Fiscal pegou propina em peito de frango, achou ruim e deu para cunhada e vizinho

Fiscal pegou propina em peito de frango, achou ruim e deu para cunhada e vizinho

Tarcísio Almeida, alvo de mandado de prisão na Operação Carne Fraca, em diálogo com fiscal definiu produto do frigorífico Peccin como ‘massa homogênea’

Julia Affonso, Luiz Vassallo e Mateus Coutinho

17 Março 2017 | 13h35

BRASÍLIA DF BSB 17/03/2017 POLÍTICA / OPERAÇÃO CARNE FRACA / POLÍCIA FEDERAL - A Polícia Federal (PF) cumpre, na manhã desta sexta-feira (17), 309 mandados judiciais em seis estados e no Distrito Federal. A operação, batizada de

FOTO DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

Um dos fiscais presos na Operação Carne Fraca nesta sexta-feira, 17, foi flagrado em grampo da Polícia Federal reclamando da qualidade dos produtos do frigorífico Peccin Agro Industrial que ele mesmo inspecionava. A investigação que cercou os maiores frigoríficos do País e descobriu ‘maquiagem’ de carne aponta que o fiscal Tarcísio Almeida Freitas recebia regularmente do frigorífico propina ‘em dinheiro e produtos cárneos’.

Documento

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No grampo, Tarcísio se queixa ao fiscal Sergio Pianaro – também alvo de mandado de prisão preventiva da Carne Fraca – sobre uma peça de peito de frango defumado.

“Mesmo recebendo pagamentos (‘propina’) regulares da empresa, em dinheiro e em produtos cárneos, Tarcísio reclama com Pianaro sobre a qualidade dos alimentos da Peccin, demonstrando sua plena ciência de que estava colaborando para introdução no comércio de alimentos totalmente inaptos ao consumo, gerando grande risco à saúde pública”, aponta a investigação.

Tarcísio diz a Sérgio que precisa fazer ‘um comentário’.

“Sérgio, um comentário, que eu vou comentar com você aqui, até chato, eu só vou falar pra você, não quero nem comentar aí não, sabe”, diz Tarcísio.
“Eu peguei um peito defumado de frango, decaiu muito o produto Peccin aí.”

Sérgio concorda. “Sueli falou a mesma coisa. ‘Meu Deus, Sérgio!’ O que é que é isso, cara?”

Tarcísio responde. “O pior Sérgio, não se pode criticar, eu sei que (ininteligível). Mas eu, com toda sinceridade, eu não comi, Sérgio. Eu dei um pedaço aqui pro vizinho, eu dei outro pra minha cunhada. Eu peguei um peito defumado e coisa assim. Aí quando eu fui cortar, Sérgio, não é aquele peito defumado que tenha carne gostoso. É tipo uma massa, tipo mortadela. Uma massa “homogênea”. Assim, tipo igualzinha uma massa de mortadela, avermelhada, tudo. Eu digo, não, decaiu muito. Vou até dar. Vou perguntar pro Sérgio se ele pegou algum peito assim.”

“É, o último foi bem, bem desagradável”, reconhece Sérgio.

Tarcísio ainda afirma. “Meu Deus, decaiu muito, Sérgio. Decaiu 100%, 100% do produto do Peccin aí, hem? Meu Deus!”

No diálogo, Tarcísio Almeida e Sérgio Pianaro ‘comentam sobre pretensões de transferência para outra localidade/empresa, e comentam que a Peccin vai ficar ‘à vontade’, ou seja, sem qualquer tipo de fiscalização’.

Uma testemunha, que foi a responsável técnica pelo controle de qualidade da Peccin em 2014 afirmou à Carne Fraca que ‘o fiscal Tarcísio, atuante na Peccin, sempre fazia constar em seus relatórios que os procedimentos da empresa estavam dentro da legalidade quando na verdade não estavam’. Segundo os investigadores, a testemunha ‘presenciou também a dona da empresa, Nair, dizendo que Tarcísio resolveria os problemas da empresa, mesmo os procedimentos sendo impróprios, ouvindo dizer também que o fiscal recebia uma contraprestação por assim agir’.

LEIA A ÍNTEGRA DO DIÁLOGO SOBRE O PEITO DEFUMADO

TARCÍSIO: Aaaa. Ô SERGIO, me diz uma coisa, e aí a PECCIN? Aí a PECCIN vai ficar praticamente assim à vontade, né?
SERGIO: É, mas é, você não se engane. Por que vai ser, há cada quinze dias vai ter vistoria lá.
TARCÍSIO: Aaaa. SERGIO, um comentário, que eu vou comentar com você aqui, até chato, eu só vou falar pra você, não quero nem comentar aí não, sabe.
SERGIO: Um hum. TARCÍSIO: Eu peguei um. EU PEGUEI UM PEITO DEFUMADO DE FRANGO, DECAIU MUITO O PRODUTO PECCIN AÍ. SERGIO: É tá muito (ininteligível). A SUELI FALOU A MESMA COISA. MEU DEUS, SERGIO! O QUE É QUE É ISSO, CARA?
TARCÍSIO: Ó, QUER VÊ, Ó. O PIOR SERGIO, NÃO SE PODE CRITICAR, EU SEI QUE (ininteligível). MAS EU, COM TODA SINCERIDADE, EU NÃO COMI, SERGIO. EU DEI UM PEDAÇO AQUI PRO VIZINHO, EU DEI OUTRO PRA MINHA CUNHADA. EU PEGUEI UM PEITO DEFUMADO E COISA ASSIM. AÍ QUANDO EU FUI CORTAR, SERGIO, NÃO É AQUELE PEITO DEFUMADO QUE TENHA CARNE GOSTOSO. É TIPO UMA MASSA, TIPO DE MORTADELA. UMA MASSA “HOMOGÊNICA”. ASSIM, TIPO. IGUALZINHA UMA MASSA DE MORTADELA, AVERMELHADA, TUDO. EU DIGO NÃO, DECAIU MUITO. VOU ATÉ DAR. VOU PERGUNTAR PRO SERGIO SE ELE PEGOU ALGUM PEITO ASSIM.
SERGIO: É, O ÚLTIMO FOI BEM, BEM, DESAGRÁDAVEL.
TARCÍSIO: MEU DEUS, DECAIU MUITO, SERGIO. DECAIU 100%, 100% DO PRODUTO DO PECCIN AÍ, HEM? MEU DEUS!

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