiro vivo a mando do doleiro Alberto Youssef, personagem central e delator da Lava Jato. Apontado como ‘carregador de malas’, ele afirmou em depoimento à Justiça que era “apenas um office boy” de Youssef. ‘Careca’ teria realizado pelo menos 31 entregas em espécie. Na contabilidade do doleiro, chamada “Transcareca”, há indicativos de que ele entregou R$ 13 milhões, além de US$ 900 mil e mais 365 mil euros.

“É policial federal, recebendo salário do Estado acima do valor médio dos brasileiros e praticou os fatos narrados na denúncia em total confronto com os valores e normas que se comprometeu a respeitar. Agiu, pois, por ganância, sustentando a prática de crimes de poderosa organização criminosa”, afirma a Procuradoria. “Além disso, tinha conhecimento que suas atividades se dirigiam a alimentar grande esquema criminoso, envolvendo parlamentares inclusive, fato que vai de encontro com sua função de policial, que deveria zelar pela não violação de bens jurídicos protegidos pelo direito penal.”

Alberto Youssef está preso desde março de 2014. Foto: Vagner Rosario/Futura Press

Alberto Youssef está preso desde março de 2014. Foto: Vagner Rosario/Futura Press

Sobre Alberto Youssef, a Procuradoria disse: “Pesa contra Youssef ainda o fato de ter dedicado a sua vida à prática de crimes, sempre envolvido nos maiores casos de corrupção do país, como o caso Banestado e agora a Lava Jato”, disseram os procuradores.

Adarico Negromonte também é acusado de entregar dinheiro vivo a mando do doleiro. Ele afirmou à Polícia Federal que não era entregador de dinheiro do doleiro. Para os procuradores, “a personalidade de Adarico deve ser considerada de forma negativa, visto que também tinha conhecimento que suas atividades alimentavam vultoso esquema criminoso, envolvendo inclusive parlamentares.”

João Auler nega envolvimento com o cartel e pagamento de propinas. Jayme Careca, em depoimento à Justiça Federal, negou ser ‘distribuidor’ de propinas a mando do doleiro Alberto Youssef. Ele disse que entregava ‘envelopes lacrados’ a pedido de Youssef, sem saber, porém, o conteúdo.

 

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