‘Flight-shaming’: a onda sueca que se espalha pelo mundo

Rodrigo Reis*

10 de junho de 2020 | 02h00

Rodrigo Reis. FOTO: DIVULGAÇÃO

Antes da crise gerada pela covid-19, o setor da aviação já vinha passando por uma transformação. Com as gerações mais jovens cada vez mais críticas sobre as responsabilidades ambientais das empresas, a emissão de carbono gerada pelos deslocamentos aéreos passou a ser pauta de ativistas do mundo todo.

Viagens de avião passaram a ser analisadas sob o prisma do impacto ambiental já que, segundo a Organização de Aviação Civil Internacional (OACI), o transporte aéreo responde por cerca de 2% das emissões mundiais e supera, por passageiro e quilômetro percorrido, as emissões dos transportes rodoviário e ferroviário. Para se ter uma ideia, um voo de classe econômica de São Paulo a Nova York emite, aproximadamente, 1,3 tonelada de CO2 por passageiro, que pode ser neutralizada com o plantio de uma média de cinco árvores.

O mea-culpa veio rápido. Boeing e Airbus propuseram aeronaves com novos motores para reduzir as emissões de dióxido de carbono. Companhias de todo o globo, incluindo brasileiras, aderiram a programas de compensação para redução de suas emissões a zero. A Air France, por exemplo, divulgou que compensaria, a partir de janeiro de 2020, 100% das emissões de CO2 de voos domésticos — o que representa cerca de 3,5 milhões de toneladas de CO2 por ano — a partir do financiamento de projetos de plantio de árvores, proteção de florestas, transição energética e conservação da biodiversidade.

Acordos que atendem a demandas civis como esses têm encontrado espaço na sociedade, principalmente a partir de 2017, ano em que um movimento de boicote ao transporte aéreo ganhou força na Suécia. O flight-shaming (ou flygskam, em sueco) é um termo que remete à culpa de voar em um momento no qual o mundo precisa reduzir
drasticamente as emissões dos gases de efeito estufa. O movimento não tem como objetivo envergonhar o viajante, nem fazer com que pessoas deixem de viajar pelo mundo. Trata-se da proposição de alternativas menos poluentes para o tráfego aéreo.

Com uma população de cerca de 10 milhões de pessoas, o povo sueco é um dos que mais viaja na Europa e 61% das emissões de CO2 do país são causadas apenas por viagens aéreas. Contabilizando 59 milhões de viagens em 2017 — o que equivale a cerca de seis viagens por pessoa, segundo o Eurostat, organização estatística da Comissão Europeia —, o sueco viaja, em média, sete vezes mais que o europeu comum.

Nesse contexto, o flight-shaming ganhou impulso, diminuindo o número de passageiros nos dez aeroportos mais movimentados da Suécia. Uma de suas adeptas, a jovem ativista Greta Thunberg, trocou o avião por duas semanas em um veleiro para chegar à conferência sobre o clima na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, onde o movimento se tornou conhecido pelo público. Outro entusiasta, o atleta olímpico Björn Ferry, começou a atuar como um dos porta-vozes do movimento.

O fenômeno fez crescer em 5% o número de viagens na rede ferroviária nacional da Suécia em 2018 e em 8% no primeiro trimestre de 2019, de acordo com a Swedish Railways. Enquanto isso, a venda de ingressos de trem para outros países da Europa aumentou 45% em 2018 — e deve crescer ainda mais passada a pandemia.

Em 2019, a empresa aérea escandinava SAS AB observou uma redução no tráfego de passageiros de 2%, ao passo que a operadora de aeroportos da Suécia informou ter registrado uma queda de 9% no número de passageiros em voos domésticos no ano passado em comparação com 2018. Ambas as empresas responsabilizaram o movimento pela queda.

Na contramão das companhias aéreas, a SJ, operadora ferroviária estatal sueca, registrou um recorde de quase 32 milhões de viagens em 2018 — um aumento de 1,5 milhão em relação ao ano anterior e quase 4 milhões a mais em relação a 2016.

Para seguir uma trilha mais sustentável, empresas locais como a Klarna Bank AB estão reduzindo as viagens corporativas de avião. O banco sueco proibiu seus funcionários de viajarem de avião dentro da Europa e tem desencorajado os voos de longa distância.

E mais: de acordo com uma pesquisa realizada pelo banco suíço UBS com 6 mil pessoas nos Estados Unidos, França, Alemanha e Reino Unido, 20% dos entrevistados dizem que já reduziram o número de suas viagens aéreas sob o efeito do “flygskam”.

Ao que tudo indica, a tendência seguirá forte nos mercados desenvolvidos pós-pandemia, moldando o comportamento das empresas, pessoas e aumentando a pressão sobre políticos para lidarem com o impacto climático. Mais do que incertezas, a pandemia global fez com que muitas empresas descobrissem que, em muitos casos, uma videoconferência pode substituir uma viagem.

Enquanto no Brasil as ferrovias não são exatamente uma alternativa aos voos de longa distância, o flight-shaming é uma inspiração para empresas seguirem uma agenda ambiental, pensando na compensação de carbono e na neutralização de suas emissões.

*Rodrigo Reis é internacionalista e diretor executivo do Instituto Global Attitude

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