“Foi exonerado e saiu magoado”, diz ‘Carteiro Reaça’, sobre ex-assessor que denunciou rachadinha

“Foi exonerado e saiu magoado”, diz ‘Carteiro Reaça’, sobre ex-assessor que denunciou rachadinha

Gil Diniz, líder do PSL na Assembleia Legislativa de São Paulo, afirmou que Alexandre Junqueira, que o denunciou ao Ministério Público, foi demitido por falta de 'produtividade' e que sua versão tem 'várias incongruências e contradições'

Luiz Vassallo

16 de outubro de 2019 | 05h27

Deputado estadual Gil Diniz (PSL) Foto: CAROL JACOB/ALESP

“Saiu magoado e agora fez essa denúncia”, reage Gil Diniz, líder do PSL na Assembleia Legislativa de São Paulo, à denúncia de ‘rachadinha’ em seu gabinete feita por um ex-assessor ao Ministério Público de São Paulo.

Alexandre Junqueira, que passou cinco meses na Assembleia com salário de R$ 15 mil, alega ter presenciado a devolução de parte dos salários de seus colegas. Também diz que uma amiga de mais de uma década do deputado é ‘fantasma’.

Junqueira é conhecido como ‘Carioca de Suzano’. O deputado, que também tem apelido – Carteiro Reaça -, diz tê-lo conhecido como ‘apoiador de Bolsonaro’, ainda antes da campanha eleitoral. “E pelo conhecimento que ele tinha da região dele, onde fui extremamente bem votado”.

Diniz, que foi assessor de Eduardo Bolsonaro na Câmara até 2018, quando se elegeu, afirma que o ex-servidor não tinha ‘produtividade’ e foi exonerado.

O assessor relata ter sido afastado 14 dias após sua nomeação, como represália por ter se recusado a devolver seus vencimentos. Segundo dados da Assembleia, os vencimentos de R$ 15 mil continuaram a ser debitados em sua conta. “Eu não ia falar: ‘olha, 14 dias, vou te punir, vai para casa receber salário’. A punição é: ‘olha só, você não quer trabalhar, vai ser demitido e pronto’. E foi o que aconteceu”, debate Diniz.

Em suas redes sociais, ele tem fotos acompanhando a agenda do deputado em 19 de junho, por exemplo. “Estivemos hoje na Sede do Comando de Policiamento de Área do Alto Tietê em Mogi das Cruzes (CPA/M-12), representando o Deputado Estadual Gil Diniz, em Solenidade de Valorização ao Policial Militar. Prazer ter em minha companhia o amigo Major Castro. Satisfação conhecer o Comandante do Alto Tietê, Cel PM Prado e o Comandante do Batalhão de Polícia Militar de Suzano, Ten Cel PM Caruso.#carteiroreaça #cariocadesuzano”, afirmou.

Em outra foto, aparece com assessores da liderança do PSL, também em junho.

O deputado afirma que, após a demissão, o assessor passou a espalhar a denúncia para amigos. “Depois disso, ele começou a ligar para amigos meus para falar, né? que eu era bandido, que eu não tinha conduta ilibada. Para justificar a exoneração, ele teve que me acusar. Então, vários amigos meus me alertaram, né?”

LEIA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA:

Estadão: O que seu ex-assessor diz é verdade?

Gil Diniz: Não há nenhuma verdade. Ele ficou magoado porque eu precisei exonerá-lo a bem do serviço público. Ele não se adaptou à atividade de assessoria parlamentar e eu decidi não mantê-lo no quadro de funcionários. Tive uma conversa muito franca com ele. Expliquei os motivos pelos quais estava exonerando e, realmente, ele me ajudou muito na campanha. Mas, uma coisa foi a campanha eleitoral, e outra coisa é a realidade do gabinete de assessoria parlamentar. Eu escolhi assessores qualificados para os cargos e também pelo desempenho. E às vezes a pessoa está qualificada para o cargo, mas não tem desempenho. Ele passou um tempo de adaptação com a gente, não se adaptou e eu decidi exonerá-lo. Saiu magoado e agora fez essa denúncia.

Estadão: Era uma questão de produtividade?

Gil Diniz: A bem do serviço, com meu chefe de gabinete, e meus assessores, achei por bem exonerá-lo. É comum, poxa. Em uma empresa acontece isso, no gabinete acontece isso. Em todo lugar acontece isso. A gente não tem que manter um funcionário porque tem uma relação de amizade, teve esse apoio na campanha. Várias pessoas me ajudaram na campanha também. Fui votado praticamente no estado inteiro. E a gente chegou a essa decisão. Agora, infelizmente, ele precisou desse artifício. A gente sabe que é uma manobra de muitos aqui na Casa, que, quando são exonerados, acabam usando desse artifício. Mas, a denúncia, que chegou aqui pra mim, está sem fundamentos. Tem várias incongruências e contradições. Então, a gente vai responder sem problema nenhum não só à imprensa mas à Justiça. Colocar meus extratos bancários à disposição. Vou solicitar aos assessores também.

Estadão: O senhor abriria seu sigilo bancário à Justiça?

Gil Diniz: Não só à Justiça como à imprensa. A quem quer que seja. Meus eleitores, não tem problema nenhum. Continuo com minha vida, os mesmos hábitos que sempre tive. Meus pais continuam morando no mesmo lugar, lá na zona leste de São Paulo. Meus filhos continuam estudando em escola pública, eu continuo usando transporte público. Não tem. Não alterou.

Estadão: Alexandre deixou o gabinete em agosto e fez a representação somente nesta segunda, 14. O senhor vê motivação política?

Gil Diniz: A gente está colocando nosso plano à disposição para a Prefeitura de São Paulo, para o presidente Bolsonaro. Ele me colocou como pré candidato. Mas eu avisei que não sou pré- candidato, mas estou à disposição do presidente. O Doria me citou ontem dizendo que eu armei uma vaia para ele e tudo mais. Então, são coincidências. Ele [Doria] me chama de comparsa do Major Olímpio no mesmo dia em que ele [Alexandre] faz essa denúncia. Agora, evidentemente que eu não posso fazer uma ilação dessa maneira, porque também não seria legal da minha parte. Mas, poxa, nosso mandato tem se destacado. Estou na liderança do PSL na Assembleia, e eu saberia que mais cedo ou mais tarde iria vir uma denúncia como essa ou qualquer uma outra, mas eu tenho 11 assessores aqui no gabinete, sou um dos 10 deputado que menos gastam aqui. Tenho total lisura com dinheiro do pagador de imposto. Então, estou muito tranquilo quanto a isso. Agora, ele vai ter que provar isso que ele me acusa. Tenho também que colocar a questão das contradições. Nessa questão que ele cita na denúncia, ele nunca recebeu gratificação.

Estadão: Ele me disse que não recebeu gratificação, porque com 14 dias de trabalho ele foi afastado. Ele ficou afastado e recebendo?

Gil Diniz: Não. Nós temos assessores que trabalham na Assembleia e também nas bases. Na região onde ele mora, em Suzano, eu eu fui muito bem votado, então, tinha uma votação em Mogi das Cruzes, tinha votação expressiva em Suzano, ele diz que em 14 dias foi afastado, mas, olha, ele foi em junho, fez uma agenda comigo em junho, em rádio. Em eventos aqui na Assembleia, ele esteve presente justamente depois disso. Ele foi visitar batalhões. Foi em reuniões. Me representaram. Ele protocolou, por exemplo, uma solicitação de emenda parlamentar de um batalhão em Mogi das Cruzes. Só que ele diz que a punição dele foi ficar em casa sem trabalhar, recebendo salário. Sendo que é discricionário. Eu podia demitir a qualquer momento, ou reduzir o salário dele. Passava para outro cara. Poderia fazer isso, publicar no Diário Oficial do outro dia e pronto. Então, é contraditória uma punição em que você fica em casa sem trabalhar.

Estadão: Houve afastamento dele? Ele ficou sem trabalhar em algum momento ou só a partir do dia em que foi exonerado?

Gil Diniz: Na verdade, ele vinha para a Assembleia e trabalhava também na base eleitoral no Alto Tietê, na região. Não teve afastamento. Tanto é que, poxa, ele fala que ia uma vez na semana, tudo mais. Ele assinava o livro de ponto normalmente e ficava com a gente aqui nos deveres que tinha, na rotina normal do mandato. Agora, ele trabalhava na base em Suzano e quando era requisitado estava comigo aqui na Assembleia. Se você perguntar para os deputados se me viram com ele aqui na Assembleia Legislativa, ele atendia o pessoal. Então, assim, essa questão de punição… a punição seria demiti-lo. Eu não ia falar: “olha, 14 dias, vou te punir, vai para casa receber salário”. A punição é: “olha só, você não quer trabalhar, vai ser demitido e pronto”. E foi o que aconteceu.

Estadão: Ele menciona em uma parte da representação uma amiga de 10 ou 12 anos. A quem ele se refere?

Gil Diniz: Eu tenho três assessoras: Magna, Adriana e a Sonaira. Eu não sei especificar de quem ele fala. As três trabalham normalmente. Tem as assessoras da liderança também.

Estadão: Todas são próximas do senhor há mais de uma década?

Gil Diniz: Não, a Sonaira, há cinco anos, a Magda também há mais de uma década. A Elaine também há bastante tempo. A Adriana também, mas a Adriana veio de outro mandato de um deputado que não foi eleito. Ele fala que ela trabalha e ficava só com o ticket refeição. Olha, isso é fácil de fazer. Só pegar as três assessoras e perguntar: quem de vocês aqui repassa salário pro deputado? Mostra o extrato bancário e tudo mais. Poxa. É sem pé nem cabeça.

Estadão: Como o senhor o conheceu e qual era sua relação com ele?

Gil Diniz: Ele fazia alguns vídeos para rede social na página dele, ‘Carioca de Suzano’, como apoiador de Bolsonaro, e, na época da campanha, ele se aproximou da gente aqui. Eu o apresentei para o próprio Eduardo. Ele me ajudou muito na campanha. O relacionamento é um pouco anterior à campanha eleitoral e ele ajudou bastante na pré-campanha, e na campanha também. E pelo conhecimento que ele tinha da região dele, onde fui extremamente bem votado, como ele era uma liderança ali da região, poderia trabalhar conosco normalmente, só que…

Estadão: Ele é uma liderança política da região? Qual era a ocupação dele antes de ser nomeado?

Gil Diniz: O que eu sabia, e inclusive, um detalhe que conversamos bastante no gabinete, ele tem uma empresa, e a própria Assembleia não permite que você seja sócio administrador da empresa e seja assessor. Então, foi uma das coisas que eu pedi para ele resolver.

Estadão: Do que era a empresa dele?

Gil Diniz: Era de ferragens, algo assim. Como ele era sócio administrador, eu falei que ele não poderia ser ao mesmo tempo em que estava na Assembleia. Resolve essa situação aqui para a gente. Até o dia que eu exonerei, o nome dele permanecia como sócio administrador. Então, assim, são várias coisinhas, sabe, várias rotinas de gabinete que levaram à exoneração. Uma coisa corriqueira. Nada de mais. Não houve da minha parte um constrangimento. Pra mim, foi mesmo uma surpresa que ele, depois desses erros. Por que ele não me denunciou enquanto estava trabalhando, ou sendo ‘punido em casa’, ou logo após a exoneração?

Estadão: Ele tinha um salário de 15 mil. Por que ele tinha qualificação para assessor legislativo com esse salário?

Gil Diniz: O cargo é político, né? Que não tem essa exigência. A exigência é fazer parte do trâmite político. Eu tenho até a descrição do cargo e posso te mandar. O que faz um assessor especial parlamentar. Eu entendi que ele tinha condições de ficar nesse cargo, mas começou o trabalho, logo que começou e não teve essa adaptação, chamamos, conversamos. Não teve como ficar, tive que exonerá-lo. Ele ficou cerca de 3 meses, que é justamente experiência. A maior parte das pessoas faz isso. Coloca os funcionários na experiência. Não se adaptou, eu tive que exonerar a bem do serviço público.

Estadão: O fato de ter sido feito depois da exoneração soa como retaliação?

Gil Diniz: Conversando aqui na Casa, parece que é uma prática comum aqui. A pessoa sai magoada com você e vai lá e tenta te retaliar de alguma maneira. Como nosso mandato está se destacando, estamos na liderança do PSL, surgiu essa oportunidade de disputar uma pré candidatura à Prefeitura de São Paulo, e, lógico, mexemos com vários poderes aqui no Estado, a gente é bem crítico ao governo, é natural. Eu tenho certeza que não vai ser a última denúncia que vamos receber até o final do mandato.

Estadão: Após a exoneração, houve animosidade da parte dele?

Gil Diniz: A conversa foi bastante amistosa. Depois disso, ele começou a ligar para amigos meus para falar, né? que eu era bandido, que eu não tinha conduta ilibada. Para justificar a exoneração, ele teve que me acusar. Então, vários amigos meus me alertaram, né? E ele ficava ligando, mandando mensagem no WhatsApp falando de uma má conduta da minha parte. Mas até então isso aí é o dito pelo não dito, né? Então, é seguir a vida aqui no mandado, na Assembleia.

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