‘Foi um acidente, não queria que ele me tocasse’

‘Foi um acidente, não queria que ele me tocasse’

Leia o relato dramático da mulher de 39 anos que foi condenada a 6 anos em regime semiaberto pelo homicídio de Leonardo, colega de trabalho no Tocantins que a assediava e humilhava

Julia Affonso

16 Agosto 2018 | 13h20

Trecho da defesa apresentada à Justiça. Foto: Reprodução

“Foi um acidente. O Leonardo, na segunda-feira, me chamou para fazer vaquinha e me desrespeitou. Eu falei pra ele que eu não tinha gostado da brincadeira. A gente discutiu. Ele foi embora em outro carro, que não era o carro da firma. Eu fui para casa. No outro dia na firma, ele tinha contado para todo mundo o que tinha feito, que tinha falado isso comigo e que eu não tinha gostado. Na hora do almoço, o sr Antonio, que trabalhava lá, ele veio e falou assim: ‘foi verdade que o Leonardo te chamou para fazer vaquinha e que você dá o rabo?’. Naquela hora eu me senti muito ofendida e constrangida na frente de todos aqueles homens que trabalhavam lá. Saí do meu horário de almoço, que não estava no final e voltei pro lugar que eu ficava vendendo areia. Lá é uma empresa de mineração que vende areia e seixo. Quando foi no meio da tarde, o Leonardo subiu e chegou um pouco desconfiado porque os meninos haviam ido dizer a ele que eles tinham vindo me perguntar e que eu não tinha gostado. O Leonardo saiu, se eu não me engano, e voltou de novo pra me perguntar se eu queria fazer vaquinha. Eu falei que não e falei pra ele me respeitar. Nós começamos a discutir por causa disso. Eu e ele. Falei pra ele me respeitar e tomar vergonha na cara porque eu estava ali trabalhando. O Leonardo me encurralou de uma forma que eu não tinha como passar. Eu falei pra ele que quem tinha cara de quem dava o rabo era ele. Ele torceu meu braço e eu recuei. Eu não queria que ele me tocasse, eu fiquei com muito medo de ele me violentar, que seria pior. O que seria pior: ser violentada ou estar aqui hoje? Eu não sei dizer para vocês. Mas o fato é que quando eu recuei, eu pedi: ‘sai da minha frente que eu quero passar’. De um lado tinha uma parede, que era o banheiro, do outro lado tinha a cerca de arame farpado, a divisa de onde eu tava. Do outro lado tinha esse lugar que o V. (testemunha) falou, que é onde ele dormia e onde era a cozinha. A faca estava lá. Eu não levei faca de casa, eu não premeditei nada. Eu pedi para ele sair da minha frente, porque eu queria passar e quando eu vi o Leonardo levantando a camisa, que na camisa não está perfurada, eu queria passar. Eu não queria sofrer aquilo. Eu não estava ali para isso. Eu queria passar, eu queria ir embora para a minha casa. Eu não tinha nem como ir, porque a firma não deixava o carro 24 horas para a pessoa ir para casa se precisasse. Tinha que ligar em Palmas. Foi isso que aconteceu. Eu só queria passar, ir para minha casa. Eu não estava para sofrer abuso, aquele tipo de humilhação. Encarregado, todo mundo sabia, ninguém tomou uma atitude. O V. estava lá. O V. é confuso, porque eu sei onde ele estava. Eu lembro que ele falou: ‘parem com isso’. Mas em nenhum momento, ele vendo eu acuada naquele beco, ele tomou uma atitude de nos ajudar. Naquele momento eu estava sozinha e vendo o V. me olhando, vendo o que é que vai dar. Eu era uma mulher no meio de muito homem. Eu estava ali porque precisava. A faca estava lá. Só tinha uma faca na firma. Era a faca que eu usava para cortar verduras, que eu levava minha saladas. Nesse dias, no horário do almoço, tinha vindo laranja, entendeu? Eu lembro que eu peguei a faca pra cortar laranja. Só que no momento que eu me vi acuada, eu falei: ‘eu tenho que passar, eu não vou sofrer isso’. Eu estava em frente à pia e o Leonardo na minha frente. É um beco, onde tinha uma pia e uma porta que entrava para o quarto do V. O V. ouviu eu falando: ‘Leonardo, sai da minha frente’. Eu já estava com a faca na mão, pedindo a ele para sair da frente. Eu pensei que quando eu pegasse essa faca, ele ia recuar. Eu parada onde eu estava e ele parado onde ele estava. Eu: ‘sai da minha frente’. Não tinha outro lugar para passar. Eu queria só que ele saísse da frente que eu ia embora. Eu não estava mais disposta a permanecer um dia mais naquele lugar. Eu só dei… só foi uma (facada). Eu não vi (onde pegou). Depois eu passei, ele ficou conversando, eu não vi sangue. Para mim, eu não tinha furado ele. Eu não vi sangue, eu peguei minha bolsa e saí andando. De lá onde eu estava até onde eu podia pegar um transporte para voltar para minha casa era uns 2 quilômetros. Eu saí andando, desorientada, porque aquela situação foi muito difícil. Umas 18h, alguém ligou no telefone da empresa, que estava comigo, porque eu estava vendendo areia, mas eu sou auxiliar administrativo. Eu não era vendedora, mas eu estava lá. Eu estava com o dinheiro da empresa e o celular, as coisas da empresa, tudo comigo. Eu saí com as coisas da empresa, porque eu também fiquei pensando se eu deixava. Na hora que eu vi, eu falei: ‘não, eu vou levar’. Alguém ligou no celular da empresa, um funcionário e disse que ele tinha vindo a óbito. Foi muito difícil. O Leonardo gostava de contar da vida pessoal dele, um tipo de brincadeirinha pesada de ‘gostosa’, de ‘se eu te pegar assim’, essas coisas assim que lá era muito comum no ambiente deles, mas para mim isso não era comum. Eu relatei à dona da empresa e ela falou que… Eu pedi a ela para sair, porque não ia dar certo eu ficar lá. Ela falou que eu tinha que engoli alguns sapos. Ela viu que eu ia sair mesmo, ela falou: ‘então, espera arrumar alguém e você sai.’”

Interrogatório de T.N.F.S à Justiça, em 7 de agosto de 2018. A mulher foi condenada a 6 anos em regime semiaberto por homicídio simples contra seu colega de trabalho.

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