Flusser: o centenário esquecido

Flusser: o centenário esquecido

José Renato Nalini*

08 de maio de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

O ano da pandemia nos fez deixar de lado muita coisa que não poderia ser esquecida. Uma delas: o centenário de Vilém Flusser, que nasceu em 12 de maio de 1920 em Praga. Sua ascendência era de intelectuais judeus.

Fruiu daquele centro cosmopolita que era a Checoslováquia, onde efervesciam criatividade e vanguarda cultural e artística. Além da música e das artes plásticas, vicejavam projetos inovadores em arquitetura e design.

Só que os alemães invadiram Praga em 1939 e Flusser, que estava no primeiro ano de Filosofia, fugiu para a Inglaterra, auxiliado por sua colega de classe Edith Barth, que viria a tornar-se sua mulher.

Em 1940 a família Barth emigrou para o Brasil e Flusser veio com ela. Permaneceram durante um ano no Rio de Janeiro e transferiram-se para São Paulo. Aqui, Flusser, nada obstante a pouca idade, tornou-se diretor de uma indústria de transformadores.

Inteligente e talentoso, aprendeu português, estudou filosofia e passou a produzir prolífica literatura. O primeiro texto sobre filosofia da linguagem foi publicado em 1957, no Suplemento Literário de O Estado de São Paulo.

Seu principal interesse era a Filosofia e entre 1958 e 1959 abandonou as atividades empresariais e entregou-se às atividades do Instituto Brasileiro de Filosofia. Foi Professor de Filosofia da Ciência na Escola Politécnica da USP e um dos fundadores do curso de Comunicação Social da FAAP.

Publicou em 1963 o livro “Língua e realidade”. Em 1964, tornou-se coeditor da Revista Brasileira de Filosofia. Esteve regularmente no Suplemento Literário do Estadão, além de manter coluna diária cujo título era “Posto Zero” na FSP. Colaborava também com o jornal alemão Frankfurter Allgemeine.

Retornou à Europa em 1972, estabeleceu-se em Robion, na França e ali esteve até sua morte. Escreveu para as principais revistas norte-americanas, francesas e alemãs. Seu tema era arte, cultura e fotografia. Proferiu milhares de conferências sobre novas mídias, tornando-se pioneiro no tema. Em 1981, o seu livro Filosofia da Caixa Preta, traduzido para o alemão, recebeu consagração e foi traduzido para oito outras línguas.

Quando visitava Praga pela primeira vez depois de cinquenta anos, sofreu acidente de automóvel e morreu em 27 de novembro de 1991.

Ao introduzir seu livro “O mundo codificado”, editado pela Cosac-Naify, Rafael Cardoso o considera um dos maiores pensadores da segunda metade do século XX e que, por sorte nossa, viveu mais de trinta anos no Brasil. Sua história parece anunciar, “como uma devastadora coerência alegórica os grandes dilemas que o mundo hoje enfrenta nos conflitos geminados entre tecnologia e miséria, liberdade e fundamentalismo, cultura e violência”.

Aqueles que acreditam que o planeta “caminha célere em direção ao atropelo fatal de seus valores mais essenciais”, podem, com clareza, “enxergar na pessoa de Vilém Flusser o prenúncio profético do desastre – e também, quem sabe, as primeiras indicações de uma saída para a maior crise que a humanidade já enfrentou, aquela de sua própria sobrevivência coletiva”.

Flusser entendia que a base de toda a cultura é a tentativa de enganar a natureza por meio da tecnologia. Sua reflexão é atualíssima nesta Quarta Revolução Industrial que nos mergulhou na realidade virtual, intensificada com a pandemia que nos impediu de aproximação física.

Conforme assinala Rafael Cardoso, Flusser nos coloca diante do desafio de responder se há diferença entre o material e o imaterial, se podemos trocar coisas por não coisas e se é possível armazená-las ambas. “Que destino devemos reservar para os detritos erados por nossa frenética atividade de transformação da natureza em cultura? Sim, porque o resultado final de toda nossa manipulação de palavras, imagens, artefatos, e um imenso acúmulo de lixo, mesmo que eletrônico”.

Quem já não pensou, em nossos dias sombrios e de pânico, que o fim da história parece, na verdade, ser o fim de nossa capacidade coletiva de lutar contra a entropia, contra a desagregação do sentido e da forma? Pois “se a base daquilo que entendemos por cultura reside na ação de in+formar, então não é paradoxal que o excesso de informação nos conduza à desagregação do sentido?”.

É isso o que Flusser se propõe a responder, “com uma visão aterradoramente lúcida do admirável mundo novo inaugurado no século retrasado pela industrialização e pelo advento da imagem técnica, cuja primeira manifestação teria sido a fotografia”

Com um ano de atraso, salve Vilém Flusser, que tanto nos oferece para tentar desvendar o mistério em que nos encalacramos, por creditarmos à técnica um poder salvífico do qual sua neutralidade não tem noção.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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